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Cinema / EU SOU MARIA

Protagonista de Eu Sou Maria, Núbia Maurício pensou em deixar carreira de atriz

Em entrevista à CARAS Brasil, Núbia celebrou primeiro papel nos cinemas com Eu Sou Maria e debateu a importância da representatividade nas telas

por Mariana Arrudas
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Publicado em 01/12/2023, às 17h00

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A atriz Núbia Maurício, protagonista do longa-metragem Eu Sou Maria - Foto: Elos estúdio
A atriz Núbia Maurício, protagonista do longa-metragem Eu Sou Maria - Foto: Elos estúdio

"Eu nasci de bunda virada para o asfalto quente, porque é tanta luta [risos]". A frase é de Núbia Maurício, jovem atriz que estreia nos cinemas como a protagonista de Eu Sou Maria. Em conversa com a CARAS Brasil, ela recordou os desafios da carreira e contou que pensava em deixar o ofício antes de ser escalada para o longa-metragem.

Em Eu Sou Maria, Núbia dá vida à protagonista, uma jovem de 15 anos que mora em uma comunidade do Rio de Janeiro com a mãe e o irmão mais novo. Após se destacar em uma prova de redação, ela consegue uma bolsa em um dos melhores colégios particulares da cidade, e precisa lidar com uma realidade completamente diferente daquela com a qual era acostumada.

Núbia começou a fazer testes para o filme de Clara Linhart em de 2021. Após receber muitas negativas para outros trabalhos, ela havia estabelecido que, se não conseguisse nenhum trabalho até o fim de seus 18 anos, desistiria do sonho de ser atriz e passaria a estudar para cursar Medicina.

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"[Isso] tendo em vista que hoje em dia muitas produções preferem número de seguidores do que qualidade. Quando estava chegando no final de 2021 eu vi no Instagram a seleção para Eu Sou Maria", recorda a atriz. Após ter sido incentivada por um professor, ela entrou em contato e passou a fazer diversos testes, até chegar na etapa presencial.

Ela fez testes para o papel da protagonista e também para o de Vanuza, amiga de Maria. Após duas semanas de testes e leituras, recebeu a confirmação de que faria a personagem principal do filme. Para além da emoção, a artista ressalta a importância da trama, que estreou nesta quinta, 30, e conta com nomes como Clara MonekeDaniel Dantas Cleo no elenco.

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Foto: Elos estúdio

"Nunca víamos um preto protagonizando. Hoje em dia, carregar esse legado, não só como artista preta, mas também como artista de baixo engajamento, está sendo incrível [por] entender que a nossa luta está conquistando espaço."

Núbia ainda acrescenta que sua história tem pontos similares à de Maria, e que o longa-metragem irá tratar temas como bullying, desigualdade social e a importância dos estudos. "Eu sei que não vai acabar, mas vamos conscientizar e mostrar que isso é presente e temos que pelo menos amenizar."

Abaixo, Núbia Maurício conta mais detalhes sobre sua carreira —que começou aos 10 anos nos palcos do teatro, dos bastidores de Eu Sou Maria e comenta sua relação com as redes sociais, como atriz de baixo engajamento. Confira a seguir trechos editados da conversa.


Como foi o início da sua carreira artística?
Fui uma criança que sofria muito bullying na escola por ser preta, ter cabelo cheio e cacheado. Quando fiz 9, eu deprimida implorava para minha mãe para alisar o meu cabelo e pintar de loiro. Ela viu minha angústia e fez. Quando eu fiz 10, meu pai chegou em casa e falou: 'Eu estudo com um rapaz que é professor de teatro, e ele está fazendo uma seleção de meninas. Você quer fazer? É o seu perfil'. Mas tinha um porém, tinha que ser preta e ter cabelo cacheado. Minha mãe é cabeleireira e falou: ‘Eu sabia que não era para fazer’. Então ela enrolou vários bigudinhos no meu cabelo, eu dormi com papelote, com a cabeça doendo. Quando eu fui fazer esse teste, eu estava com o cabelo cacheado. Infelizmente, não fui aprovada. Eles acabaram trocando o elenco de meninas pretas, as protagonistas foram brancas. Aí já foi a primeira pancada que eu levei no meio artístico.

Sua família sempre apoiou?
Por meus pais serem cristãos, eu imaginava que nunca seguiria essa carreira. Infelizmente, nesse meio temos a bolha que o artista não vai para o céu. [Mas], o primeiro a me incentivar nesse sonho foi o meu pai. Quando eu fiz 15, minha avó morreu e ela era uma das pessoas que mais me incentivava. A maioria das vezes que eu fazia [testes], estava pensando nos meus pais e na minha avó. Nesse meio tempo eu dei uma pausa de seis meses, porque tudo o que fizesse iria me lembrar a minha avó. Logo após, iniciei outro teatro em que eu era a mais nova da classe.

Eu Sou Maria é seu primeiro longa no cinema, já como protagonista. Como foi viver isso?
Eu tenho uma parte da Maria. Estudei o ensino fundamental e médio todo em escola pública, vivenciei muitas coisas que ela vivenciou. Meus pais sempre fizeram obras sociais, então desde criança eu vejo crianças se desencaminhando. Sempre lutamos que esse não era o caminho, que deveria estudar. Trazer isso é de uma importância gigante. Não vamos tocar apenas na ferida de meninas como a Maria, para elas não desistirem. Vamos cutucar o sistema, o Brasil, para poder colocar um ensino melhor nas escolas públicas. Também vamos cutucar a questão do bullying, da desigualdade social, que não é porque você tem mais dinheiro do que eu, que você é melhor do que eu.

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Foto: Elos estúdio

Você comentou que é uma atriz de baixo engajamento. Qual a sua relação com as redes sociais?
Todo mundo fala que eu tenho que gravar mais vídeos. Eu gosto muito de tirar fotos, mas ainda não peguei a paciência de estar todos os dias gravando Stories, postando um vídeo. Quando eu tenho um evento marcante, eu ponho um montão de Stories. Mas vou começar a gravar conteúdos, porque eu ainda sou atriz de baixo engajamento, então algumas produções não vão me aceitar. 

Estamos chegando cada vez mais perto do ano novo. Quais seus desejos para 2024?
Desejo que as atrizes e atores de baixo engajamento tenham suas oportunidades, porque é muito difícil ser artista; e que negros sejam mais vistos. Desejos também que eu trabalhe muito ano que vem, que eu trabalhe tanto que eu esqueça meu nome [risos], para poder abordar essas questões. Meu desejo é abrir uma porta e deixar ela aberta para outros atores como eu, que sonham e vem de baixo como eu. Eu nasci de bunda virada para o asfalto quente, porque é tanta luta.