Radicada na agitada Londres, Fernanda Peviani trocou o solo verde e amarelo pela Inglaterra em busca de mais oportunidades. Atriz, cantora e apresentadora, ela fez parte de bandas de diferentes gêneros, já atuou como locutora de rádio e, recentemente, dividiu a cena com ninguém menos do que Steve Martin (81) na série de sucesso Only Murders in the Building. Cheia de projetos, que incluem o longa El Bananero, no qual também foi assistente de direção, Fernanda celebra suas conquistas em papo exclusivo com CARAS.

– Como surgiu seu interesse pelo universo das artes?
– Desde pequena, eu sempre falei que queria ser atriz. Minha mãe era artista plástica; pintava quadros abstratos lindos e tínhamos um violão em casa que meu pai, de vez em quando, tocava. Os dois eram muito apaixonados por música e arte e eu herdei isso. Minha primeira experiência como atriz foi aos 12 anos, quando eu morava em Atibaia. Houve uma oficina de cinema e eu me cadastrei para participar na área de atuação. O resultado foi o filme Um Jeca em Atibaia, dirigido por Sérgio Concílio, que acabou entrando para o Festival de Cinema de Gramado. Esse filme foi essencial para eu me apaixonar por fazer cinema.
– Você já trabalhou como atriz, cantora, apresentadora… Qual o espaço que cada função ocupa na sua vida?
– Minha carreira nunca coube em uma única gaveta. Eu transito muito entre as áreas artísticas porque acredito que não somos uma coisa só, mas claro que tem fases em que o foco está mais em uma área do que em outra. Desde que eu mudei para a Inglaterra, eu fiquei mais focada na área de atuação porque eu vi um campo muito diferente e interessante a ser explorado. Mas também busquei outras áreas, como ser locutora em um programa de uma rádio brasileira.
– Quais dificuldades enfrentou para viver como artista no Brasil?
– Ser artista é um desafio em qualquer lugar do mundo. Sempre foi uma carreira de muita luta, mas até onde eu morei no Brasil, encontrei um mercado que, muitas vezes, me pareceu fechado e difícil de acessar. Aqui em Londres, há muitos filmmakers, muitos eventos de networking, sempre conectando os creatives de todos os níveis. Há muitos meios e incentivos. Também vivi situações de assédio e de abuso de poder, isso era muito difícil de lidar e me desanimava absurdamente. Isso é muito triste de ver e sempre fico pensando em gerações anteriores à minha, nas situações lamentáveis pelas quais mulheres incríveis e extremamente talentosas tiveram que passar para chegar a lugares de destaque.
– O que te fez tomar a decisão de se mudar para a Inglaterra?
– Morar na Inglaterra sempre foi um sonho. Eu fui casada no Brasil e, quando me divorciei, achei que era o momento de viver algo novo. Eu meio que não pensei muito; só fui, vendi minhas coisas, dei tudo e fui embora sem olhar pra trás. Apesar de sempre ter sido fascinada pela cultura britânica, tive um choque de adaptação. Minha rotina aqui é bem maluca, cada dia estou num lugar fazendo uma coisa diferente. Um dia estou fazendo locução, no outro em um set de filmagens, no outro fazendo um bico. Do Brasil, além da família e dos amigos, claro, sinto falta da energia do brasileiro, da alegria, de quão aberto, simpático, amigável e solícito é o brasileiro. Um povo que gosta muito de ajudar o próximo. Sinto falta da minha cultura e quando a gente mora fora, vemos muito mais profundamente como somos incríveis.
– Quais os desafios de mergulhar no mercado internacional?
– O mercado internacional é muito diferente do Brasil, até onde eu conhecia, e tive que aprender tudo do zero, sem conhecer ninguém do meio. É um mercado muito competitivo; acredito que, em relação a ser latina, há muito a explorar e a quebrar barreiras. Somos um povo que ainda não é muito visto por aqui. Mas eu consigo enxergar um mar de oportunidades. Os desafios são muitos, mas eu sou uma pessoa que gosta de desafios e acho motivador ver até onde consigo chegar. Acho que é um passo de cada vez e os anos vão trazendo conexões também. As coisas vão acontecendo, uma coisa vai ligando à outra e os caminhos vão se abrindo.
– Estamos vendo o cinema nacional ganhar cada vez mais projeção internacional, mas ao mesmo tempo a cultura é ameaçada constantemente no Brasil. Qual a sensação de vivenciar esse cenário?
– Eu acho muito triste e preocupante ver a nossa cultura ameaçada, porque parece que muitas vezes não é levada a sério, não é levada como uma forma de gerar empregos, não há investimento suficiente para ser uma grande indústria. Cultura leva ideias, sabedoria, entretenimento, muda vidas; são tantas coisas boas pra toda uma nação. Vetar, cortar gastos, leis de incentivo… quando se trata de cultura, que é algo que vai mexer com o intelecto, é sempre a primeira coisa a ser ameaçada.
– Aonde ainda sonha chegar?
– Meu sonho é ser artista até o final da minha vida, trabalhar em grandes produções, trabalhar com pessoas que eu sempre admirei nas telas do cinema, colaborar com outros artistas e também pretendo fazer projetos sociais com mulheres e crianças. Ainda não sei exatamente para onde os ventos vão me levar, mas sigo basicamente minha intuição e surfo na onda que eu vou encontrando pelo caminho