Camila Raffanti, Miá Mello e Juliana Araripe rompem tabus com o humor: ‘Cria um vínculo ainda maior’
Protagonistas da peça Mulheres em Chamas, as atrizes Camila Raffanti, Miá Mello e Juliana Araripe dão lição de amizade e incendeiam o palco ao falar sobre menopausa

Três mulheres entram em um elevador e ficam presas. Não, isso não é o começo de uma piada — é o início de uma amizade, de uma peça e de um pacto empoderado contra o silêncio que sempre cercou um tema tabu, a menopausa. As protagonistas dessa história? Juliana Araripe (47), Miá Mello (44) e Camila Raffanti (47), que estrelam a peça Mulheres em Chamas, na capital paulista. O espetáculo, recheado de bom humor, destrincha os desafios e as mudanças causadas pelo climatério. Afinal, quando a vida começa a ferver por dentro, nada melhor do que rir juntas, escrever juntas e transformar calores em aplausos.
“A Julia Rezende, diretora do filme Meu Passado Me Condena deu a melhor definição da peça: é futebol para mulheres. Elas comentam, vibram, se identificam. É uma vibração coletiva”, fala Miá.
“As mulheres olham e riem da gente, elas se reconhecem e o fato de você poder rir de si, na minha opinião, faz você subir um degrau na existência”, emenda Juliana.
“A gente tem ouvido depoimentos muito interessantes do público, inclusive de médicas que falam que a peça informa. Estamos felizes com esse feedback. Sabíamos que estávamos fazendo uma coisa legal, mas não imaginávamos que seria tão legal”, completa Camila.
E se no palco a sintonia do trio impressiona — a sinergia é tamanha que até o improviso vira um bem-sucedido roteiro —, fora de cena a relação é a mesma! “Camila e eu temos uma parceria de muitos anos, fizemos séries, novela. E Miá era minha vizinha. Um dia, em um encontro pelo bairro, ela me pediu em amizade (risos). Aí, eu a apresentei para a Camila, porque quem me conhece leva a Camila de brinde”, brincou Juliana.
“Eu brinco que a gente fez um intensivão com a Miá. Foram 20 anos de amizade em 20 dias, como se a gente tivesse passado a adolescência juntas”, frisou Camila. “É uma fase da vida que a gente busca pessoas que somam, que acolhem”, explica Miá.
Leia também: Miá Mello debate impacto da pressão estética nas mulheres: ‘É uma bagagem que a gente carrega’
A amizade trouxe à tona desejos em comum. Um deles era usar a arte para quebrar paradigmas sobre a menopausa. E elas foram rápidas. Entre a ideia sair do papel e o texto da peça ficar pronto foram apenas dois meses. “Escrever, produzir e atuar juntas em uma peça cria um vínculo ainda maior”, ressalta Camila.
“A gente já tinha uma concepção do espetáculo na cabeça. Queríamos falar do universo da vida real e do universo hormonal. E esse é o grande diferencial da peça, porque mostramos em cenas surrealistas o que acontece dentro da gente e a galera morre de rir, porque se reconhece. Até os homens falam: ‘Olha, por isso que minha mulher está assim!”, explica, aos risos, Juliana.
E se engana quem pensa que a plateia é formada só por mulheres. O enredo é tão bem escrito e engraçado que conquista diferentes gêneros e faixas etárias. “Queremos trazer esse papo para que nossas filhas e outras gerações passem por isso de outra forma. Para você ter uma ideia, minha filha de 20 anos já assistiu cinco vezes; meu enteado de 15 viu três vezes!”, conta Juliana.
“A gente quis trazer essa conversa para mais cedo. O climatério pode ser longo e assusta, mas se você tiver um olhar positivo e se preparar, chega à menopausa informada, com aceitação e com mais conhecimento. A gente tem que falar e tem que desmistificar, porque não tem escolha, todas nós vamos entrar nessa fase”, argumenta Miá, citando a própria mãe como exemplo.
“Fomos pesquisar e achei interessante o fato de a mulher entrar na menopausa, mais ou menos, na idade que a mãe entra. E fui perguntar para a minha mãe como tinha sido a dela. Ela me respondeu: ‘Não tive menopausa’. Mas você nunca falou com sua mãe sobre isso? Ela me disse que a mãe dela — minha avó — deu um livro para ela, um livro chamado A Moça e Seus Problemas quando ela menstruou pela primeira vez, foi o único papo dela sobre esses temas”, diz Miá, fazendo uma reflexão social.
“A mulher está muito acostumada a viver em dor, em sofrimento. É preciso ter esse olhar de autoconhecimento, porque não existe um teste clínico para a menopausa. Não existe manual, mas não é preciso ficar nesse lugar de dor, de angústia”, completa ela. “A mulher foi feita para aguentar, mas a nossa geração não está mais se dobrando ao desconforto. Nós não vamos mais ficar quietas”, dispara Camila.
As experiências pessoais, é claro, tiveram influência na hora de escrever a peça e a amizade entre o trio ajudou a dar a transparência necessária para abordar o assunto.
“Eu passei por um climatério brutal dos 39 aos 44 anos e tive que aprender tudo para entender o que ia fazer comigo, porque tive muitos sintomas desagradáveis. E isso coincidiu com uma fase que é uma espécie de check-in na velhice, um momento em que você se dá conta de que algo novo começou”, comenta Camila.
“A gente fez um mergulho profundo e verdadeiro em nós mesmas”, frisa Miá, que ainda confessa: no início chegou a negar a condição. “Fiz uma viagem e, quando voltei, tive três noites de fogacho. Achei que era jetleg. Isso vem de uma cobrança da sociedade, de que a gente não pode envelhecer. Até falo isso na peça: a mulher envelhecer é um defeito”, fala ela.
Para desmistificar ainda mais o tema, o trio não usa meias-palavras para falar sobre as próprias inseguranças. Tudo com muito bom humor! “Tenho altos e baixos. Desde ter a certeza de que quero fazer um deep plane facelift igual ao da Emma Stone, até achar que não dá para ficar com carinha de menina e meu marido envelhencendo”, dispara Miá, aos risos.
“Na menopausa parece que a gente está passando por um buraco de fechadura, mas depois que passa tudo se abre. E tem uma saída, o humor. Sem humor fica tudo mais difícil. Além disso, existe a amizade feminina, dividir tudo isso com as amigas ajuda. A gente precisa aprender a treinar nosso olhar, olhar para as pessoas mais velhas e ver beleza, potência, sexualidade. Somos muito bitolados na juventude e isso é uma bobagem”, avalia Juliana. “Como lido? Eu só lido!”, sentencia. “As pessoas têm uma ideia que a mulher na menopausa está com a cabeça branca. A gente está cansada, mas fazemos 400 mil coisas, a gente está no game e tem muitas vontades”, emenda Juliana.
Com sessões lotadas, o espetáculo tem feito tanto sucesso que teve temporada prorrogada no Teatro UOL e ainda ganhou turnê por algumas cidades. “A gente fala sobre fazer esse garimpo das bênçãos e das alegrias e uma das alegrias mais possíveis e interessantes é a amizade entre as mulheres, o acolhimento e a comunhão entre a gente”, emenda Camila, já traçando novos planos ao lado das amigas.
“Em vez de fazer um deep plane facelift juntas, talvez a gente faça outra peça!”, conta ela. “Esse trio é muito legal. As pessoas saem da peça e falam que isso daria uma série, um filme…”, fala Miá, que finaliza com a mais bem-humorada das definições. “Eu acho que as mulheres saem da peça e vão transar. Ou terminar o casamento!”, brinca a atriz.
CONFIRA PUBLICAÇÃO RECENTE DA CARAS BRASIL NAS REDES SOCIAIS:
Ver essa foto no Instagram






