Guiada pela arte, Cecília Chancez escreve seu destino: ‘Sinto que tudo está se encaixando’
Cecília Chancez abriu mão de bolsa de estudos nos EUA para seguir o coração

Projetos sociais são fundamentais na vida de crianças e jovens de comunidade, e Cecília Chancez (21) é mais uma prova disso. Criada em Senador Camará, na zona oeste do Rio de Janeiro, ela começou ainda criança a fazer aulas de violão, violino, balé, jazz e sapateado em um programa comunitário.
“Formou a pessoa que sou hoje. Sempre fui muito introspectiva. Se meus pais não tivessem tido essa visão de que eu poderia me expressarpor meio da arte, não sei onde eu estaria hoje, o que estaria fazendo”, reflete a intérprete de Dara, da novela Dona de Mim, da TV Globo, em papo exclusivo com a CARAS, no Meza Bar, no Rio de Janeiro.
Aos 14 anos, Cecília se mudou com a família para Guaratiba e deixou de frequentar o projeto social de que tanto gostava. A maneira que encontrou de continuar ligada à arte foi publicando vídeos cantando nas redes sociais. Tímida, não mostrava o rosto e filmava apenas da boca para baixo. Até que, depois de tanto ver comentários pedindo para mostrar quem ela era, criou coragem.
“Publiquei o vídeo, desliguei o telefone e fui dormir. Eu estava morrendo de vergonha (risos). No dia seguinte, fui olhar e vi que tinha quase 3 milhões de visualizações no Twitter, tinha viralizado”, recorda.
Entre os comentários elogiando a voz e a beleza da artista estava o da cantora e empresária Preta Gil (1974-2025). “Preta me mandou mensagem junto com a Fátima Pissara; elas foram minhas primeiras empresárias. Preta se tornou minha madrinha na música, é uma pessoa que transformou a minha vida. Sou muito grata a ela e a Fátima. Eu não era nem metade da artista que sou hoje, e a Preta acreditou em mim. Ela me fez fazer aula de presença de palco, aula de comunicação, para eu poder me soltar. Foi um divisor de águas na minha vida”, conta.
Por meio dos vídeos, ela foi vista pelos produtores da TV Globo e convidada para protagonizar a série musical Vicky e a Musa, do Globoplay. A oportunidade surgiu na mesma época em que conquistou a tão sonhada bolsa para estudar astrofísica em Dallas, no Texas. “Fiquei muito dividida. A vida inteira, o meu pai disse para agir na razão, porque nós, que somos de comunidade, na maioria das vezes não podemos nos dar ao luxo de ir com o coração. Tem tanta gente que sonha em ser artista e acaba se tornando CLT. Mas, desta vez, ele me disse para seguir o meu coração, e não tive dúvidas, era o que eu amava fazer. Fui feliz, mas com medo, pensando em como seria depois que terminasse a série. E não me arrependo!”, afirma a atriz e cantora.
Aliás, ela não deixou a outra paixão de lado e ainda faz cursos on-line de astrofísica. Porém, o foco principal está na carreira artística. “Agora estou na novela, tenho projetos vindo por aí em breve. Depois de Dona de Mim, vou focar bastante no meu lado musical”, avisa.
No folhetim, Cecília faz rap, mas suas próximas apostas como cantora serão focadas no R&B e no Afrobeat. “Os gêneros musicais africanos têm muito a agregar à indústria musical do Brasil, e é algo que quero trazer no meu novo trabalho. Está ficando muito lindo e, se Deus quiser, vai dar tudo certo. Não gosto de cantar para números, gosto de cantar para as pessoas ouvirem e se sentirem bem com o que estou passando com a minha arte”, afirma.
Apesar de ainda estar no início da carreira, a jovem já se considera vitoriosa. “Consigo ajudar minha família, a minha comunidade, e isso é o mais gratificante para mim. Estou crescendo, evoluindo, aprendendo. Consegui comprar meu carro, meu apartamento. Aos poucos, a gente vai construindo, com pé no chão sempre e gratidão. Mas ainda tem muita coisa que quero e posso conquistar. O importante é ter sempre a minha família comigo porque, se não fosse por eles, eu nem estaria aqui”, diz a artista, que não se deslumbra com a fama.
“Não importa se sou a Cecília que faz a novela, em casa eu sou a Ana. Eles nem me chamam de Cecília. Quando chego em casa, volto a ser a filha do meio, a mais quietinha, e amo, porque é meu ponto de paz. Valorizo muito tudo o que conquistei, porque sei o que passei para chegar até aqui. Quando comprei meu carro, fiquei tão feliz, meus pais choraram de orgulho. Me sinto muito abençoada. Sei que sou fora da curva comparada às pessoas que saíram de onde eu saí, e o que puder fazer para inspirar outras crianças a irem atrás dos seus sonhos, eu vou fazer”, garante a atriz e cantora.
No último Dia das Crianças, ela organizou uma festa, para os pequenos da comunidade, com direito a comidas gostosas, brinquedos e presentes. “Virou um propósito. É no que eu acredito. Vivo também para passar a mensagem de que, se você se dedicar, você consegue chegar aonde deseja”, ensina.
Consciente do que representa hoje, Cecília se emociona ao saber que é inspiração para tantas meninas. “Eu fui uma criança introspectiva, não conversava muito, sofria bullying pra caramba e não contava para os meus pais. Hoje, poder comunicar isso para as crianças que estão vindo agora, principalmente as crianças pretinhas, que têm outro lugar de fala, que é muito mais reduzido, mais silenciado… dar voz para elas, ver que a TV está ficando mais colorida, com o nosso povo preto, é muito importante pra mim. E sentir que faço parte disso é mais especial ainda! Sei do meu esforço, mas reconheço que foi muito Deus na minha vida mesmo. Deus dá sempre o caminho. A gente só precisa continuar andando, com perseverança. Continua no caminho que o que é seu sempre te encontra”, acredita a jovem, que está mais confiante.
“A novela me inspirou a ser dona de mim de verdade. Estou mais confiante com meus projetos, mais decidida, mais organizada. Sinto que tudo está se encaixando”, finaliza a atriz.
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