Aos 36 anos, Kênia Bárbara, de Os Outros, celebra virada na carreira: “Não foi fácil, não foi rápido”
A atriz, que além da série também fez a novela Êta Mundo Melhor!, reflete sobre as dificuldades da profissão. "Precisei fazer outras coisas para conseguir realizar esse sonho. Me virei com dignidade", conta a mineira que já foi vendedora de loja e auxiliar de cozinha

Em cena desde a infância, Kênia Bárbara (36) vive hoje um dos melhores momentos da carreira. A atriz, que se despediu recentemente da personagem Haydée, da novela Êta Mundo Melhor!, da TV Globo, prepara-se para estrear a terceira temporada de Os Outros, série de sucesso do Globoplay. “Quando me dei conta de que atuar é uma profissão, entendi o meu propósito”, afirma, em entrevista exclusiva à CARAS. A menina, que cresceu em Juiz de Fora, interior de Minas Gerais, nunca imaginou que chegaria tão longe e muito menos que não só assistiria, como contribuiria com a nova forma de contar histórias. Por meio da personagem na trama das 6, inspirou mulheres a terem autoestima e lutarem pela independência, inclusive ela mesma. “Sou mais forte depois da Haydée”, avalia.

– Você disse que Êta Mundo Melhor! te transformou. Como?
– Por a Haydée ser uma mulher negra, sozinha e bem-sucedida no trabalho, que é algo extremamente importante para a gente: ter essa validação da nossa qualidade como profissionais, como mulheres inteligentes. Ela tinha uma coisa que a completava, mas o essencial também faltava, que era a família. E ser essa personagem obstinada a buscar a sua origem, a saber a verdade sobre a sua história. Essa autoestima dela, que não é uma autoestima que precisa ser falada: ela é o que é, e ponto. Ela não precisa provar nada para ninguém. Tudo isso mexeu muito comigo, porque ela era íntegra, uma mulher de honra, de bom caráter. A Haydée me inspirou a ser mais forte, a me defender, a não esperar pelo outro e a me amar.
– Era uma mulher à frente do tempo, que, independentemente de ter um parceiro, adotou uma criança e construiu uma família.
– Isso é tão contemporâneo, tão atual. Posso ser mãe independentemente de estar ou não numa relação. Não preciso de um(a) parceiro(a) para validar a minha maternidade. Isso é incrível, porque a gente mostra a nossa autonomia como mulher.

– Você pensa em ser mãe?
– Sim! Seja gerado ou adotado, tenho muita vontade. Não agora, mas também não quero demorar muito. Tenho que aproveitar esse bom momento na carreira, até para ter mais estabilidade quando for a hora de ter um bebê.
– Na novela, você teve sequências fortes enfrentando o racismo. Era uma história do final dos anos 1940, mas, infelizmente, algumas situações ainda são atuais…
– Acho que um dos papéis da nossa profissão é ser um agente social, colocar as pautas que são importantes e precisam ser ditas para que mudanças possam acontecer. A gente tem que aproveitar a visibilidade e o alcance de uma novela para transformar mesmo.

– Aos poucos, temos visto essas mudanças. A Nobreza do Amor, novela que substituiu a sua, tem uma realeza africana!
– Pois é! A gente não via isso há dez anos. Por exemplo, Amor Perfeito, que eu fiz, outra novela das 6, tinha 50% ou um pouco mais do elenco formado por atores pretos. E aí depois veio Garota do Momento, com uma atriz negra jovem protagonizando; depois a Jeniffer Nascimento em Êta Mundo Melhor! e agora A Nobreza do Amor, contando a história da nossa ancestralidade num viés de vitória, de potência, e não só no lugar da fragilidade, sofrimento e racismo. Isso é importante.
– Quando começou a atuar, isso era inimaginável?
– Era. A gente via poucas atrizes e atores pretos na TV. Eram personagens pequenos, estereotipados, submissos, que tinham uma única fala durante todo o trabalho. Que bom que estamos avançando.
– São mais de 25 anos de carreira. É uma vida, não é?
– É a minha vida. Quando me dei conta de que atuar é uma profissão, entendi o meu propósito, encontrei o meu caminho. As pessoas, às vezes, veem a gente já nesse lugar como se a caminhada tivesse sido fácil. Mas não foi fácil, não foi rápido. São anos de muita insistência, persistência, obstinação e muita fé na minha escolha.
– Até conquistar seu espaço, você fez várias coisas. Foi vendedora, auxiliar de cozinha e inclusive se formou em Psicologia.
– Eu precisava me bancar, precisei fazer outras coisas para conseguir realizar esse sonho. Me virei com dignidade. Eu sempre amei psicologia, era uma coisa que me chamava a atenção. E quando fui aprovada para Psicologia, foi uma realização também. Para mim é muito emocionante ter um diploma de psicóloga numa universidade federal. Eu não me vejo mais atendendo, só atendia pacientes na época do estágio. Mas pretendo fazer mestrado.

– Hoje, vive mais tranquila?
– Graças a Deus! Depois de tudo o que passei, chegar ao meu apartamento, ver o tamanho do lugar onde moro, as coisas que conquistei, o que pude adquirir com o meu trabalho é muito significativo. É se realizar mesmo. Ter sucesso naquilo que eu amo fazer. A profissão é um assunto extremamente importante para mim, ser bem-sucedida profissionalmente. Eu tenho um hiperfoco nisso.
– Você já se definiu uma vez como uma mulher que sonha. Ainda é assim?
– Vou ser para sempre! Não tem como abrir mão disso. É tão importante para a gente, principalmente mulheres negras, sonharmos alto, grande. Pretendo ser eternamente uma sonhadora.