Uma mulher nem sempre entra no consultório dizendo exatamente o que sente. Às vezes, a queixa aparece na postura, na hesitação ou no silêncio que antecede uma resposta. É nesse espaço, onde o relato clínico encontra a experiência humana, que Jan Pawel Pachnicki procura exercer a medicina.

Com atuação em Ginecologia, Mastologia, Oncologia Ginecológica e cirurgia, ele divide a rotina entre pacientes, centro cirúrgico e salas de aula. A técnica ocupa um lugar essencial em seu trabalho, mas não encerra o cuidado.

“A medicina precisa de método, mas o método não substitui a percepção. A paciente se comunica pela fala, pelos gestos e pela forma como entra na sala. Quando o médico observa e escuta, compreende melhor a pessoa que apresenta aquele sintoma”, explica.

Das raízes familiares à medicina

A história de Pachnicki começa entre a Polônia e o interior do Paraná. Seu pai deixou o território polonês durante o regime comunista e chegou ao Brasil após receber uma carta-convite. Sacerdote, instalou-se em Pinhalão, onde conheceu a futura mãe de Jan.

Ao se apaixonar por ela, pediu autorização ao Vaticano e deixou a vida religiosa para formar uma família. Criada em um ambiente simples, ela decidiu estudar Medicina e, mais tarde, escolheu a Ginecologia. A infância de Pachnicki transcorreu entre as raízes rurais dos dois lados da família, as viagens entre Brasil e Polônia e a rotina exigente da mãe médica.

No início, ele sonhava em ser piloto da Aeronáutica, mas a miopia impediu a carreira. Ao rever os planos, começou a enxergar a profissão materna de outra maneira. O que antes parecia apenas excesso de trabalho passou a representar a capacidade de compreender e ajudar.

“Durante muito tempo, enxerguei apenas o quanto minha mãe trabalhava. Depois percebi que ela conseguia cuidar, entender o sofrimento e agir quando ninguém mais sabia o que fazer. Foi isso que me aproximou da Medicina”, relembra.

Pachnicki ingressou na faculdade pensando em Cirurgia Cardíaca, influenciado pelo primeiro infarto do pai. Ao longo da formação, porém, aproximou-se justamente das áreas que mais tarde se tornaram centrais em sua carreira.

A Ginecologia o atraiu pela possibilidade de acompanhar diferentes fases da vida feminina. O interesse pela cirurgia o conduziu à Oncologia Ginecológica e, dentro dela, a Mastologia se tornou sua principal afinidade. Na mesma época, a oncoplástica ganhou espaço ao associar tratamento oncológico e preservação da mama.

“A faculdade me levou exatamente para onde eu dizia que não iria. As áreas que eu havia descartado se encontraram no campo pelo qual me apaixonei”, comenta.

Ele se formou em Medicina pela Faculdade Evangélica do Paraná, realizou residência em Ginecologia e Obstetrícia no Hospital Universitário Evangélico de Curitiba e aprofundou a formação em Oncoginecologia, Mastologia e Histeroscopia. Mais tarde, concluiu mestrado e doutorado em Princípios da Cirurgia.

Ensino, ética e escuta

A docência surgiu do desejo de explicar melhor. Pachnicki buscava uma linguagem mais clara para conversar com as pacientes e percebeu que esse exercício também poderia contribuir para a formação de outros profissionais.

Hoje, participa da formação de estudantes, residentes e especialistas em instituições de Curitiba. A convivência com públicos diferentes reforça uma convicção: quem ensina precisa continuar aprendendo.

“Estudantes, residentes e especialistas constroem o raciocínio por caminhos distintos. Para ensinar, eu também preciso permanecer na posição de aluno”, afirma.

A vida acadêmica o aproximou de entidades ligadas à Ginecologia, à Obstetrícia e à Mastologia. Durante parte da trajetória, também integrou o Conselho Regional de Medicina do Paraná, experiência que ampliou seu interesse por ética e responsabilidade profissional.

Para Pachnicki, a formação médica não se resume ao conhecimento técnico. A prática exige maturidade para reconhecer limites e compreender que nem todo procedimento possível precisa ser realizado.

“Aprender a técnica de uma cirurgia é apenas uma etapa. Leva mais tempo para compreender quando indicá-la e muito mais para reconhecer quando não se deve operar”, reflete.

Essa visão também orienta o atendimento. Na saúde feminina, sintomas físicos frequentemente chegam acompanhados de medo, culpa, vergonha ou experiências anteriores de desvalorização. Sexualidade, fertilidade, alterações hormonais e suspeitas de câncer atravessam dimensões íntimas da vida.

Pachnicki considera insuficiente limitar a consulta a uma sequência protocolar de perguntas. A anamnese organiza a investigação, mas não substitui a atenção à maneira como cada mulher conta sua história. Em alguns momentos, a melhor intervenção é um silêncio que lhe permita prosseguir.

“A paciente precisa sentir que pode falar sem ser interrompida ou julgada. Em determinados atendimentos, essa disponibilidade é parte essencial do cuidado”, diz.

Outro desafio está na normalização do sofrimento. Cólicas intensas, sangramentos, dor nas relações sexuais, ondas de calor e mudanças de humor podem ser tratados como inevitáveis porque também fizeram parte da vida de mães, tias ou avós.

Aquilo que é comum, no entanto, nem sempre é normal. Essa mesma atenção orienta decisões diante do câncer de mama. Reconstrução mamária e preservação da fertilidade devem ser apresentadas como possibilidades, não como imposições.

“Cada mulher interpreta o adoecimento de uma forma. É preciso compreender o que ela deseja e o que está sendo decidido sob o impacto do medo”, ressalta.

Tecnologia e futuro

A medicina que Pachnicki pratica hoje é diferente daquela que encontrou no início da carreira. Técnicas menos invasivas reduziram complicações na Mastologia, medicamentos mais direcionados ampliaram possibilidades na Oncologia e a cirurgia robótica acrescentou precisão a procedimentos selecionados.

A inteligência artificial é o avanço que mais desperta sua curiosidade. Ele não a enxerga como substituta do médico, mas como uma ferramenta capaz de ampliar a análise de exames e apoiar decisões clínicas.

“A inteligência artificial acrescenta novos olhos ao cuidado, mas continua dependendo de contexto, interpretação e responsabilidade humana”, afirma.

Mesmo após anos dedicados à assistência, à cirurgia e ao ensino, a imunologia ainda o devolve à posição de estudante. Imunoterapias, anticorpos e mecanismos de defesa despertam a mesma curiosidade dos primeiros períodos da faculdade.

Nos próximos anos, Pachnicki pretende permanecer no centro cirúrgico, preservar a docência e colaborar com entidades médicas. Ao mesmo tempo, deseja reservar espaço para a família e acompanhar o crescimento dos filhos.

Ao olhar para a própria trajetória, ele reconhece nas mulheres uma parte decisiva de sua formação. A mãe lhe apresentou a Medicina; as pacientes lhe ensinaram sobre medo, confiança, firmeza e delicadeza.

“As mulheres me ensinam que é possível ser forte sem perder a delicadeza e cuidar sem deixar de se posicionar. Continuem cuidando de quem amam, mas não se esqueçam de que também precisam cuidar de si”, conclui.

CRM: 21992/PR | RQE Nº: 14886 | RQE Nº 542 | RQE Nº 895

Instagram: @jan.pawel.pachnicki

O conteúdo dessa publicação é de responsabilidade da TV Notícias Assessoria de Imprensa / Brasil News