Uma das maiores figuras do humor e da televisão brasileira faleceu em julho de 2008, aos 101 anos, vítima de uma pneumonia. Internada no Hospital São Lucas, no Rio de Janeiro, sua morte marcou o fim de um longo capítulo na comédia nacional. Com uma carreira de 86 anos de duração que atravessou o teatro de revista, o cinema e a televisão, a artista construiu um legado sólido. Fora dos palcos, ela também chamou a atenção pelo vasto patrimônio financeiro que acumulou com o trabalho e pelo destino prático que deu a todo esse dinheiro.
Na época de sua morte, o patrimônio deixado por ela ultrapassava a marca de R$ 24,5 milhões. Essa quantia era composta por aplicações financeiras, direitos autorais e imóveis, destacando-se um apartamento no bairro do Leme, na zona sul do Rio de Janeiro, onde a comediante morou até os últimos dias de vida.
De acordo com informações publicadas pelo site Notícias da TV, uma boa parcela desse valor veio de uma batalha judicial. Ela ganhou uma indenização milionária após vencer um processo trabalhista contra a TV Globo, emissora da qual foi demitida. O atrito ocorreu porque a atriz não aceitava a censura imposta às suas falas. Seu jeito solto e sem filtros acabou afastando patrocinadores comerciais importantes da emissora na época, como o antigo Banco Nacional de Habitação (BNH) e a Coca-Cola, marcas com as quais a artista brincava negativamente ao vivo.
A mulher que construiu esse império financeiro e cultural nasceu em 1907 e foi batizada como Dolores Gonçalves Costa. Mas o público a consagrou de outra forma: Dercy Gonçalves.

Reconhecida por quebrar padrões sociais em uma época conservadora, a atriz completaria 119 anos de idade. Dercy entrou para o Guinness Book por ter a carreira mais longa da história mundial entre as atrizes e sempre manteve sua essência do teatro mambembe até os estúdios de gravação. Em vida, ela determinou que todos os seus bens tivessem apenas um destino.
A única herdeira de Dercy
O patrimônio de R$ 24 milhões ficou para Maria Dercimar Gonçalves Senra, mais conhecida como Decimar Gonçalves. O portal Purepeople detalha que a herdeira nasceu em 1934, fruto de um relacionamento de dois anos da comediante com o exportador de café mineiro Ademar Martins.
O empresário era casado na época e registrou a criança em segredo. Ele chegou a pagar uma casa para a mãe de primeira viagem e ajudava com as despesas, mas o fato de ser uma relação extraconjugal impediu que eles formassem uma família juntos. Dercy assumiu a frente e criou a filha sozinha.

Aos 88 anos de idade, Decimar faleceu em novembro de 2023. A notícia de sua morte foi confirmada nas redes sociais por sua neta, Melissa Senra: “O meu mundo ficou mais triste e vazio (…) Ela foi meio pai, meio mãe, minha gostosa (como eu a chamava), minha amigona”.
A rigidez dentro de casa
Quem assistia Dercy Gonçalves falar o que vinha à cabeça na televisão não imaginava como era a rotina em sua casa. Decimar preferiu viver fora da fama, mas explicou a dinâmica da família durante uma entrevista ao programa Conversa com Bial, em 2018.
Na ocasião, a filha revelou que o linguajar com palavrões, marca registrada da mãe, não era permitido para os demais. “Ela dizia, mas não gostava que a gente dissesse. Ela mantinha um padrão: ela podia tudo, e nós, não”, relatou Decimar em tom de brincadeira.
A herdeira também destacou o choque de realidade entre o personagem público e a postura maternal: “Apesar do escracho, a mamãe era muito certinha, valores incríveis. Rígidos, rígidos. Ela era disciplinada”.

O falecimento de Decimar encerrou a linhagem direta da árvore genealógica da humorista, deixando como registro a história de uma mulher que trabalhou quase um século para garantir o sustento da família, mantendo regras firmes nos bastidores da própria vida.
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