Dor no peito, palpitação e cansaço podem levar um paciente ao consultório acompanhados de dúvidas e preocupação. Para o cardiologista Rafael Almeida de Faria, investigar esses sinais exige mais do que interpretar exames. História familiar, rotina, emoções e a maneira como cada pessoa compreende a própria saúde também fazem parte da avaliação.

Essa visão foi construída ao longo de uma trajetória que começou longe dos consultórios. Nascido em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, Rafael cresceu em uma família de vida simples. Por volta dos 11 ou 12 anos, a violência ao redor e a perda de amigos envolvidos com o tráfico começaram a fazê-lo pensar sobre o próprio futuro. A mãe, professora primária, repetia que os estudos poderiam abrir novos caminhos.

“Comecei a perceber cedo que precisava construir uma possibilidade diferente para a minha vida. O conselho da minha mãe deixou de ser apenas uma frase e passou a representar uma saída concreta. Foi quando estudar ganhou outro sentido para mim.”

Da biotecnologia à Cardiologia

O primeiro plano de Rafael era seguir carreira no Exército. O interesse por química e biologia, porém, o levou à formação técnica em Biotecnologia e, posteriormente, a um estágio na Fiocruz. Foi nesse ambiente que a convivência com um médico que admirava despertou nele o desejo de cursar Medicina.

Diante das limitações financeiras da família, prestou vestibulares para universidades públicas e ingressou na Universidade Federal Fluminense. Depois da graduação, realizou residência em Clínica Médica na Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro e, posteriormente, residência em Cardiologia na Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

A escolha pela especialidade também não estava definida desde o início. Rafael entrou na faculdade imaginando uma carreira cirúrgica, mas percebeu ao longo da formação que buscava uma relação mais contínua com os pacientes.

“Eu queria conversar, acompanhar e compreender melhor quem estava diante de mim. Percebi que aquela relação construída ao longo do tempo fazia mais sentido para a medicina que eu desejava exercer.”

Ainda na graduação, o contato com uma paciente jovem, marcada por traumas e angústias, reforçou essa percepção. Rafael conta que, mesmo com pouca experiência naquele momento, começou a compreender o impacto que tempo e atenção poderiam ter durante um atendimento.

Ao longo da carreira, passou por serviços de emergência, terapia intensiva e ambientes hospitalares de maior complexidade. Hoje, concentra parte da rotina no consultório e no acompanhamento de pacientes internados. Também atua no Instituto Nacional de Cardiologia e integra o Corpo de Bombeiros Militar do Estado do Rio de Janeiro como médico.

O paciente além dos exames

Uma das situações encontradas com frequência por Rafael é a sobreposição entre manifestações físicas e sofrimento emocional. Palpitações, desconforto no peito e cansaço podem estar relacionados a condições cardiovasculares, mas também podem aparecer em quadros de ansiedade.

“Não considero correto receber uma queixa e simplesmente classificá-la como ansiedade. Primeiro precisamos conhecer o histórico, examinar, avaliar os fatores de risco e entender aquele contexto. Se houver uma dimensão emocional importante, ela também precisa ser cuidada.”

Essa atenção ao contexto também se estende à prevenção. Hipertensão, diabetes e alterações do colesterol podem permanecer silenciosas, enquanto mudanças de rotina nem sempre acontecem depois de uma única orientação.

“As pessoas geralmente sabem que atividade física, alimentação e sono são importantes. O desafio é entender como isso pode caber na vida de cada uma. Muitas vezes, essa reflexão precisa de tempo, vínculo e acompanhamento.”

O esporte também faz parte da vida de Rafael desde a infância. Faixa-preta de judô, ele já praticou natação, corrida, musculação e boxe, atividades que associa tanto à saúde física quanto ao equilíbrio emocional.

Presença, confiança e tecnologia

Algumas escolhas adotadas no consultório surgiram justamente da tentativa de diminuir barreiras na relação com os pacientes. Rafael deixou de usar jaleco e gravata porque sentia que a formalidade não correspondia ao tipo de vínculo que desejava construir. Também passou a disponibilizar seu telefone aos pacientes em situações que exigissem orientação.

“No início, receber ligações fora do horário me causava desconforto. Depois, ressignifiquei essa disponibilidade e entendi que, em determinados momentos, saber que existe alguém a quem recorrer traz segurança. Isso passou a fazer parte da maneira como escolhi exercer a medicina.”

Os anos de consultório também trouxeram aprendizados que ultrapassam a prática clínica. Rafael cita pacientes mais velhos que o fizeram refletir sobre propósito, envelhecimento e a possibilidade de construir novos projetos em diferentes fases da vida.

Um desses pacientes, depois da aposentadoria, encontrou nas corridas um novo objetivo e, já na faixa dos 80 anos, passou a participar de maratonas.

Em outros momentos, a relação também aconteceu no sentido inverso. Durante períodos pessoais difíceis, alguns pacientes perceberam seu abatimento e ofereceram apoio.

“Quando você conhece alguém por muitos anos, a relação deixa de ser apenas técnica. Já vivi momentos em que um paciente percebeu que eu não estava bem e me ofereceu um abraço. Isso também ensina muito sobre a medicina.”

Ao mesmo tempo, a tecnologia ampliou as possibilidades de investigação na Cardiologia. Rafael cita recursos como ecocardiograma, angiotomografia das artérias coronárias, escore de cálcio e ressonância cardíaca, além de dispositivos capazes de registrar informações relacionadas à frequência e ao ritmo cardíacos.

“A tecnologia é valiosa quando acrescenta informação à decisão médica. Ter mais ferramentas não significa utilizar todas em todas as pessoas, mas saber qual recurso realmente pode contribuir para aquele paciente.”

Família e próximos passos

Fora da medicina, Rafael se apresenta como pai de Maria Eduarda, Maria Luísa e Maria Clara, suas “três Marias”. A paternidade, conta, modificou sua percepção sobre responsabilidade, finitude e presença.

“Quando minha primeira filha nasceu, passei a pensar de maneira muito concreta na importância de estar presente. Depois vieram as outras duas e percebi que o amor não se divide, ele se amplia. Minha esposa e minhas filhas são o combustível de grande parte do que construo.”

Nos últimos tempos, ele também passou a produzir conteúdo médico nas redes sociais, ambiente ao qual inicialmente resistia por preocupação com a qualidade das informações de saúde. Mais recentemente, iniciou um podcast ao lado da esposa, que é veterinária, voltado a conversas sobre saúde em uma linguagem acessível.

No campo acadêmico, prepara um projeto com a intenção de ingressar no doutorado, etapa que ainda trata como um plano em desenvolvimento.

Entre consultório, ambiente hospitalar, família e novos projetos, Rafael afirma que pretende preservar a ideia que passou a orientar sua carreira desde os primeiros contatos com pacientes: a medicina precisa combinar conhecimento técnico com presença e escuta.

“A ciência precisa estar sempre em primeiro lugar, mas ela não elimina a necessidade de tempo, presença e escuta. Quando conhecemos a história de quem está diante de nós, conseguimos cuidar de uma pessoa, e não apenas interpretar um exame.”

Rafael Almeida – Médico Cardiologista | CRM – RJ 822833 | RQE 27136

Site: https://rafaelalmeidacardio.com

Instagram: @rafaelalmeida.cardio

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