A revelação de que Robbie Williams, de 52 anos, recebeu o diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA) chamou atenção para uma realidade que vai muito além da trajetória do cantor. Mesmo após décadas de exposição pública e uma carreira marcada pelo contato com grandes plateias, o artista só identificou a condição na vida adulta.
Williams já havia falado publicamente sobre TDAH, ansiedade, pensamentos intrusivos e dificuldades relacionadas à interação social. Para o neurologista Dr. Matheus Trilico, referência no atendimento de adultos com TEA e TDAH, receber um diagnóstico depois dos 40 ou 50 anos não significa que a condição surgiu naquele momento.
“Quando alguém recebe um diagnóstico de autismo aos 40 ou 50 anos, isso não significa que se tornou autista naquela idade”, explica o especialista. “O TEA é uma condição do neurodesenvolvimento. O que pode acontecer é que determinados sinais tenham passado despercebidos, sido compensados ou recebido outras interpretações ao longo da vida”.
Por que o autismo pode ser descoberto apenas na vida adulta?
Segundo o Dr. Matheus Trilico, algumas pessoas desenvolvem, ao longo dos anos, maneiras de lidar com suas dificuldades sem necessariamente compreender a origem delas. Esse processo pode fazer com que características relacionadas ao espectro sejam percebidas apenas como traços de personalidade, timidez ou dificuldades isoladas.
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Um dos conceitos importantes nesse cenário é o chamado masking, ou camuflagem social. O termo descreve situações em que a pessoa observa comportamentos considerados socialmente esperados e aprende a reproduzi-los para conseguir se adaptar.
Isso pode incluir ensaiar conversas, imitar expressões, controlar determinadas reações ou esconder desconfortos em situações sociais. Para quem está de fora, o comportamento pode parecer completamente natural, embora exista um esforço significativo por trás dele.
“Às vezes o adulto chega ao consultório dizendo: ‘Eu consigo fazer tudo, mas tudo me custa muito’”, relata o neurologista. “Esse custo também precisa ser ouvido. Funcionamento aparente e sofrimento interno não são necessariamente a mesma coisa”.
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Teste pela internet diagnostica autismo?
Antes da avaliação especializada, Robbie Williams chegou a realizar um teste on-line para autismo cujo resultado não indicava a condição. Posteriormente, recebeu o diagnóstico após procurar profissionais especializados.
Para o Dr. Matheus Trilico, o episódio chama atenção para a diferença entre uma ferramenta de rastreamento e uma avaliação clínica completa.
“Um questionário pode servir como rastreamento e indicar que determinadas características merecem ser investigadas”, explica. “Mas um teste isolado, principalmente feito pela internet, não confirma e também não deveria ser utilizado sozinho para excluir um diagnóstico”.
Por isso, pessoas que reconhecem dificuldades persistentes relacionadas à interação social, organização da rotina ou outros aspectos do funcionamento cotidiano devem procurar uma avaliação profissional, em vez de utilizar questionários isolados como conclusão definitiva.
Autismo e TDAH podem aparecer juntos?
Outro ponto da história de Robbie é a presença do TDAH, condição sobre a qual o cantor já havia falado antes de revelar o diagnóstico de TEA. Segundo o neurologista, as duas condições podem coexistir na mesma pessoa e apresentar desafios diferentes.
“Essa comorbidade complica o quadro clínico”, afirma o Dr. Matheus Trilico. “O TDAH traz desregulação atencional e dificuldade executiva. O TEA traz desafios na comunicação social e padrões restritos de comportamento. Quando coexistem, o impacto funcional se multiplica”.
Para o especialista, essa combinação também pode afetar diferentes áreas da vida do paciente, incluindo relacionamentos familiares, atividades profissionais e organização da rotina.
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