A medicina entrou cedo na vida de Marina Barcelos, mas foi no encontro com as histórias das mulheres que ela encontrou seu verdadeiro lugar na profissão. Natural de Franca, no interior de São Paulo, a ginecologista e obstetra construiu uma trajetória marcada pela formação técnica, pela influência familiar e, principalmente, por uma escuta atenta às diferentes fases da vida feminina.

Filha de uma família ligada à medicina, com avô, pai e outros parentes na profissão, Marina cresceu cercada pelo universo do cuidado. Ainda assim, a escolha ganhou um significado próprio ao longo do tempo, quando percebeu que poderia unir ciência, presença e sensibilidade em sua atuação.

“A medicina surgiu como esse encontro entre a influência da minha família e um lado humano que sempre esteve presente em mim. Fui entendendo que a profissão também é uma forma de olhar para o outro com responsabilidade”, relembra.

Após viver em Franca até o fim do colégio, mudou-se para São Paulo para cursar o preparatório e, em seguida, ingressou na Universidade de Uberaba, em Minas Gerais. Fez residência em Ginecologia e Obstetrícia na Universidade Federal do Triângulo Mineiro e, posteriormente, aprofundou sua atuação em ginecologia endócrina e reprodução assistida na capital paulista. Depois de quase três anos de experiência em São Paulo, entre partos, ambulatório e consultório, retornou à cidade natal, onde atende há oito anos.

Técnica, tempo e presença

Na ginecologia e na obstetrícia, a queixa raramente chega sozinha. Muitas vezes, vem acompanhada de medo, vergonha, culpa, desejo de engravidar, insegurança em relação ao parto ou dúvidas sobre o próprio corpo. Por isso, Marina entende a consulta como um espaço que vai além da orientação médica, é também um lugar de construção de confiança.

“O atendimento humanizado não é apenas ser gentil. É reconhecer que aquela mulher tem uma história, uma dor e uma expectativa. A técnica é indispensável, mas precisa caminhar junto com presença, acolhimento e empatia”, afirma.

A maternidade também ampliou sua forma de exercer a obstetrícia. Ao vivenciar uma gestação, passou a enxergar as experiências das pacientes com outra profundidade. A vivência pessoal, segundo ela, não substitui a formação, mas contribui para uma escuta mais sensível.

“Quando a gente vive uma gestação, entende de outra forma o que antes conhecia pela teoria. Cada mulher sente de um jeito, tem seus próprios limites e precisa ser acolhida dentro da sua realidade”, reflete.

A obstetrícia ocupa um espaço central em sua atuação. Identificada com uma especialidade ligada à vida e aos nascimentos, Marina acompanha gestantes que, muitas vezes, chegam ao consultório influenciadas por relatos familiares, conteúdos das redes sociais e opiniões diversas.

“A gestante já chega cercada por muitas informações. O papel do consultório é ajudá-la a encontrar equilíbrio, entender o que faz sentido para o caso dela e viver a gestação com mais segurança, sem transformar tudo em medo”, explica.

Entre os episódios marcantes de sua trajetória está o acompanhamento de uma gestante de gêmeos que apresentou sangramento após uma consulta aparentemente tranquila. Diante da urgência e da ausência de vaga neonatal na primeira unidade, Marina seguiu com a paciente e sua família até outro hospital, onde o parto foi realizado. A situação ilustra sua forma de atuar: decisões técnicas aliadas à presença constante, especialmente nos momentos de imprevisibilidade.

Fertilidade, parto e cuidado em cada fase

Além do acompanhamento gestacional, Marina atende mulheres e casais que desejam engravidar. Para ela, a infertilidade exige não apenas investigação médica, mas também acolhimento emocional. A dificuldade para engravidar pode trazer frustração, comparações e sentimentos de culpa.

A especialista destaca que a idade feminina é um fator relevante na fertilidade, devido à redução progressiva da reserva ovariana. Outros aspectos também devem ser avaliados, como histórico clínico, estilo de vida, ovulação, função tireoidiana, presença de endometriose, miomas, pólipos e fatores masculinos, como a qualidade do sêmen.

“A mulher não deve carregar culpa por ter esperado. Cada uma encontra a maternidade no seu tempo. Quando esse desejo surge, o mais importante é avaliar a realidade daquele momento e entender quais caminhos são possíveis”, comenta.

O planejamento reprodutivo também faz parte desse acompanhamento. Em alguns casos, o congelamento de óvulos pode ser considerado como estratégia de preservação da fertilidade, sempre com indicação individualizada. Para Marina, falar sobre o tema com naturalidade contribui para decisões mais conscientes.

A educação em saúde é outro pilar de sua atuação. O projeto Pré-natal dos Sonhos surgiu com o objetivo de levar informação segura a gestantes e famílias, abordando temas como alimentação, exames, atividade física, sintomas da gravidez, tipos de parto, amamentação, puerpério e rede de apoio.

“Informação de qualidade organiza e traz segurança. A gestante precisa saber o que observar e quando procurar ajuda, mas também precisa viver esse período com leveza”, afirma.

A escolha da via de parto é um dos temas mais sensíveis. Marina defende que parto normal e cesárea sejam discutidos sem julgamentos, considerando segurança materna e fetal, desejo da mulher e avaliação médica.

“O parto não deve ser uma prova. Ele precisa considerar segurança, preparo e indicação. A mulher deve se sentir acolhida na decisão que faz.”

O pós-parto também exige atenção. Questões como dor, cansaço, amamentação e adaptação emocional ainda são pouco discutidas. Sinais como isolamento, tristeza persistente, dificuldade de vínculo com o bebê ou alterações importantes de comportamento devem ser observados e acompanhados por profissionais.

“A gente fala muito sobre o nascimento do bebê, mas precisa falar também sobre o nascimento da mãe. O puerpério pede apoio, orientação e acolhimento.”

Saúde feminina além da maternidade

Embora a obstetrícia seja um eixo importante de sua atuação, Marina reforça o papel da ginecologia preventiva. O acompanhamento regular permite identificar alterações menstruais, secreções, dor na relação, questões hormonais e cuidar da saúde das mamas, além de orientar métodos contraceptivos e fertilidade.

Ela destaca que escolhas como DIU e implantes contraceptivos devem ser feitas com base no histórico clínico, em sintomas e nos planos reprodutivos de cada mulher.

Nos próximos anos, pretende ampliar sua atuação junto a mulheres acima dos 40 e 50 anos, especialmente durante o climatério e a menopausa, fases que, por muito tempo, foram negligenciadas.

“A mulher vive mais, trabalha mais e quer continuar se sentindo bem. Não faz sentido tratar sintomas importantes como algo que ela precisa apenas suportar.”

A tecnologia também integra o atendimento, com recursos como ultrassonografia no consultório e exames voltados à reprodução humana. Ainda assim, Marina reforça que nenhuma ferramenta substitui o vínculo entre médica e paciente.

A fé, por sua vez, é um dos pilares que sustentam sua serenidade em uma especialidade marcada por imprevistos. Para manter o equilíbrio, cuida da saúde mental com terapia, atividade física e momentos de descanso, reconhecendo que acolher o outro também exige limites.

O olhar para o futuro envolve o fortalecimento de projetos de educação em saúde e a ampliação do cuidado com mulheres maduras. Em todas as fases, sua mensagem é clara:

“Mulher, seja a sua principal prioridade. Você precisa estar bem consigo mesma para desempenhar todos os papéis que assume na vida.”

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