Uma das maiores vozes da música brasileira partiu deixando um acervo com mais de 800 gravações, mas quase nenhuma fortuna material. Apesar de ter lançado mais de 35 álbuns e construído uma carreira internacional de sucesso, a estrela vivia uma rotina simples. Não acumulava apartamentos, posses luxuosas ou bens caros. Para seus herdeiros, a verdadeira riqueza ficou cravada na cultura do país e nos direitos autorais que essas canções vão gerar pelas próximas décadas.
Desde a sua partida, o quarto da artista permaneceu intacto, servindo como uma cápsula do tempo. Nas paredes, quadros que retratam o rosto da cantora e de um grande amor de seu passado decoram o ambiente. O cômodo virou o escritório de sua neta, que passou a cultivar um ritual diário para lidar com o luto: entrar no local todas as manhãs para dar “bom dia”. Nas palavras dela: “Está tudo aqui comigo. O quarto está idêntico. A única coisa que eu fiz foi levar o meu computador. A cama, que eu não desfiz. Até porque nós estamos em processo de inventário”.
A mulher que cantou até os últimos dias, que faleceu de causas naturais aos 91 anos e que hoje completaria 96 anos, veio do famoso “planeta fome” para conquistar o mundo: estamos falando de Elza Soares. De acordo com reportagens publicadas pelos portais UOL (coluna Splash) e Tribuna da Região, a trajetória de Elza prova que seu principal patrimônio nunca foi o dinheiro. Em seu testamento, as decisões foram tomadas de forma prática para garantir que a obra não se perdesse com o tempo.

Divisão do legado e bens materiais
Sem imóveis de alto padrão em seu nome, o que restou de posses físicas foi repassado de maneira direta. Elza destinou itens pessoais aos filhos, respeitando o que sabia que cada um gostava mais.
O acervo histórico da cantora foi dividido em duas partes: 50% dos itens materiais ficaram com a neta, Vanessa Soares. Já a administração de todo o legado artístico passou para as mãos de seu amigo e empresário, Pedro Loureiro.
Como Vanessa explicou em conversa com o portal UOL: “Elza não tinha apartamento. Elza não tinha isso de ter as coisas. Elza era muito desprendida dessa coisa material. Gostava de viver intensamente”.
O futuro dos direitos autorais
Se as contas bancárias não abrigavam grandes fortunas, o rendimento futuro do trabalho da artista é garantido pela lei de propriedade intelectual. Em uma nota divulgada à imprensa e repercutida pela Tribuna da Região, o Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad) detalhou como funciona esse processo para os familiares.

A corporação confirmou que existem exatas 864 gravações registradas em nome da cantora. A lei brasileira garante que a família continue recebendo os valores arrecadados com a reprodução dessas músicas por um longo período. “Esse pagamento é assegurado por 70 anos, após a morte do autor“, informou o comunicado oficial do Ecad. Na prática, isso significa que os herdeiros terão uma fonte de renda contínua e cumulativa ao longo das próximas décadas.
Um símbolo para as novas gerações
Além da herança artística e financeira, a cantora construiu um legado firmado em causas sociais importantes. Ao longo de quase sete décadas de carreira, ela se estabeleceu como uma figura de frente na luta contra o racismo, a violência doméstica e a intolerância religiosa.
Seu último grande trabalho, curiosamente lançado em 2021 pouco antes de falecer, foi um disco gravado na década de 1990 em parceria com João de Aquino, que ficou guardado por cerca de trinta anos.
O grande segredo para que as canções continuem sendo ouvidas, segundo a própria família, é a capacidade que a artista tinha de dialogar com os mais jovens.
“Ela não ficou rotulada. A Elza conseguiu trazer essa coisa jovem porque ela sempre foi muito jovem. Quem vai manter esse legado serão eles, essa turma que está vindo aí“, concluiu a neta.

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