Drica Moraes em um ato de liberdade e resistência: ‘Não gosto de me colocar rótulos’
Drica Moraes está em cartaz com a peça 'Férias'; em entrevista exclusiva à Revista CARAS, a atriz fala sobre carreira, vida amorosa e maturidade

Liberdade, humor e afeto: esses três elementos parecem costurar não só o novo trabalho de Drica Moraes (56), mas também sua própria trajetória. Em cartaz com a peça Férias — comédia na qual divide cena com Enrique Diaz (57) e traz à tona temas como amor, maturidade e choque de gerações —, a atriz reencontra os palcos com a leveza de quem aprendeu a transformar dor em riso, desafio em aprendizado e arte em resistência.
O caminho foi longo: além de somar mais de 40 anos de carreira, ela encarou a batalha contra uma leucemia, celebrou a cura e se reinventou. “Acho que voltei um pouco para a adolescência, no sentido que ainda me sinto para jogo, quero viver aventuras, não me defino e não gosto de me colocar rótulos. Tenho a vida que sempre quis. Uma adolescente que tem uma carreira e a casa própria!”, brinca ela, em papo exclusivo com CARAS.
– As temáticas abordadas na peça atravessam sua história…
– A peça é fruto de um desejo meu de voltar aos palcos depois de muito tempo, falando da mulher de 50+. Como estão nossos desejos, nossa percepção do mundo, a percepção de nós mesmas com nosso corpo, com os filhos, os parceiros. A peça reflete todas essas indagações que também são as minhas. É um casal totalmente fora da casinha, com uma compulsão sexual engraçada, que ganha uma viagem de cruzeiro para celebrar 25 anos de casamento e se envolver em situações bizarras. Esse casal é um símbolo da liberdade em qualquer idade, liberdade de ser feliz e de fazer o que quiser sem pensar nos julgamentos alheios.
– Como encara essa liberdade?
– Cresci em um ambiente livre. Minha mãe sempre teve liberdade, diálogo e carinho. A gente conversava sobre absolutamente tudo, então entrei na adolescência sem sentimentos de culpa. Culpa de conhecer meu corpo, meu prazer. Tenho isso desde menina e trouxe para a vida adulta, mas se acentuou depois da minha cura. Apesar de o mundo ser duro e cruel, a gente tem obrigação de ser feliz.
– A peça ajuda a construir esse olhar de liberdade?
– A arte funciona exatamente como o espelhamento da vida, é um apoio e um ponto de transcendência, porque abre novas perspectivas do mesmo tema e te ajuda a encarar seus próprios dilemas.
– E em cena vocês fazem isso com muito humor!
– Era o que eu queria, transcender um pouco a desgraça da vida. O ser humano deu errado como coletivo, mas existe beleza, delicadeza e a gente precisa olhar para isso, senão vira tortura. O humor é um bálsamo, ele ajuda a pensar temas difíceis de forma leve.
– Independentemente do gênero, é difícil fazer teatro no Brasil?
– Em todos os sentidos, o teatro é, foi e será sempre um movimento de resistência. Por exemplo, a gente não tem patrocínio, é um dinheiro bancado por mim e meu sócio para a peça acontecer. Graças a Deus, tem sido bem recebida e o público se multiplica pelo boca a boca. Além disso, tem um investimento emocional e físico. A peça tem uma fisicalidade absurda, eu pulo, rodo, rodopio o tempo todo… em 1h15 de peça eu perco 1,5 kg na balança!
– A peça fala sobre a mulher 50+ e você chegou a dizer que perguntas sobre etarismo estavam ficando velhas. Como vê isso?
– Quando falamos sobre a questão da aparência, uma menina de 15 anos passa pelo mesmo dilema da mulher de 50. A indústria da perfeição é tão cruel que a mesma pergunta pode ser feita para qualquer geração. Todo mundo quer ser aceito, então, não é uma questão só da mulher 50+. É uma questão de saúde pública, porque causa transtornos de autoestima em qualquer idade. A indagação tem que estar no porquê a sociedade massacra tanto a mulher.
– Você sempre lidou bem com essas questões?
– Pelo contrário. Fui uma adolescente gordinha, não gostava de biquíni, fui começar a malhar mais tarde, cuidar da alimentação mais tarde e isso me açoitava mais antes do que hoje. Hoje, tenho um estilo de vida mais saudável, mais estabilizado, os hormônios se acalmaram, porque entrei na menopausa muito cedo, quando tive o câncer, com 39 anos. Quando ouço sobre esse assunto, para mim, parece que faz muito tempo, que não foi nem nessa encarnação.
– Disse que não gosta de se colocar rótulos. Em que sentido?
– Eu gosto de ficar, eu não gosto de casar, não gosto de namorar.
– Mas você ainda acredita nas relações amorosas?
– Superacredito nas relações! Meu melhor casamento foi com o pai do meu filho. A gente nunca quis morar junto e foi a coisa mais assertiva que eu fiz na vida. Tinha cumplicidade, tinha compromisso e foram dez anos lindos. Até hoje ele é o meu parceirão de vida, de amizade. É importante um não sombrear o outro, preservar a solidão dentro da relação a dois é básico. Eu acredito nas duplas e nas novas maneiras de ser casal.
– E você gosta dessa solidão?
– Encaro esse lugar com alegria, com presença, é uma delícia estar sozinha, você está inteira com você, conectada com você.
– Você tem o espírito jovem!
– Tomara! Acho que tenho um Erê solto, sim. O Erê é a criança da cultura africana. Eu tenho uma criança solta dentro de mim que não fica quieta.
– Não fica quieta, mas tem juízo!
– Ela tem juízo, mas às vezes ela perde o juízo! (risos).
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