Aos 40 anos, Aisha Jambo leva brasilidade aos palcos: ‘Continuidade à luta de quem abriu caminho’
Em entrevista exclusiva à Revista CARAS, Aisha reflete sobre legado, representatividade e a força das raízes negras no novo espetáculo

O teatro sempre teve lugar cativo no coração da atriz Aisha Jambo (40). A relação com os palcos é tão intensa que ela quis ir além e contar uma história que dialogasse com sua própria trajetória. É nesse contexto que surgiu Quando Dança um Baobá, espetáculo que revisita a vida e o legado de Mercedes Baptista (1921- 2014), um dos grandes nomes da dança em solo verde e amarelo.
“Falar de Mercedes Baptista, a primeira bailarina negra a entrar para o corpo de baile do Theatro Municipal do Rio de Janeiro e a precursora da dança afro-brasileira, é falar de uma essência nossa, de brasilidade, algo que é muito caro para mim”, dispara a atriz, durante conversa exclusiva com CARAS.

– Como nasceu o desejo de contar uma história que tivesse um reflexo pessoal?
– Quando completei 30 anos, comecei a sentir vontade de montar algo no teatro. A partir daquele momento, veio a pergunta: “O que quero falar?” Estava em busca de uma história. E, ao participar de uma roda de conversa com jovens estudantes de teatro do projeto No Palco da Vida, fui provocada a viver Mercedes Baptista. Fiquei impactada, comecei a pesquisar sobre ela e me encantei com sua história, que se relaciona com a trajetória de muitas outras mulheres negras. Senti que ali estava uma bela história para ser contada.
“Hoje, eu enxergo uma mudança e a inclusão dos atores negros nas telas.”
– O que te levou a transformar a história de Mercedes Baptista em um monólogo tão pessoal e reflexivo?
– Acredito que a virada de chave foi no processo de conclusão da faculdade, em que todas essas questões se intensificaram. Esse projeto passou por várias fases até se tornar um monólogo musicado. Ao encontrar parceiros como Cátia Costa, diretora artística, e Paulo Mileno, produtor, compreendi que poderia transformar essa história em um solo performático misturando música e dança. Cátia é grande referência do teatro negro contemporâneo e trabalha com a linguagemdo teatro popular e ritualístico, que muito me interessa.
“Nós estamos dando continuidade à luta de quem abriu caminho para nós.”
– O que mais te atravessou ao mergulhar nessa trajetória?
– Gosto de pesquisar diferentes linguagens artísticas e falar de Mercedes é trazer a presença da nossa cultura popular e também dialogar com a cultura estabelecida dentro do cânone erudito.
– São 25 anos de carreira, como define essa fase?
– Os 25 anos de carreira é uma data simbólica e marca o nascimento da Aisha produtora. Quando Dança um Baobá é um espetáculo da minha produtora Jambo Produções. Então, é muito especial contar uma história que nasceu de um desejo meu de expandir os horizontes e ser uma produtora cultural.
– Como vê o audiovisual em relação à diversidade?
– Hoje, enxergo uma mudança e a inclusão dos atores pretos. E essa mudança também se deve à pressão, aos movimentos sociais, aos sindicatos da categoria artística e à chegada do streaming. Com isso temos mais atores pretos protagonizando novelas. Eu sinto uma grande alegria em acompanhar essas transformações do audiovisual e perceber que o meu trabalho vem contribuindo para esse processo de revolução da representatividade nas telas. Minha personagem Naomi, em Malhação, por exemplo, continua reverberando no imaginário social. Surgiu em um momento de virada da comunidade brasileira, início dos anos 2000. Ela personifica o desejo e as demandas de todo um povo. Na época, era a única menina preta da história. Chego com meu cabelo afro naturalmente volumoso e crespo em um momento em que a tendência ainda era o alisamento. Foi uma revolução na estética e na autoestima de muitas jovens pretas que se viram representadas. Fugiu completamente das personagens estereotipadas que nos ofertaram em outras produções. Acredito que tenha estimulado até a indústria da beleza que, a partir daquele momento, passou a olhar para esse público consumidor. Muitas meninas me contam que passaram a fazer a transição capilar após me verem no programa. Fico muito feliz. Nós estamos dando continuidade à luta de quem abriu caminho para nós.
– Quais sonhos ainda gostaria de realizar na carreira?
– Meu desejo é continuar crescendo com a produtora, realizando espetáculos, shows e projetos audiovisuais. Temos muitas histórias para contar! Estou empenhada em circular com o espetáculo Quando Dança um Baobá e também estou desenvolvendo o roteiro de um documentário e aguardando o lançamento do filme Grudi – O Musical de Gestos, que traz a temática da surdez para o cinema, com direção de Danddara.

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