Uma mulher que lutava contra os próprios desejos há mais de dois séculos e era capaz de destruir todos a sua volta por não conseguir dar vazão aos sentimentos. Esses eram os conflitos de Maria, personagem de Indira Nascimento (35), em Dona Beja, da HBO Max e atualmente em exibição na Band.

Em papo com a CARAS, a atriz falou dos desafios de interpretar uma personagem que despertou emoções muito intensas no público, que teve dificuldade para entender os conflitos e dramas de Maria. “As pessoas ficaram muito bravas com a Maria. A gente está muito acostumado a ver mulheres negras sendo subservientes, não serem ativas. As pessoas ainda se espantam. É chocante ver uma mulher negra sendo o cérebro de ação, manipulando os outros, nesse lugar de enfrentamento, coragem. As pessoas me diziam que odiavam a Maria, mas me davam parabéns pelo meu trabalho“, conta.

– O que uma personagem tão complexa exigia de você?
– Eu saía exausta física e emocionalmente. Tive sequências muito duras. Nosso trabalho é muito louco. Naquele momento, sou eu. Não é a minha vida, minha história, minhas escolhas. Mas quando me coloco à disposição daquilo, sou eu, são minhas emoções, meu corpo. A Maria sofreu muita violência. A mãe dela diz que o fato de tê-la carregado dentro do corpo não significa que ela goste dela. É muito duro ouvir isso. Eu tive que revisitar lugares em mim que fossem ao encontro desses sentimentos. Tive que acessar feridas internas. Tive que me lembrar das vezes que eu fui rejeitada e me coloquei tão vulnerável… amei tanto alguém que foi incapaz de me amar por eu ser uma mulher negra. O meu trabalho é muito precioso. Você precisa mergulhar em lugares, mas também precisa ter a técnica para sair disso.

– O que acha que o público pôde absorver com os dramas da Maria?
– A minha intenção com esse trabalho é que as pessoas consigam entender o quão perigoso é uma pessoa reprimida, que se sente impedida pelos próprios medos, pela família e pela sociedade de ser quem ela é, de existir plenamente. O quão perigoso isso pode ser para essa pessoa e também para quem está em torno dela. A Maria é a bomba-relógio prestes a explodir a qualquer momento, pronta para ferir a si mesma e aos outros. A pergunta é o que podemos fazer enquanto familiares, sociedade e amigos para criar uma cultura diferente, em que as pessoas possam viver livremente e para que isso não seja tabu, não seja motivo de rejeição. Pessoas adoecem por essas violências impostas. A princípio, as pessoas odiavam a Maria, mas também foram entendendo por que ela agia assim.

– Diante de um ano de tantas realizações e conquistas, o que você ainda almeja e sonha para o futuro no audiovisual e em sua carreira como um todo?
– É sempre interessante personagens que me expandam, que eu me sinta desafiada, que eu fique motivada a mergulhar em lugares por onde ainda não passei. Que eu possa adentrar novas searas. Eu ainda não tinha tido a oportunidade de fazer uma antagonista. A intenção é essa. Seguir fazendo personagens que exijam de mim tanto quanto a Maria. É muito gostoso ver as pessoas percebendo essa gama de possibilidades que elas nem sabiam que eu tinha. Meu desejo como atriz é conseguir fazer personagens variados e poder concorrer por diversos caminhos emocionais.