Gil Coelho celebra retorno ao teatro e fala sobre paternidade: ‘É um momento de muita presença e transformação’
De volta aos palcos com Matilde, Gil Coelho fala sobre amadurecimento, novos significados de reconhecimento e a emoção de viver a paternidade pela primeira vez

De volta aos palcos após quase uma década, Gil Coelho (39) vive um momento de reencontro: com o teatro, com o ofício e com a própria vida. Em cartaz no Teatro FAAP, até este domingo, 17, em São Paulo, com a comédia romântica Matilde, o ator assume o papel de Jonas, um artista em busca de reconhecimento que tem sua trajetória atravessada pelo encontro com uma mulher mais experiente, vivida por Malu Valle (68)
Com texto de Julia Spadaccini (48) e direção de Gilberto Gawronski (64), o espetáculo é dedicado a Paulo Gustavo (1978-2021) e aborda temas como solidão, etarismo e relações intergeracionais com delicadeza e humor. Fora de cena, Gil também vive uma fase especial: a espera pelo primeiro filho. Em conversa com a CARAS Brasil, ele fala sobre o retorno aos palcos, amadurecimento e novos significados de reconhecimento.
Confira a entrevista:
CARAS Brasil: Você entra na peça assumindo um personagem já vivido anteriormente. Como foi construir o seu Jonas sem perder a essência da obra?
Gil Coelho: Foi uma experiência muito especial e desafiadora. Eu já conhecia a peça, então entrei com muito respeito pela história que já existia. Tive encontros importantes com a Malu, que foi extremamente generosa ao compartilhar as camadas do trabalho. A partir disso, fui construindo o meu Jonas com a minha escuta, minha vivência, mas sempre preservando a essência sensível da dramaturgia da Julia Spadaccini.
CARAS Brasil: Jonas é um ator em busca de reconhecimento. Em que pontos você se identifica com essa trajetória?
Gil Coelho: Acho que todo ator já passou por isso. Existe um desejo muito humano de ser visto. Me identifico com a persistência, com essa vontade de seguir mesmo sem garantias. Mas, com o tempo, fui ressignificando o reconhecimento e hoje ele está muito mais ligado ao processo e às escolhas que me fazem sentido.
CARAS Brasil: A história fala sobre o encontro de duas solidões. O que mais te tocou nesse relacionamento entre Jonas e Matilde?
Gil Coelho: Me toca muito a delicadeza desse encontro. São duas pessoas com histórias diferentes, mas que se reconhecem. O Jonas chega com uma leveza, com uma urgência de viver o presente, enquanto a Matilde traz um olhar mais atravessado pela vida. E acho bonito como isso não hierarquiza pois eles se transformam mutuamente. É uma relação muito humana, sem idealização, mas cheia de verdade.

CARAS Brasil: Como foi o processo de preparação para viver um personagem tão emocionalmente exposto?
Gil Coelho: Foi um processo de muita escuta. E tinha um desafio novo: foi minha primeira substituição. Você entra num espetáculo que já tem um desenho, então precisa trazer sua verdade respeitando essa estrutura. Comecei mergulhando no texto e depois fui construindo isso com a direção do Gilberto Gawronski, que foi fundamental. É um trabalho que exige presença real.
CARAS Brasil: O que essa peça te ensinou sobre o “tempo”, tanto na vida quanto na carreira?
Gil Coelho: Me fez refletir muito sobre os ciclos. Comecei muito jovem, fui construindo minha carreira com o tempo, e hoje, perto dos 40, vivendo também a experiência de ser pai, entendo que tudo tem o seu momento. Nem tudo acontece quando a gente quer e tudo bem. Existe um amadurecimento que só o tempo traz.
CARAS Brasil: Como você descreveria sua troca em cena com Malu Valle?
Gil Coelho: É uma troca que está sendo construída. Existe uma sintonia que vem surgindo nos ensaios, muito pautada na presença e na disponibilidade de ambos. Acho que a gente chega com experiências diferentes, e isso cria um encontro interessante em cena. Agora é deixar isso ganhar corpo com o público, que é onde tudo realmente acontece.
CARAS Brasil: Existe algum momento do espetáculo que sempre te impacta?
Gil Coelho: Não é uma cena específica, é um estado. Existem momentos de silêncio e de troca que sempre me atravessam e nunca são iguais. Às vezes é um olhar, uma pausa… coisas muito sutis, mas muito fortes. Isso me lembra o porquê de fazer teatro: esse encontro vivo que se transforma a cada noite.
CARAS Brasil: A peça aborda coragem, especialmente a coragem de viver o agora. Em que momentos da sua vida você precisou dessa coragem?
Gil Coelho: Acho que escolher a carreira artística já é, por si só, um ato de coragem. É um caminho cheio de incertezas, então você aprende a seguir mesmo sem ter todas as respostas. Hoje, essa coragem está mais ligada às escolhas que eu faço, a confiar no meu processo. É uma coragem mais silenciosa, mas muito mais consciente.
CARAS Brasil: Como você enxerga o lugar do teatro hoje?
Gil Coelho: O teatro é um espaço essencial de encontro. Num mundo tão digital, ele oferece algo vivo, sensível, quase artesanal e isso é muito necessário. Pra mim, esse retorno tem um peso ainda maior. Eu estava há nove anos longe dos palcos. Voltar agora é um reencontro muito profundo com a minha origem.
CARAS Brasil: O que mais te satisfaz — ou te inquieta — hoje como ator?
Gil Coelho: Me satisfaz estar em projetos que realmente me atravessam, que me provocam. E o que me inquieta é essa vontade de seguir evoluindo, de não me acomodar. É uma inquietação saudável, que me mantém em movimento.
CARAS Brasil: O reconhecimento ainda é uma busca?
Gil Coelho: Hoje ele tem outro significado. Claro que o reconhecimento externo é importante, mas não é mais o centro. O que mais pesa pra mim é o reconhecimento interno — saber que estou fazendo escolhas coerentes com quem eu sou.
CARAS Brasil: E na vida pessoal? Vem um baby por aí?
Gil Coelho: Sim, estou vivendo um momento muito especial. A chegada de um filho muda tudo — prioridades, tempo, olhar sobre a vida. E tem a Larissa Gloor (30), que é um presente na minha vida. Ela me faz amadurecer todos os dias, amplia meu olhar. Viver essa fase ao lado dela, construir uma família, me preparar pra essa nova chegada… tem sido um processo muito bonito, cheio de emoção e aprendizado. Estou vivendo tudo isso com muita presença, amor e gratidão.
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