Revista / Reportagem

Fenômeno BTS: Conheça a trajetória da boy band mais potente do showbiz

BTS pavimentou o caminho do K-pop e desembarca no Brasil, em outubro, para três shows. A turnê BTS World Tour Arirang começou em abril e só finalizará após 80 exibições pelo mundo. Os ingressos para as apresentações já estão esgotados

Grupo BTS - Foto: Getty Images
Grupo BTS - Foto: Getty Images

O BTS está sob os holofotes! Após pausa de quatro anos para concluir o alistamento militar obrigatório sul-coreano, o grupo formado por RM (31), Jin (33), Suga (33), J-Hope (32), Jimin (30), V (30) e Jungkook (28) voltou com tudo para a cena mundial, com direito a lançamento do novo álbum, ARIRANG, e uma turnê mundial que tem registrado recordes atrás de recordes.

A jornada, para alegria dos fãs, inclui uma parada no Brasil, com apresentações marcadas para os dias 28, 30 e 31 de outubro, no Estádio do MorumBIS, em São Paulo. Ao todo, foram mais de 1,9 milhão de pessoas correndo para a fila virtual para tentar garantir um ingresso, que vale lembrar, já estão esgotados. Segundo a empresa responsável pela comercialização das entradas, o número seria suficiente para lotar 15 vezes o estádio paulistano, que possui capacidade de aproximadamente 60 mil pessoas. Até o momento, praticamente todos os mais de 80 shows da turnê mundial, que leva o nome do disco, também estão esgotados.

Com o retorno aos charts globais — as famosas paradas de sucesso —, novos recordes em plataformas digitais e uma multidão de fãs que os acompanha em qualquer lugar do mundo, você deve se perguntar: afinal, como o grupo sul-coreano se tornou um verdadeiro fenômeno global?

Como de costume no gênero K-pop, tudo se iniciou por meio do processo de trainee. Na indústria do pop sul-coreano, grandes empresas de entretenimento adotam um sistema de treinamento, em que os futuros artistas recebem aulas de canto, dança, rap, línguas e tudo aquilo que for necessário para se tornar uma celebridade — porém, sem nenhuma garantia de que a pessoa, de fato, entrará na indústria musical.

O processo é financiado pela agência, que também fornece moradia e alimentação. Mas a situação não é tão simples quanto muitos imaginam. A cada mês são realizadas avaliações mensais para ver se o trainee permanece apto artisticamente para ser um dos novos integrantes do grupo. Caso a empresa julgue que não houve evolução, ele é dispensado e precisa pagar a dívida do valor investido. Contudo, se chegar à fase final e estrear no conjunto, o valor será pago de acordo com os lucros obtidos pelos novos idols a cada lançamento. O salário de verdade, no entanto, só chega à conta bancária das estrelas quando toda a dívida for quitada.

Em 2013, quando o grupo ainda dava os primeiros passos nos palcos - Foto: Getty Images
Em 2013, quando o grupo ainda dava os primeiros passos nos palcos – Foto: Getty Images

Em 2010, a empresa BigHit Music iniciou um projeto com a ideia de criar um novo grupo masculino voltado para o hip-hop. Naquela época, a BigHit era uma empresa de pequeno porte e com poucos recursos financeiros, o que tornava o desafio ainda maior diante das gigantes do setor. Para a iniciativa, foram abertas audições em busca de novos talentos, nas quais os aprovados passaram por mais três anos de treinamento intensivo. RM e J-Hope foram os primeiros a chegar, seguindo no treinamento mesmo após o conceito do grupo mudar, deixando de ser focado no hip-hop e passando a ser mais voltado para o K-pop. Após a reformulação, Bang Si Hyuk, CEO da BigHit, começou a procurar também por vocalistas que pudessem se unir aos rappers. Foi assim que Jin, V, Jungkook e Jimin entraram na história.

O grupo estreou oficialmente em 13 de junho de 2013, com o miniálbum 2 Cool 4 Skool e a música de trabalho No More Dream, que, junto ao esforço pré e pós-lançamento, lhes rendeu seu primeiro grande prêmio: Artista Revelação do Ano na premiação coreana Melon Music Awards.

Entretanto, os primeiros anos não foram nada fáceis. Em 2014, o septeto fez sua estreia no mercado japonês e pisou pela primeira vez no Brasil, mas, durante as promoções do álbum Dark & Wild, o grupo enfrentou crises financeiras na empresa, colapsos na relação entre os membros e a intensa pressão ao ser comparado com conjuntos de agências maiores, resultando em sentimentos nada positivos. “Parecia que era o fim para nós”, chegou a dizer Jin no documentário BTS Monuments: Beyond the Star.

Incansáveis, eles seguiram de cabeça erguida e tudo começou a mudar a partir de 2015, com o lançamento do terceiro miniálbum The Most Beautiful Moment in Life e da música I Need U. Foi nessa era que eles conquistaram a sua primeira vitória nos shows musicais da TV sul-coreana.

Já 2016 marcou um amadurecimento sonoro e visual, com a chegada dos singles Spring Day, Not Today e Blood Sweat & Tears, servindo como base para o verdadeiro estouro internacional, que chegou no ano seguinte. Já em 2017 o grupo deu seus primeiros passos no mercado americano com o lançamento remix de Mic Drop, em parceria com o DJ Steve Aoki (48), além de vencer o 1º Prêmio Internacional no Billboard Music Awards.

A consolidação fora das fronteiras coreanas surgiu com a série de álbuns Love Yourself e hits como IDOL, que celebra a identidade cultural coreana, além de Boy with Luv, parceria com a cantora Halsey (31), que, junto aos prêmios conquistados no mercado americano, começou a alterar a percepção ocidental sobre a música asiática.

Grupo colore palco do American Music Awards, em 2020 - Foto: Getty Images
Grupo colore palco do American Music Awards, em 2020 – Foto: Getty Images

Comprovando sua estrondosa ascensão, segundo dados do governo sul-coreano, apenas em 2019 o BTS gerou sozinho 4,9
bilhões de dólares para a economia da Coreia do Sul — valor equivalente a 0,3% do PIB do país naquele ano.

A partir de 2020, o grupo começou a apostar no lançamento de singles totalmente em inglês, como Dynamite, marcando o início de uma nova era que apresentou resultados imediatos, incluindo a indicação para a edição de 2021 do Grammy, que se repetiria em 2022 com Butter, e em 2023 com My Universe, uma colaboração com o Coldplay.

Levando em consideração todo esse contexto, El Capitxn (32), produtor e DJ sul-coreano responsável pela produção de grande ssucessos do grupo e pela carreira solo de Suga, afirmou em entrevista exclusiva à CARAS: “Participar do processo de produção dos álbuns do BTS não foi apenas uma colaboração na minha carreira, mas uma experiência de testemunhar de perto como a música pode mover uma era inteira. O BTS foi além de apenas fazer boa música; eles provaram, até o fim, suas próprias histórias e mensagens. Acredito que essa autenticidade foi o que, no fim, tocou o coração de pessoas ao redor do mundo”, resume o artista sobre o sucesso do grupo. “Sinto um grande orgulho por ter a oportunidade de fazer parte dessa narrativa grandiosa como produtor. E essa experiência continua sendo, até hoje, um importante parâmetro na forma como eu enxergo e trabalho com a música.

Além da discografia de qualidade e das vitórias em premiações, a relação entre o grupo e sua base de fãs, conhecida como ARMY, é um dos pilares do sucesso. O nome do fandom, que significa exército, foi escolhido para representar aqueles que protegem os Escoteiros à Prova de Balas — tradução do acrônimo da expressão coreana Bangtan Sonyeondan, abreviação de BTS.

O resultado não poderia ser outro: o ARMY defende e apoia o grupo, mantendo-se ativo nas redes sociais e nas plataformas de streaming mesmo durante o hiato do BTS iniciado no final de 2022, que pausou quase uma década de lançamentos intensos e grandes conquistas devido a um destino irreversível para homens coreanos: o alistamento militar.

Na Coreia do Sul, o serviço militar é obrigatório para todos os homens entre 18 e 28 anos, com uma duração mínima de 18
meses que varia conforme a unidade escolhida. No caso do BTS, seis integrantes cumpriram o dever como soldados da ativa durante um ano e meio. A exceção foi Suga, que, devido a uma cirurgia no ombro, atuou como agente de serviço público por 21 meses. Os cantores vestiram as fardas camufladas entre 2022 e 2025. “Ser inserido em um mundo totalmente diferente foi difícil, mas aprendi muito sobre a vida e conheci muitas pessoas novas, o que foi um grande ponto positivo”, disse J-Hope.

Neste período, os artistas também aproveitaram para focar em suas carreiras solo. No entanto, mesmo nos meses distantes dos holofotes, o grupo manteve contato constante com o fandom por meio de conteúdos preparados antecipadamente, como o single Take Two, lançado em comemoração aos 10 anos do septeto em 2023 e que se tornou parte importante para que o vínculo entre membros e fãs não fosse quebrado.

A dedicação gerou impactos além da música, influenciando ainda mais a economia e a legislação da Coreia do Sul. O grupo foi responsável pelo surgimento da Lei BTS, uma emenda de 2020 que permitiu que artistas condecorados adiassem o alistamento militar até os 30 anos, como aconteceu com Jin após o septeto receber a Ordem do Mérito Cultural em 2018. Mais que isso, o grupo tornou-se uma voz política e social importante, fazendo discursos na Assembleia Geral das Nações Unidas, além de apresentações na sede da ONU. Eles ainda são embaixadores da UNICEF e promoveram a campanha Love Myself, com o objetivo de ajudar a acabar com a violência, a negligência e promover a autoestima.

Por fim, a reafirmação do sucesso veio em 20 de março de 2026, com o retorno oficial por meio do projeto ARIRANG. Inspirado em uma canção folclórica que é símbolo da resiliência coreana, o álbum marcou a reconexão do grupo com o mundo após a pausa militar de forma grandiosa: um concerto gratuito de celebração que reuniu 104 mil fãs em Seul e foi assistido por 13,1 milhões de pessoas na Netflix em pouco mais de um dia, provando que a lealdade dos fãs supera barreiras de tempo e idioma. Toda essa jornada confirma que a ascensão do grupo foi conquistada com muito Blood Sweat & Tears — sangue, suor e lágrimas, como diz o título de uma das faixas da formação —, permitindo que a dedicação do trabalho que produzem gerasse impactos excepcionais para a divulgação da cultura coreana ao redor do mundo e os transformasse em verdadeiros ícones globais. “Ainda somos muito bons amigos. Os fãs ainda nos amam. Se conseguirmos manter isso, talvez possamos estar dançando aos 60 anos”, chegou a dizer Suga.

Texto por: Daniela Bazi, Izabela Queiroz e Maria Eduarda Casado

Os integrantes do BTS se preparam para fazer shows no Brasil e dão aos fãs performances e músicas que mexem com as emoções - Foto: Getty Images
Os integrantes do BTS se preparam para fazer shows no Brasil e dão aos fãs performances e músicas que mexem com as emoções – Foto: Getty Images