Grazi Massafera confessa sobre Dona Beja: ‘Melhor momento para encarar essa personagem’
Protagonista da releitura de Dona Beja, atriz ainda comenta sobre amizade com Maitê Proença e fala das provocações que a trama promete trazer

Passados 40 anos de sua estreia, na extinta Rede Manchete, o clássico Dona Beja volta a encantar o público em uma releitura —e não um remake!—, da HBO Max. A aposta do streaming traz Grazi Massafera (43) na pele de uma das personagens mais icônicas da teledramaturgia brasileira e reforça o peso da superprodução de época. “É a primeira vez que eu encarno em uma personagem“, conta a atriz, que já considera o trabalho um divisor de águas.
Em evento luxuoso na Sala São Paulo, um dos endereços mais famosos da capital paulista, a atriz se reuniu com os também protagonistas David Junior (40) e André Luiz Miranda (38) para apresentar a novela e falar sobre como ela foi reinterpretada. “Foi um projeto que atravessou a todos nós, fez a gente ficar frente a frente com os nossos preconceitos. Se a gente minimamente conseguir levar essa informação e essa reflexão ao público, já é um ganho grande“, reflete David.
Em Dona Beja, encontramos novamente a figura mítica da mulher que, em suas próprias palavras, transformou o mundo em um bordel. Mas, na nova versão, o protagonismo negro ganha mais espaço, trazendo personagens pretos e livres no cenário do século XIX, algo que não é nada anacrônico.
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“O censo de 1862 diz que três a cada quatro negros do Brasil daquela época já não estava mais em cativeiro. Eu não preciso inventar nada, eles já estavam ali. Estamos jogando luz em quem foi calado pela história“, destaca o autor, Daniel Berlinsky.
“A gente está nesse lugar de protagonismo porque nós merecemos. A gente trabalhou muito e lutou muito por isso. Cada um tem seu corre, sua vivência, sua luta. Acreditar em si mesmo é acreditar que tudo que passamos lá atrás nos trouxe até aqui. Cada um aqui merece todo o sucesso“, completa André, empolgado com a chegada da novela.
A expectativa do elenco é que a história, além de ser sinônimo de sucesso, consiga provocar reflexões no público, mesmo naquele mais conservador. “Essas provocações são para tirar as pessoas desse estado de relaxamento, dessa zona de conforto gerada pelos seus privilégios. É para lembrar que a ferida que a gente quer colocar o dedo é nossa. É responsabilidade de todos“, reflete Pedro Fasanaro (28), ator não binário que dá vida a Severina, mulher trans e braço direito de Beja.
Apoio de Maitê Proença
Interpretada originalmente por Maitê Proença (68), Beja é inspirada em uma personagem histórica, que realmente viveu em Minas Gerais no século XIX. Para dar vida à personagem, Grazi ganhou a bênção de Maitê e se tornou amiga da atriz, apesar de ter preferido não assistir à versão de 1986.
“Eu vivo intensamente cada momento que eu estou vivendo. Falar de questões femininas é meu dia a dia. Eu sou solteira, faço o que quero, sou subjugada pelos meus namorados, meu corpo, minha filha, minha beleza, meu envelhecer. Também quero ser uma dessas mulheres livres, não quero sucumbir ao que me delegam. Eu estou sempre me desconstruindo. Como atriz, foi o melhor momento para encarar uma personagem como essa“, pondera Grazi, recebendo chuva de elogios do elenco e da produção por sua força em frente e por trás das câmeras durante a realização da novela.
“Como protagonista, você vira uma força motora, você afeta as pessoas. É a segunda novela sendo lançada pela HBO Max. A gente quer que dê certo para abrir mais oportunidades. Isso gera muito trabalho, a gente quer muito que esse projeto dê certo. Eu fiquei muito feliz e ansiosa por Beja. O protagonismo das novelas voltando é importante“, completa a atriz.
Marcada por ousadia e liberdade, Dona Beja também promete balançar os espectadores. Cenas desafiadoras dão o tom da trama e, como já esperam o autor e o elenco, querem incomodar o público e confrontar situações que ainda se mantêm latentes dois séculos depois, como a opressão feminina, o racismo, a homofobia e a transfobia.
“Mais do que incomodar, a gente quer que amoleçam esses corações. Que encontrem pessoas, seres humanos, mais do que corpos, mais do que identidades sexuais. A gente quer gerar reflexão e que essa reflexão surta algum tipo de efeito. Beja vai ser um sucesso para a gente atingir esses corações endurecidos pela vida, por seus preconceitos, por questões que doem. Essas pessoas também sofrem com esses bloqueios. Tem gente que não quer sentir esse incômodo. É uma espécie de autoproteção, acham que é ruim. Desumaniza. Se não é do seu lado, na sua casa, você não toma atitude. E isso está errado. Como sociedade, a gente precisa reagir“, conclui a protagonista, dando exemplo de interpretação e de cidadania.
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