Primeira mulher no Brasil a narrar uma Copa do Mundo na TV aberta, Renata Silveira (36) é pioneira no segmento e vem acumulando feitos históricos. Depois de conduzir a competição na TV Globo em 2022, a locutora se tornou, com a Copa de 2026, a primeira a narrar uma partida diretamente do estádio. “Quando estou fazendo o jogo, não gosto nem de pensar para quantas pessoas estou falando, quantas estão me assistindo, porque é muita gente”, admitiu, em papo exclusivo com a CARAS na redação do SporTV, no Rio de Janeiro.

Apesar de estar vivendo o auge da carreira e de estar mais do que consolidada na área, a carioca ainda enfrenta muita resistência do público, que não está acostumado a ver uma mulher ocupando esse lugar. “É muito grande ainda esse preconceito em relação à mulher dentro do futebol, né? Seja na arquibancada, seja a mulher jogando futebol, a mulher apitando um jogo, a mulher comandando uma transmissão”, conta a profissional, que sente isso na pele. “A resistência ainda é muito grande, mas eu já entendi que faz parte. Eu lido muito bem com isso, porque alguém vai ter que sofrer, alguém vai ter que passar por essas situações para que as próximas gerações sofram menos. Acho que não vai acabar tão cedo, mas a tendência é que vá diminuindo. Tomara! Eu já vejo isso, inclusive”, avalia.

Renata Silveira. Fotos: Marcio Farias

Críticas

Por estar à frente de algumas transmissões na TV Globo, a maior emissora do país, Renata fica mais exposta a receber críticas e elogios. “O meu nome é muito forte em relação a isso, porque trabalhar na Globo é diferente, então o canhão é muito maior. Claro que tem toda aquela parte de estar trabalhando na principal emissora e tal, mas tem um outro lado também: ‘Vamos ver se ela vai conseguir’. É saber que, todo dia que vou fazer um jogo, não estou fazendo só um jogo. Eu não posso errar, porque, se eu errar, vai virar meme. Se eu errar, vai tomar uma proporção muito grande. Se fosse qualquer outro narrador, não teria a mesma repercussão. Então, eu preciso estudar mais, preciso estar mais preparada, porque, se eu errar, vou provar para as pessoas que duvidam de mim que elas estavam certas”, afirma.

Renata Silveira na redação da SporTV. Fotos: Marcio Farias

Preconceito

A narradora diz não olhar mais os comentários nas redes sociais. “Não vale a pena, porque não acrescentam em nada. E, muitas vezes, você vê que a pessoa nem assistiu à sua transmissão e nem sabe quem você é”, diz ela, que às vezes é confundida com outras colegas de trabalho. “Não importa quem está narrando: se é narração feminina, é a Renata. Como fui a primeira a narrar e tal, meu nome ganhou uma proporção muito grande. Então, é a narração feminina; se querem falar sobre isso, vão colocar a minha foto, independentemente de ser eu ou não quem está narrando. É como se eu representasse todo mundo ali e a narração feminina fosse tudo igual. E isso fica muito ruim, porque, quando vão avaliar o trabalho de um homem narrando um jogo, é o nome dele que está em pauta. Não é a narração masculina. Com a narração feminina, existe isso: é como se fosse um bolo, um conjunto de coisas, e nada presta. E, quando eles erram, é engraçado, faz parte. A gente não. Se a gente errar… esquece!”, lamenta.

Seja em um jogo feito por ela ou não, os comentários negativos só evidenciam que, para alguns telespectadores, o problema é a presença feminina nesse lugar. “Torço muito para que isso mude. Está tudo bem não gostar do meu trabalho, não gostar do meu estilo, faz parte. O problema é achar que a mulher não pode estar ali pelo fato de ser mulher”, desabafa.