Velson D’Souza mergulha nas contradições humanas em nova peça e vive nova fase na carreira
Depois de uma longa temporada vivendo e trabalhando fora do Brasil, Velson D'Souza, voltou com um olhar mais amplo sobre o próprio ofício e sobre as histórias que deseja contar

Em um momento de virada na trajetória, Velson D’Souza (39) se afasta de figuras já reconhecíveis pelo grande público para se lançar em um território mais instável e, por isso mesmo, mais desafiador. Em entrevista exclusiva à CARAS Brasil, o ator, em cartaz com Oleanna, no Teatro Vivo, em São Paulo, encara um personagem que se constrói justamente a partir de ambiguidades, sem oferecer respostas fáceis ao espectador.
Conhecido por trabalhos na televisão, além de ter dado vida a figuras populares como Silvio Santos (1930-2024) e Tommy DeVito (1928-2020) em versões musicais nos palcos, Velson agora se debruça sobre um tipo de construção que exige outra natureza de entrega. “Quando você interpreta alguém muito conhecido, existe um imaginário muito forte. O desafio é trazer verdade sem cair na caricatura. Em ‘Oleanna’, é o oposto. O personagem escapa o tempo todo de uma definição simples, e o trabalho passa por sustentar essas contradições sem tentar explicar tudo”, afirma.
A mudança de eixo não acontece por acaso. Depois de uma longa temporada vivendo e trabalhando fora do Brasil, o ator voltou com um olhar mais amplo sobre o próprio ofício e sobre as histórias que deseja contar. “Estar fora me trouxe método e técnica, mas, principalmente, amadurecimento. Isso impacta diretamente nas minhas escolhas hoje. Tenho buscado projetos que me desafiem de verdade e onde eu possa participar mais da construção como um todo”, explica.
Proximidade radical com o público
Em Oleanna, esse desejo se materializa em um processo que exige equilíbrio constante. Velson reconhece pontos de identificação com o personagem, especialmente na dedicação ao que acredita, mas destaca as diferenças como motor da criação. “O mais desafiador é não julgar. É sustentar as camadas sem escolher um lado. Eu tento não misturar vida pessoal e trabalho, e o personagem claramente não consegue fazer isso. Então o exercício é justamente não resolver essas tensões.”
A encenação também contribui para intensificar essa experiência. Diferente da adaptação cinematográfica protagonizada por William H. Macy (76), a versão teatral aposta na proximidade radical com o público. Com a plateia posicionada frente a frente e a ação acontecendo entre os espectadores, o espetáculo transforma quem assiste em uma espécie de testemunha direta ou até um júri silencioso. “No teatro, não existe corte nem edição. É tudo contínuo. O silêncio ganha outro peso, a reação é imediata. O público não está só observando, ele está dentro da situação”, pontua.

Essa transição entre linguagens, da televisão ao teatro, também marca a versatilidade do ator. Ao longo da carreira, Velson precisou se adaptar a diferentes registros, da comédia em novelas jovens, como A Infância de Romeu e Julieta, do SBT, ao tom mais solene das produções bíblicas, como a série Paulo, o Apóstolo, da Record. “Cada projeto tem um código próprio. O trabalho é entender esse código sem perder a verdade. No fim, é sempre sobre construir uma relação viva com o que está sendo feito.”
Fora dos palcos e das câmeras, o ator busca equilíbrio em uma rotina que combina disciplina e simplicidade. À frente do Espaço Colab, onde dá aulas, ele encontra um espaço de troca que o reconecta com o processo criativo. “Dar aula me tira um pouco da pressão do resultado. E, no dia a dia, coisas simples fazem diferença — academia, leitura, estar perto de quem é importante. Até caminhar pela Paulista aos domingos vira um respiro.”
Vem aí!
O momento atual também aponta para novos caminhos. Velson já prepara sua próxima empreitada: a montagem de True West, de Sam Shepard (1943-2017), que ele irá produzir e protagonizar ao lado de Fernando Belo (42), com estreia prevista para novembro, no Teatro do Núcleo Experimental. A escolha reforça o interesse por textos mais diretos, centrados em relações humanas complexas e instáveis.
Entre a exposição de Oleanna e os planos futuros, o ator parece cada vez mais interessado em um território onde o desconforto não é evitado, mas buscado como parte essencial do processo. “Quero continuar nesse lugar de construção, escolhendo projetos que realmente me desafiem e que façam sentido para o momento que estou vivendo”, conclui.