A romantização da maternidade acaba de ganhar um duro choque de realidade vindo dos bastidores do Projac nesta temporada de 2026. A premiada atriz Letícia Colin abriu o coração e trouxe a público um desabafo corajoso sobre os primeiros meses de vida de seu filho, Uri, hoje com 6 anos. Durante a sua participação no podcast Mil e Uma Tretas, a artista revelou acreditar que enfrentou um quadro severo de depressão pós-parto que jamais havia sido diagnosticado clinicamente. O relato joga luz sobre o puerpério, um período em que milhares de mulheres sofrem em completo silêncio.
A desconexão emocional de Letícia Colin
O nascimento do herdeiro da famosa aconteceu em um cenário global extremamente delicado: o início da pandemia da Covid-19. Esse contexto de crise sanitária agravou drasticamente os sentimentos de solidão e a sobrecarga diária com o recém-nascido.
Letícia descreveu que conviveu por muito tempo com uma sensação incômoda de não pertencer por completo à sua própria realidade física e geográfica. Ela relatou uma forte impressão de distanciamento, como se estivesse assistindo à própria vida de fora. “Acho que eu tive uma depressão que eu não diagnosticei, era pandemia, tudo junto. Quando eu olho para trás eu penso: ‘Gente, acho que eu não estava bem’”, avaliou a estrela da televisão. Desse modo, a famosa expôs como a depressão pode passar camuflada sob o cansaço extremo da rotina materna.
A diferença entre o puerpério orgânico e o pós-parto psicológico
A dor relatada pela atriz não é um caso isolado. De acordo com a psicóloga perinatal Rafaela Schiavo, fundadora do Instituto MaterOnline, o choque entre as expectativas e a rotina real de um bebê é o principal gatilho para o sofrimento psíquico das mães.
A especialista detalha que a confusão de termos faz com que muitas mulheres demorem a procurar a ajuda médica necessária. “O puerpério está muito mais relacionado à adaptação orgânica. Já o pós-parto está muito mais relacionado à adaptação psicológica”, ensina a psicóloga. Para Rafaela, o comércio da maternidade perfeita causa danos severos. “O puerpério romantizado é vendido para muitas pessoas. Mas o puerpério real é diferente. A mulher vai ter que lidar com o bebê real, não com o bebê idealizado; com a maternidade real, não com a maternidade idealizada; com a amamentação real, não com a amamentação idealizada”, pontua.
Os dados alarmantes no Brasil e os sinais de alerta máximo
Segundo dados oficiais da Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 13% das puérperas no mundo desenvolvem algum tipo de transtorno mental. Em países em desenvolvimento, esse índice salta para impressionantes 19,8%. No território nacional, um estudo estatístico da Fiocruz aponta que mais de uma em cada quatro mães apresenta sintomas depressivos agudos entre os 6 e 18 meses após o parto.
A psicóloga alerta que a rede de apoio precisa ficar atenta a oscilações extremas que superem o chamado baby blues — aquela tristeza passageira dos primeiros dias. Mudanças drásticas como irritabilidade constante, sensação persistente de incapacidade, pesadelos frequentes e isolamento social exigem uma triagem profissional imediata. Outro ponto crítico é a invisibilidade da mulher. “As pessoas vão visitar o bebê, não a mãe. Durante a gestação, ela recebe mimos, todo mundo quer saber dela. Quando o bebê nasce, muitas vezes ninguém pergunta como ela está”, conclui Rafaela.
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