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Andrea Bocelli: O homem por trás da voz e das emoções

Prestes a voltar ao Brasil, Andrea Bocelli revela intimidade do cotidiano e fala de amor e fé em entrevista à Revista CARAS

O tenor italiano Andrea Bocelli | Foto: Marinari Stefano, Lorenzo Montanelli e Luca Rossett
O tenor italiano Andrea Bocelli | Foto: Marinari Stefano, Lorenzo Montanelli e Luca Rossett

Há vozes que marcam uma época e há vozes que atravessam gerações. Andrea Bocelli (66) pertence ao segundo grupo. Com mais de 30 anos de carreira, o tenor italiano faz de sua arte um elo atemporal, capaz de unir culturas e corações.

A música boa não envelhece, ajuda a crescer, a ser uma pessoa melhor. Desde o início da minha carreira, procurei dar minha contribuição justamente para oferecer um sopro de ar novo em um gênero —o chamado clássico— que corria o risco de perder sua vocação popular. A ópera é uma forma de arte popular: trata das pulsões humanas e é capaz de despertar emoções primárias com tal intensidade que derruba qualquer barreira cultural e geracional“, fala ele, em contagem regressiva para novamente ecoar sua voz em solo verde e amarelo.

No Brasil, nunca me senti um estrangeiro“, diz o astro. Desta vez, ele trará três convidados especiais que se apresentarão no País pela primeira vez: a cantora Pia Toscano, o maestro Carlo Bernini e a violinista Rusanda Panfili. Em conversa exclusiva com a Revista CARAS Andrea revela, de forma íntima, o homem por trás do palco.


Em novembro, você volta ao Brasil. Tem a sensação de se sentir um pouco em casa?
Esta será minha sétima ou talvez oitava turnê no Brasil, e cada vez é uma verdadeira festa para mim, porque significa reencontrar amigos e me sentir em casa, em família.

O Brasil tem forte presença da cultura italiana. Perceber afinidades entre os países?
Tenho certeza de que os italianos deixaram uma marca profunda nessa terra. Itália e Brasil compartilham uma alma vibrante: a mesma paixão pela vida, o mesmo calor na forma de acolher, e também a mesma musicalidade que corre tanto nas canções quanto nos gestos do dia a dia. São terras que amam a beleza, que entrelaçam tradição e criatividade, e que sabem transformar a convivência em arte. Dois mundos distantes apenas no mapa, mas próximos em espírito e humanidade.

No ano passado, você celebrou 30 anos de carreira. Olhando para trás, o que mudou no Bocelli do passado para o de hoje?
Tudo está em constante evolução na vida e a passagem dos anos trouxe consigo mudanças boas e outras nem tanto. Na juventude, eu era um pouco arrogante e impulsivo, defeitos que aprendi a controlar ao longo do tempo, cultivando diariamente a gratidão —a Deus e ao próximo. Limitando a resposta ao meu instrumento musical, posso dizer que o tipo de vibrato ‘fechado’ da minha juventude vocal, às vezes, parece difícil de reproduzir hoje com a mesma qualidade. Por outro lado, do ponto de vista técnico, na maturidade alcancei uma facilidade nas notas agudas que nunca imaginei alcançar. Quanto ao entusiasmo, ao desejo de cortejar a beleza por meio da arte e à urgência de comunicar emoções positivas, essas são as mesmas motivações de trinta anos atrás.

Após tantos anos de carreira, ainda sente aquele frio na barriga?
Acontece em todo concerto… Aliás, quanto mais os anos passam, maiores são as expectativas do público e maior é o senso de responsabilidade para dar o meu melhor e estar à altura. Preciso lidar com minha natureza ansiosa e, claro, com o ‘frio na barriga’. Mas, geralmente, graças ao calor com que eu sou recebido pelo público, consigo rapidamente transformar a tensão de uma emoção negativa, que consome energia, para um estímulo, uma carga benéfica, uma adrenalina que traz quase um estado de felicidade. É uma alquimia estranha, cujo mérito atribuo em grande parte ao carinho daqueles que vão aos meus concertos e têm a bondade de apreciar meu trabalho. Isso me devolve uma energia enorme e ajuda a manter com eles um relacionamento não apenas virtual, mas direto. E a melhor maneira de agradecer lhes é justamente esta: fazendo isso pessoalmente, por meio das apresentações ao vivo.

Sua música alcança públicos de diferentes gerações e dialoga com outros gêneros. Como você consegue tornar a música clássica acessível e próxima de todos?
Existem peças clássicas tão belas que se tornam populares, e músicas chamadas pop tão belas que se tornam clássicas. Eu prefiro distinguir, mais do que entre gêneros, simplesmente entre música boa e música ruim. E é fácil reconhecê-las, pois a boa música não envelhece, ajuda a crescer, a se tornar uma pessoa melhor.

Houve algum momento em que pensou em parar ou até se aposentar?
Um período bastante difícil e doloroso foi no início dos anos 2000, quando eu me separei da mãe de Matteo e Amos e, de repente, não podia mais estar com meus filhos tanto quanto gostaria. Foi uma situação de muito sofrimento, por causa da qual eu quase perdi o entusiasmo pela minha profissão.

E olhando para o futuro, você acredita que chegará o momento de desacelerar?
Meu tempo ainda é, atualmente, um ‘tempo de fazer’. As estações da vida trazem vantagens e limitações que devemos saber compreender e respeitar. Enquanto Deus me der energia suficiente, sinto que tenho a responsabilidade de usá-la da melhor forma. Mas penso com serenidade na possibilidade de acordar um dia e não encontrar mais a qualidade vocal que eu tentei construir e manter. Quando isso acontecer, será o momento de sair de cena. Depois disso, tudo está nas mãos de Deus, e o que posso fazer, diariamente, é levantar os olhos ao Céu e agradecer. Pedir ajuda, orar e sussurrar: ‘Seja feita a tua vontade’.

Sua esposa, Veronica, tem papel fundamental em sua vida. Como é a relação de vocês?
Ela é minha companheira, melhor amiga e cúmplice, é mãe da Virginia e foi quem criou meus dois filhos mais velhos. É minha principal colaboradora, o pilar da família. Foi desde o início um encontro de almas. Vivemos juntos há mais de 23 anos, 24 horas por dia. Quando duas pessoas, depois de tanto tempo, querem estar juntas em todos os aspectos, significa que uma alma completa a outra.

Seu filho Matteo já seguiu o caminho da música. A Virginia também quer ser artista?
Ela começou o ensino médio há poucas semanas. Assim como meus outros filhos, cresceu ‘a pão e música’. É afinada, sabe o que significa cantar para dezenas de milhares de pessoas, assim como ao vivo na TV. É responsável e tem talento para a música. Isso fica evidente nos progressos que ela faz, inclusive no estudo do piano. Ela ainda se mostrou brilhante na atuação e na ginástica rítmica, tem muitas paixões e vários caminhos abertos, mas o mais importante é que terá todo tempo para encontrar seu próprio caminho e realizar sonhos.

Longe dos holofotes e dos palcos, como se definiria?
Eu sou uma pessoa absolutamente normal, nos hábitos e nos relacionamentos. Por natureza, diria que sou, não exatamente preguiçoso, mas um pouco caseiro. E os meus melhores momentos são aqueles em família, com os meus filhos. Quanto ao tempo livre, gosto de cavalgar, sou apaixonado pelo mar, sou torcedor de futebol, fã de boxe e sou um leitor ávido.

Além do talento para o canto, tem algum dom ou habilidade que talvez seus fãs não conheçam?
Sou um jogador razoável de xadrez. Além disso, gosto de poesia e, há muitos anos, escrevo versos, que poderia definir como ‘à moda antiga’, no sentido de que gosto de escrever respeitando as regras —que ainda considero válidas e úteis— da rima e da métrica.

Se encontrasse o Bocelli de 40 anos atrás, o que diria a ele?
Diria para encarar a vida pelo que ela oferece, sem fazer muitas perguntas. Nada acontece por acaso e devemos confiar com fé na direção divina, que conduz a vida de cada um de nós.

Além da música, você mantém um trabalho importante por meio de sua Fundação Andrea Bocelli. Acredita que essa seja sua verdadeira missão: usar a voz não só para emocionar, mas também para ajudar as pessoas?
Acredito que é um desejo natural colocar o próprio talento a serviço dos outros. Isso vale para todos e, especialmente, para os artistas, que devem sentir a responsabilidade de suas ações e do papel que eles exercem na sociedade. Justamente por terem o privilégio de representar um exemplo aos olhos do mundo. Ser filantropo, cuidar das pessoas —e tentar assim fazer a diferença na história delas— não significa apenas ser generoso e não é apenas um dever moral: é um ato de inteligência, um caminho que todos deveríamos enxergar como sem alternativa. Afinal, vivemos a vida como em um grande banquete e, num banquete, como na vida, só se está bem se houver o mínimo necessário para todos. Todos podemos fazer algo, cada um segundo suas possibilidades.

 

Tamara Gaspar é subeditora da revista CARAS e CONTIGO! Novelas. Formada em Jornalismo e Letras, possui extensão em Teoria da Comunicação e é especialista em monarquia. Escreve sobre celebridades, realeza, TV e novelas.