Paulo Mendes reflete sobre desafios da vida e momento na TV: “Agora estou entendendo o peso de uma novela das 9”
Ator, dublador e cantor celebra o sucesso em Três Graças, diz que tem buscado curtir mais e se cobrar menos e recorda período difícil após a perda do pai

Com o visual adotado para interpretar o Raul de Três Graças, da TV Globo, Paulo Mendes (21) não consegue mais passar despercebido. Durante ensaio exclusivo para CARAS, entre um clique e outro no Portinho, no centro do Rio de Janeiro, o ator foi parado inúmeras vezes por telespectadores da novela. Reconhecimento de um trabalho bem-feito na trama das 9, mas que começou ainda na infância, na dublagem. Na conversa, o artista, que também está no ar em Dona Beja, na HBO Max, afirma não acreditar em descanso de imagem, recorda como a perda de seu pai o fez mais forte e diz estar tentando curtir o ofício e ser menos crítico consigo mesmo. “Senão a gente esquece qual é o prazer de verdade”, analisa ele.

– Você já se reconhece com esse cabelo e o novo visual?
– Não (risos). Não sei mais quem sou além do personagem. Por isso, sou uma pessoa estranhíssima. Por causa do Raul, eu comprei roupas diferentes. Eu vivo todos esses personagens, querendo ou não. Acabo estudando tudo o que eles estudam, vivo o que eles vivem. Eles se fundem comigo e, no fim, acabam virando uma coisa só.
– O Raul é o maior desafio da sua carreira?
– Talvez. Qualquer coisa nova que eu fizer vai ser um desafio, porque vou criando noção do que é isso. Quando eu fiz Os Outros, eu não tinha nenhuma. E acho que tenho que recuperar isso, que é aproveitar o momento. Quando fiz Os Outros, pensei: ‘Vou fazer essa série, talvez nunca mais faça nada, mas vai ser legal viver essa experiência’. E é isso que estou tentando neste trabalho, ao mesmo tempo que agora estou entendendo qual é o peso de estar no elenco principal de uma novela das 9. Então, é viver o momento, talvez esse seja o desafio.

– É um personagem complexo, dramático. Como você sai dessa energia após as cenas?
– É difícil. Eu chego em casa e prefiro não ver a novela, não comentar sobre isso fora do meu trabalho, porque estou praticamente 11 horas por dia pensando nesse personagem. Quando chego em casa, quero fazer outra coisa, e isso faz o meu subconsciente voltar para mim. A gente fica doido nisso, mas estou me cuidando para não ficar estressado, não ficar com muita coisa do processo na cabeça, algo que pode misturar todos esses sentimentos.
– O que transformou a vida do Raul foi a perda do pai. Você emprestou seu sentimento para ele?
– Sim, acho que em algum lugar do meu inconsciente essa coisa venha mesmo, mas não penso muito nisso, porque gosto de separar as coisas. O meu encontro com o Eduardo Moscovis em cena foi a partir de uma imagem que fui criando dele. Desde pequeno sou muito fã do Du, então criei na minha cabeça a imagem dessa figura em quem sempre me espelhei. E são os mesmos sentimentos que sinto pelo meu pai; misturei os dois e coloquei em cena. Meu pai não morreu, ele só não está aqui. Mas está comigo em todo lugar que eu for. Esse é um pensamento que faz a gente não cair em desgraça e ficar parado, porque é uma coisa triste. Mas meu pai é algo muito feliz para mim, não tem esse lugar de tristeza que existe no Raul.

– Como encarou a vida após a partida dele?
– Meu pai faleceu no final de 2020, ele teve um AVC. A gente recomeçou a vida com zero dinheiro no bolso. A minha mãe cuidou muito de mim, e eu tive que crescer. Com 16 anos, tive que virar praticamente um adulto, era o “homem da casa”, a segunda pessoa ali para ajudar, e eu era só um moleque. Estava começando a me tornar um adulto. Acho que criei um senso de responsabilidade muito mais forte do que o das pessoas da minha idade. Não sou grato pela morte do meu pai, mas sou grato por todas as experiências que passei para ser a pessoa que sou hoje. Se muitos me admiram, é por conta dessas coisas que passei e pela força que o meu pai me transmitiu quando estava vivo, além da força que minha mãe me passa.
– A arte foi fundamental nisso. Como começou a atuar?
– Isso é graças à minha irmã, que é professora de teatro. Eu não gostava de aparecer. Eu gostava de dublagem, e era só o que eu queria fazer na minha vida. Aos 9 anos, comecei a fazer curso, aos 10 comecei a trabalhar e até hoje dublo quando dá tempo. Só fiz teatro porque precisava dele para dublar. Mas as coisas foram se desencadeando até este lugar aqui, agora, que é o que amo na minha vida, o que gosto de fazer. Gosto de dublar, de cantar, de teatro e amo o audiovisual.

– E gosta de se assistir?
– Não gosto, mas sei quando a coisa vai e quando não vai. Sou a pessoa que pergunta para o diretor se ele não quer refazer a cena. Eu sempre quero fazer de novo e esse é um problema que tenho. A expectativa do ator em fazer uma cena pode acabar com ele. Então, agora estou tentando muito mais viver e parar de me cobrar, porque senão a gente esquece qual é o prazer de verdade. Esses problemas acho que não somem. Vou ter isso até o final. A dúvida se está bom, se não está, se vou trabalhar de novo, se vou empacar. Essa é a dúvida que move a gente. É aproveitar a incerteza.
– Você ainda canta e compõe…
– Eu vivia cantando quando era pequeno, ficava com uma guitarra de brinquedo na mão até o dia em que decidi pegar uma de verdade. Aprendi a tocar violão porque estava com raiva por não conseguir musicar as letras que escrevia; tinha que chamar um amigo, Arthur. A gente tinha uma banda junto, que não foi para a frente. Tenho um projeto musical que vou lançar em abril ou maio. Eu acho que, no final, sou até um cantor que virou ator por acaso. Eu nunca duvidei da minha capacidade de cantar, mas de atuar sempre duvidei.

– Os diretores e produtores não duvidam, já que você está emendando produções. Agora mesmo, além de Três Graças, está em Dona Beja, da HBO Max.
– Tem gente que fala até que estou demais. Por mim, que continue assim! Eu não acredito nisso de descansar a imagem, porque eu tenho que viver. E é o meu trabalho. Como é que vou recusar trabalho? Está sendo ótimo para mim, estou adorando tudo isso!