Thiago Martins recorda relação com o pai: ‘Era o que ele podia me dar’
Em entrevista à Revista CARAS, Thiago Martins fala sobre a carreira na música, o filme Sexa e se declara como 'fruto de uma oportunidade'

Ator e cantor bem-sucedido, Thiago Martins (37) é a prova viva de que a arte muda vidas. Cria do Vidigal, encontrou ainda na infância, no projeto Nós do Morro, uma maneira de fugir da realidade na comunidade do Rio de Janeiro. E o que era apenas uma válvula de escape se transformou em ferramenta de mudança e em seu ofício. “Sou fruto de oportunidade e acho que consegui aproveitar as que a vida me deu“, avalia o artista, orgulhoso de tudo o que conquistou.
“Sempre fui um cara muito sonhador. Sonhar é gratuito, mas, por ser do Vidigal, para eu realizar as coisas, tinha que me esforçar três, quatro vezes mais. Mas nunca desisti dos meus objetivos, não corro de trabalho. Obviamente que Deus me deu talento, vocação, mas uma pitada de sorte é essencial na nossa carreira“, acredita.
E tudo isso ele tem de sobra. Desde novo imprimindo seu talento, Thiago acumula trabalhos na TV e no cinema. Com o passar dos anos, a carreira na música também ganhou força. Cheio de shows na agenda, ele acaba de lançar o volume 3 do projeto Quintal do TG – De Noronha a Vitória, e planeja, nos próximos meses, se dedicar apenas à música.
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“Sempre fui um cara que levantou a bandeira do artista, sempre defendi que você pode ser o que quiser, pode ser ator, professor, compositor, cantor. Eu aprendi isso no Nós do Morro. E, em 2013, entendi que a música poderia, sim, ser uma outra forma de sustento e uma outra profissão“, explica o cantor, que antes havia integrado os grupos Guerreiros de Jorge e Trio Ternura.
A música como uma saída
Pensando na instabilidade da jornada como ator, o carioca começou a se dedicar à carreira solo na música. “Nossa profissão é de eternos desempregados. A gente nunca sabe o dia de amanhã e eu precisava de outra alternativa. Hoje, a música me dá tudo que tenho, me dá liberdade financeira, artística. Hoje, para eu fazer uma novela ou um projeto mais longo, tenho que conseguir conciliar com a música, ela é minha prioridade.”
Para alegria da mãe, Maria Lúcia (63), que quer sempre vê-lo na TV, no ano passado, Thiago esteve na novela Vale Tudo. O que o fez aceitar o convite foi a trama de seu personagem, que, de alguma maneira, dialogava com sua história de vida. “Poder falar de mãe solo, pensão alimentícia, poder ajudar o espectador a procurar ajuda é muito importante. Se alguma novela tivesse mostrado isso na época da minha mãe, com certeza ela teria procurado ajuda“, acredita o artista, que foi criado pela mãe e pelo irmão, Carlos.
“Meu pai não foi presente na minha infância e adolescência. Ele faleceu em 2017, mas a gente acabou se entendendo e também entendi que aquilo era o que ele podia me dar. Então, está tudo bem. A terapia me ajudou nesse lugar“, explica. Apesar das dificuldades, o trio cresceu unido e Thiago se orgulha de não só ter aposentado a mãe, uma ex-empregada doméstica, como também de lhe dar uma vida confortável.
“Hoje posso fazer o que quero, sou dono da minha própria carreira. Minha família não passa mais necessidade graças à arte, graças à música, então meu maior orgulho é esse. Minha mãe ralou muito para criar a mim e meu irmão, nada mais justo do que hoje a gente poder proporcionar isso para quem suou e chorou tanto lá trás“, diz.
Presente no cinema, em dezembro o artista estreou o filme Sexa. Protagonizado e dirigido por Gloria Pires (62), o longa fala sobre etarismo e provocou reflexões nele. “Fiquei emocionado assistindo, vi muito a minha mãe ali“, conta. A pauta atual tem a atenção total de Thiago. “Acho burrice quem não quer aprender, quem não quer evoluir. Tento sempre me manter aprendendo sobre temas como machismo, racismo, etarismo, investimento… Sou um cara muito antenado, quero sempre aprender e evoluir“, conta.
Recuperado de uma histoplasmose pulmonar, infecção fúngica que atingiu seus pulmões e, como sintoma, afetou as articulações, Thiago também anda repensando a vida. Depois desse susto com a saúde, ele desacelerou. Os próximos meses serão voltados para a música e para a vida social, que acabou ficando de lado nos últimos dois anos.
“Entendi que minha saúde é em primeiro lugar. Mesmo a histoplasmose não tendo nada a ver com esforço físico ou falta de descanso, entendi que estava um pouco acelerado. Essa enfermidade veio para mostrar que esses dias livres são importantes, para treinar com calma, chegar em casa e almoçar com calma, curtir minha casa nova“, conta o carioca, que precisou até fazer fisioterapia.
Acostumado com os holofotes desde cedo, Thiago consegue ser popular, mesmo sendo discreto. “A minha vida não é interessante para eu ficar mostrando para os outros diariamente. Uso minhas redes sociais para falar sobre meu trabalho, mostrar coisas de que gosto, as viagens que faço. Mas acho que não tenho vocação para ser blogueiro ou influencer. Minha vida é muito tranquila. Tenho meus poucos e bons amigos, a maioria é do Vidigal, eu não sou muito de sair, de ir às festas. Prefiro reunir a galera lá em casa ou vou para a casa de alguém“, diz.
Sempre rodeado de pessoas no trabalho, ele gosta de aproveitar os momentos só. “Estou com 37 anos, não estou mais com 19. Não tenho mais aquele fôlego. Eu amo a minha paz. Aprendi a palavra solitude esses dias e estou amando isso“, conta ele.
Realizado com tudo o que construiu e animado para o que ainda pode conquistar, Thiago é um vitorioso: “Não posso reclamar. Tudo que venho recebendo de carinho, de respeito e admiração é fruto de um trabalho plantado no Nós do Morro. Acredito que venho colhendo frutos. Obviamente a gente vai plantando. Estou feliz com essa minha fase atual de vida pessoal, profissional, espiritual. Estou feliz assim, dentro da minha calmaria. Às vezes sou furacão, mas às vezes sou calmaria“.
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