O cantor Gaab (27), chamou atenção ao revelar que perdeu 40 kg durante seu processo de emagrecimento. A transformação, no entanto, também gerou críticas nas redes sociais, principalmente de pessoas que atribuíram o resultado exclusivamente ao uso do Mounjaro.

O artista fez questão de esclarecer que o processo aconteceu em duas etapas. Segundo Gaab, foram 20 kg perdidos antes de começar a tomar o medicamento e outros 20 kg durante o período em que utilizou a medicação. Ele contou ainda que iniciou o uso em outubro e interrompeu em janeiro.

A repercussão do caso reacende uma discussão cada vez mais presente: qual é o papel do Mounjaro no emagrecimento e até que ponto o medicamento deve ser considerado uma ferramenta dentro de um tratamento mais amplo? Para entender os benefícios, limites e cuidados relacionados à tirzepatida, a CARAS Brasil conversou com o nutrólogo Rubem Regoto.

Mounjaro é uma ferramenta para emagrecer?

De acordo com o especialista, a discussão sobre a chamada ‘caneta emagrecedora’ precisa ir além da ideia de que existe um caminho rápido para perder peso. Para Regoto, o medicamento pode ser uma ferramenta importante, desde que exista uma indicação adequada.

“O que a maioria das pessoas não sabe é que o problema não está em usar uma ferramenta para emagrecer. Na verdade, hoje, o que a maioria das pessoas já se pergunta é se “inventaram” um “atalho” para a fome, como se fosse possível ter um “atalho” para mudar maus hábitos.”

O nutrólogo explica que a questão principal não está simplesmente em utilizar ou não uma medicação, mas em entender como ela deve ser inserida no tratamento.

“Vou explicar como conseguir isso com o apoio de estratégias e tecnologias que podem sustentar a melhora no longo prazo, sem efeito rebote e mantendo a saúde. O grande problema é usar essa ferramenta sem saber para quem, quando e como. Ou seja, a indicação correta e os riscos envolvidos são pontos que precisamos explicar. E vou deixar isso bem claro para os leitores ao responder a essas perguntas.”

Gaab depois do emagrecimento – Foto: Instagram

Segundo Regoto, a tirzepatida pode proporcionar perdas de peso significativas quando existe indicação adequada.

“A tirzepatida é uma ferramenta eficaz no tratamento da obesidade e pode promover perdas de peso importantes, de 10%, 20% ou até mais, mas somente quando é bem indicada.”

O especialista reforça, porém, que o medicamento não deve ser tratado apenas como uma ‘caneta para emagrecer’, mas como parte de um acompanhamento individualizado.

“Não é uma simples “caneta para emagrecer”, mas um medicamento que deve fazer parte de um tratamento completo e individualizado, especialmente em pessoas com obesidade ou sobrepeso que precisam tratar essa doença. Ao mesmo tempo, é importante evitar que essas pessoas se exponham a riscos por conta de um tratamento mal indicado.”

A própria Anvisa destaca que o Mounjaro contém tirzepatida e, em seu registro inicial no Brasil, indicava o medicamento como adjuvante à dieta e aos exercícios para o controle glicêmico de adultos com diabetes tipo 2.

Mounjaro substitui dieta e atividade física?

Para Rubem Regoto, outro ponto importante é entender que o medicamento não elimina a necessidade de mudanças de comportamento: “Tem algo que nem todo mundo vai ter coragem de te falar: a caneta pode, sim, ajudar a controlar a sua fome. Mas ela não pode fazer as escolhas por você.”

É justamente nesse ponto que, segundo o nutrólogo, pode surgir um dos principais equívocos durante um processo de emagrecimento: acreditar que a medicação será responsável por todas as mudanças.

“Esse é o grande inimigo: acreditar que o medicamento, sozinho, substitui a mudança de comportamento. Mas o que fazer para mudar maus hábitos se foram justamente eles que levaram você à obesidade?”

O especialista ressalta que fatores relacionados à rotina continuam importantes para quem busca perder peso e manter os resultados: “Como todo mundo sabe, alimentação, atividade física, sono e a construção de novos hábitos continuam sendo fundamentais.”

Além dessas mudanças, Regoto menciona estratégias complementares que, segundo ele, podem auxiliar determinados pacientes durante o processo.

“Mas o que talvez ainda não tenham lhe contado é que também podemos utilizar recursos para facilitar essa mudança, como terapias que melhoram o comportamento e auxiliam no controle da compulsão no longo prazo, como a neuromodulação, com tDCS e outras tecnologias simples, acessíveis, eficazes e seguras, que podem apoiar a mudança desses fatores no longo prazo, sempre como recursos complementares e individualizados.”

Para ele, portanto, o objetivo de um tratamento para obesidade não deve se limitar ao número apresentado pela balança: “A ideia é tratar não apenas o peso, mas também os circuitos e comportamentos que sustentam a obesidade.”

Quais são os riscos do Mounjaro sem acompanhamento?

O uso do Mounjaro sem acompanhamento médico também exige atenção. Segundo Regoto, reproduzir a dose ou o tratamento de outra pessoa pode representar um risco, já que cada paciente possui necessidades diferentes.

“A ideia é tratar não apenas o peso, mas também os circuitos e comportamentos que sustentam a obesidade. O perigo não está apenas no mau uso de um medicamento ou no uso de um produto “falsificado”. Está também em acreditar que, se uma dose funcionou para alguém, ela funcionará para você.”

Entre os efeitos mencionados pelo nutrólogo estão sintomas gastrointestinais, que podem ocorrer durante o uso da medicação.

“Os efeitos mais comuns são gastrointestinais, como náuseas, vômitos, diarreia e constipação. Mas também existem situações que exigem avaliação médica, como problemas na vesícula, pancreatite e desidratação.”

Gaab antes do emagrecimento – Foto: Instagram

A própria Anvisa aponta que as reações adversas mais comuns relacionadas à tirzepatida são gastrointestinais e que a dose deve ser ajustada clinicamente de acordo com a tolerabilidade e as necessidades do paciente.

Outro cuidado destacado pelo especialista envolve a procedência do produto: “Há, ainda, registros de mortes relacionados ao uso de medicamentos de má procedência ou mal conservados.”

A preocupação com produtos irregulares também aparece em ações recentes da Anvisa. Em fevereiro de 2026, a agência determinou a apreensão de lote de Mounjaro após a fabricante informar a identificação de características divergentes do medicamento original.

Por isso, segundo Regoto, o acompanhamento precisa considerar diferentes etapas do tratamento: “Por isso, a dose, a indicação, o aumento gradual, os exames, a alimentação e a preservação da massa muscular precisam ser acompanhados.”

O que acontece depois que o paciente perde peso?

O nutrólogo chama atenção ainda para uma etapa que pode ser esquecida durante o processo: a manutenção do resultado: “E existe uma etapa ainda mais importante: o depois. O tratamento precisa ensinar o paciente a sustentar os resultados.”

Na avaliação de Regoto, estratégias complementares também podem fazer parte dessa fase, sempre de maneira individualizada: “É aí que entra a neuromodulação, como recurso de apoio às estratégias comportamentais.”

Ao final, o especialista reforça a importância de buscar orientação profissional diante de dúvidas sobre emagrecimento, Mounjaro, medicamentos e neuromodulação.

“Gostaria de deixar um convite ao público: em caso de dúvidas sobre emagrecimento, medicações e neuromodulação, podem enviar perguntas pelas nossas redes sociais e directs. Teremos o maior prazer em respondê-las.”

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