Bukassa Kabengele vive momento raro com três produções em destaque: ‘Misturo vida e arte para seguir em paz’
No ar em A Nobreza do Amor e em uma produção que alcançou o Top 10 mundial da Netflix, Bukassa Kabengele fala sobre identidade, pertencimento e os desafios da carreira.

No ar com a novela global das 6, A Nobreza do Amor, trama que tem conquistado o público com uma história marcada por encontros e recomeços, Bukassa Kabengele (53) vive uma fase especial na carreira. O ator interpreta José dos Santos, também conhecido como Zambi, personagem que deixa o passado para trás ao reconstruir a vida no Brasil, guiado pelo amor e pelo pertencimento.
Em meio às gravações do folhetim exibido pela emissora carioca, Bukassa fez pausa para conversar com CARAS direto da Cidade das Artes, complexo cultural localizado na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. Entre um clique e outro, o ator — que nasceu na Bélgica e passou a infância no Congo até se mudar para o Brasil — falou sobre o momento profissional e a conexão pessoal com o papel.
Para o ator, seu personagem representa muito mais do que uma construção dramatúrgica. A trajetória do personagem dialoga diretamente com sua própria história de vida e deslocamento cultural. “Tem uma frase linda da novela que diz que a África nunca sai de você. Eu faço muito esse paralelo com a minha vida. Vim da República Democrática do Congo para o Brasil ainda criança. Minha base emotiva continua africana, mas meu adulto simbólico é brasileiro. Essas duas identidades convivem dentro de mim e ajudam a construir quem eu sou”, afirma.
Na trama, o personagem abdica do trono para viver um grande amor e passa a esconder parte de sua origem para sobreviver em uma nova realidade. Bukassa observa que essa dualidade aproxima o público da narrativa. “Todos nós usamos máscaras sociais para nos sentirmos pertencentes. José faz isso para seguir vivo dentro daquele contexto, sem abandonar sua essência. É um homem que carrega memória, amor e responsabilidade emocional”, explica.
O retorno do público tem sido intenso desde a estreia. Segundo o ator, a presença diária na televisão aberta cria uma relação afetiva diferente com os espectadores. “A novela entra na rotina das famílias brasileiras. As pessoas comentam cenas específicas, dizem que choraram ou que se reconheceram nas histórias. Isso aumenta muito a responsabilidade porque percebemos o impacto real do nosso trabalho”, diz ele.
Além da novela, Bukassa também está no ar em Emergência Radioativa, série da Netflix inspirada no trágico acidente com o Césio-137, em Goiânia, em 1987. O projeto trouxe reflexões profundas para o artista. “Nós estamos falando de uma tragédia que revelou desigualdades sociais enormes. O que mais me atravessou foi perceber como populações vulneráveis foram as mais atingidas. São pessoas tentando defender suas casas e sua dignidade diante da falta de informação”, conta ele, feliz com a repercussão mundial da série, que entrou para o Top 10 mundial da plataforma.
“Vivemos em um mundo globalizado e é interessante que sejamos vistos e considerados a partir das nossas realidades, culturas e perspectivas. É dizer ao mundo que merecemos respeito e que só precisamos de oportunidades iguais. Ao mesmo tempo, é dizer ao nosso povo que continue sonhando de cabeça erguida, com orgulho de ser brasileiro”, reforça ele.
O alcance internacional das plataformas de streaming amplia horizontes, mas não altera seu compromisso artístico. “Meu foco sempre é dialogar com o público brasileiro. Contar nossas histórias com profundidade já é um grande desafio. Quando o mundo olha para nós a partir da nossa própria perspectiva cultural, mostramos que merecemos respeito e oportunidades iguais”, afirma o ator, que também está no ar em Dona Beja, da HBO Max.
“A TV aberta tem alcances diários de números gigantescos e isso faz muita diferença. Porém, hoje também me supro com o streaming. Como faço diversos projetos e estou em todas as frentes, percebo cada vez mais respostas do público”, avalia ele.
Com mais de três décadas de carreira, Bukassa reconhece viver um momento de maturidade profissional. Entre uma foto e outra, ele revelou um hábito que o ajuda a manter o equilíbrio longe das câmeras. “Para me sentir em paz, sempre carrego meu violão comigo. Sozinho, para mim mesmo, toco e procuro estudar o instrumento. Às vezes, apenas dedilho, componho, canto ou me arrisco em uma peça tecnicamente difícil, como a música Desvairada, que acho ser a única que sei tocar. Faço isso com o intuito de retomar meu centro emocional e compreender o quanto é difícil alcançar a perfeição”, conta ele.
A música, aliás, sempre atravessou o artista. Bukassa integrou a banda de soul Skowa e, nos anos 2000, gravou o disco solo Quero Viver. Ao revisitar a própria trajetória, o ator também reconhece marcos que redefiniram sua caminhada artística e pessoal. A experiência no cinema, segundo ele, foi determinante para consolidar sua identidade como intérprete.
“Tenho mais de 30 anos de carreira, cada trabalho com seu valor, mas Pacificado marcou uma virada. Foi meu primeiro protagonista no cinema e me colocou em outro nível da dramaturgia. O prêmio de Melhor Ator em San Sebastián confirmou meu caminho e fortaleceu minha confiança. Minhas buscas como homem e artista caminham juntas. Misturo vida e arte para seguir em paz com minhas escolhas”, conclui.
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