Enfim chegamos a dezembro — e ao Natal, ao réveillon, às compras típicas da época, às férias, às viagens. É um mês turbulento, sem dúvida. De um lado, muita alegria, expectativas, preparativos. De outro, uma avalanche de decisões a tomar: onde e com quem serão as festas, qual haverá de ser o cardápio, se a família fará viagem de férias e para onde — campo ou cidade, montanha ou praia, calor ou neve. Muitas opções, muitas escolhas.
Se o casal está bem, se a família é unida, tudo é resolvido sem trauma. Cada um cede um pouco e o período é vivido em paz e com alegria. Mas nem sempre é assim. Alguns pais cobram a presença dos filhos casados na casa deles no Natal ou no réveillon — ou em ambos. Esquecem que há mais gente envolvida, parentes do companheiro do filho ou da filha que também querem estar com eles.
Consciente ou inconscientemente, pais e sogros jogam a semente de uma disputa que pode estragar o fim de ano e até as férias de toda a família. Muitos casais se atrapalham com essa situação e acabam brigando. Um diz: “Se você me ama, entenderia que meus pais estão velhos e precisam de mim. E você NUNCA faz o que eu quero”. E o outro: “Claro que te amo, mas você precisa entender que SEMPRE passei o Natal com meus pais, e eles não querem ir na casa dos seus porque sua mãe SEMPRE despreza minha, e ela se sente mal”. Em vez de paz e harmonia, o período é vivido com estresse e mau humor. O que era para ser confraternização vira um pesadelo.
A melhor maneira de evitar o mal-estar é o casal se antecipar às cobranças e dizer a todos o que prefere. Enquanto decidem, podem já informar aos pais: “Nós estamos resolvendo o que faremos no fim de ano. É uma decisão nossa. Vamos aceitar convites, mas não cobranças, e gostaríamos de unir todas as famílias.” Se a relação é equilibrada, se há amor, cada um pode ceder um pouco, para agradar o companheiro, sem se sentir culpado. Deve ficar claro que não há uma disputa de poder, que é um bom momento para esquecer e perdoar antigas brigas e desentendimentos. É hora de aproveitar o espírito do Natal, abrir os braços e o coração.
Não podemos esquecer que Natal e réveillon não são só festas e presentes, mas carregam muitos simbolismos, todos ligados à paz, à luz, à confraternização, ao amor ao próximo, à esperança. Por que não juntar todo mundo, simplesmente, sem críticas, sem cobranças, por que não agüentar com um sorriso o cunhado chato, os sogros, os tios? Por que não ter tolerância?
Consumismo e brigas mesquinhas devem ser esquecidos nesta época. Para os casais, pode ser uma boa ocasião para perdoar, esquecer e recomeçar. Prometer ser melhor pai, melhor marido ou mulher. Prometer mudar a si, sem tentar mudar o outro.
Dessa maneira, todos poderão ganhar um ano realmente novo, como no poema do mineiro Carlos Drummond de Andrade (1902-1987): “Para você ganhar belíssimo Ano Novo/ cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,/ Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido/ (mal vivido talvez ou sem sentido)/ para você ganhar um ano/ não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,/ mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;/ (...) que mereça este nome,/ você, meu caro, tem de merecê-lo,/ tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,/ mas tente, experimente, consciente./ É dentro de você que o Ano Novo/ cochila e espera desde sempre.”