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Carolina Manica reflete a beleza e o desconforto da imagem em Na Sala dos Espelhos: ‘Corda bamba’

Em entrevista à CARAS Brasil, a atriz Carolina Manica conta detalhes do monólogo Na Sala dos Espelhos e reflete sobre beleza e o desconforto da imagem

Carolina Manica
Carolina Manica estrela monólogo Na Sala dos Espelhos (Foto: Paulo Vainer)

No palco do Sesc Ipiranga, a atriz Carolina Manica (44) transforma o mito da madrasta da Branca de Neve em um espelho que reflete as inquietações contemporâneas sobre beleza, vaidade e identidade. No monólogo Na Sala dos Espelhos, inspirado no quadrinho homônimo da sueca Liv Strömquist (47), a artista propõe um mergulho poético e provocador sobre a forma como nos enxergamos, e sobre o quanto essa imagem é moldada por filtros, likes e expectativas.

A peça, dirigida e adaptada por Michelle Ferreira e Maíra de Grandi, estreou nesta quinta-feira, 7, dentro da programação do Teatro Mínimo, e fica em cartaz até o fim de novembro. Com trilha original de Ava Rocha e Grisa, cenário e figurino de Fábio Namatame e luz de Caetano Vilela, o espetáculo questiona a tirania da aparência em uma sociedade cada vez mais refém das telas.

Em entrevista à CARAS Brasil, Carolina fala sobre os desafios de habitar esse “espelho vivo” em cena, a relação entre imagem e maternidade e o que aprendeu ao dar corpo à personagem que conduz o espetáculo.

“A madrasta da Branca de Neve sempre me intrigou porque ela concentra tudo o que a sociedade não aceita na figura de uma mãe: vaidosa, contraditória, humana. No fundo, ela carrega as verdades que toda mulher tem, mas que foi empurrado pra debaixo do tapete pra sustentar a imagem da mãe perfeita. Quando li o quadrinho da Liv Strömquist, percebi como esse mito ainda está vivo nas redes sociais, que é essa busca desesperada pelo reflexo ideal, pelo espelho que nunca devolve a verdade. Por isso a peça reflete que a madrasta virou o espelho do nosso tempo”, diz.

O espetáculo parte justamente desse paradoxo: o desejo de se ver e a dor de não se reconhecer. Carolina encara o palco como um espaço de exposição, mas também de libertação, onde a imagem deixa de ser controle e passa a ser encontro.

“Hoje vejo uma mulher que aprendeu a se olhar com menos culpa, mas também com mais lucidez. Já me vi por muito tempo através do olhar dos outros, do público, da crítica, das redes, da família. A maternidade e o teatro me ensinaram a olhar para o que é real, mesmo quando é imperfeito. Acho que o maior desafio é se permitir enxergar as próprias rachaduras (deste espelho) e ainda assim se reconhecer nelas”, comenta.

Em Na Sala dos Espelhos, o reflexo não é metáfora distante — é matéria viva. A atriz aparece diante do público sem moldura, sem personagem fixa, revelando-se através de uma linguagem que mistura corpo, som e imagem.

“É uma corda bamba. A arte me ensinou a amar a imagem e, ao mesmo tempo, a desconfiar dela. Eu gosto do belo, do estético, mas entendi que o belo não precisa ser polido. Às vezes, a verdade é o que há de mais belo e o que há de mais desconfortável. No palco, tento colocar o corpo em cena sem filtro, sem moldura, como uma forma de libertar essa imagem que a gente aprendeu a fabricar”, afirma.

Entre espelhos e expectativas, a peça também fala sobre herança e afeto — especialmente quando o olhar volta-se para a maternidade. “Totalmente. Tenho uma filha que está começando a descobrir o próprio reflexo, e é impossível não se preocupar com o peso do olhar do mundo sobre ela. Quando ela se olha no espelho, o que vê? É um espelho inocente ou já trincado pelas expectativas? No palco, eu falo como atriz, mas também como mãe, tentando abrir espaço pra um reflexo novo, mais livre, mais real”, explica.

Autoimagem em Na Sala dos Espelhos

Embora a peça atravesse temas ligados à maternidade, Carolina reforça que a história vai além: é uma investigação sobre a condição feminina e os reflexos que o patriarcado construiu ao longo dos séculos.

“Acho que o espelho da perfeição. Esse reflexo que cobra que a mulher seja tudo ao mesmo tempo: linda, forte, equilibrada, produtiva, magra, inspiradora. É uma cobrança sem fim. A peça fala disso: da mulher que tenta se libertar da própria performance, que tenta existir além do que é mostrado. Talvez quebrar o espelho signifique justamente parar de se ver como imagem e começar a se ver como presença”, reflete.

A atriz observa que, na era das redes, o espelho não é mais apenas individual, mas coletivo. As curtidas e visualizações se tornaram o novo reflexo. “Sem dúvida. As redes viraram um espelho coletivo, um lugar onde a gente vive buscando validação. É curioso porque eu mesma já caí nessa armadilha. Você posta uma foto, recebe um elogio e sente um prazer imediato, uma dopamina que dura segundos. Mas depois vem o vazio. É sobre isso que a peça fala também: sobre esse ciclo viciante de se olhar e não se ver de verdade”, pontua.

Para dar corpo a esse universo simbólico, o time criativo apostou em uma estética potente e sensorial. “Foi um processo muito bonito. Buscamos esse olhar de que o palco seria um ‘frame’, como se o público estivesse dentro de um quadrinho vivo. O corpo é o traço, o movimento é a palavra. A Michelle e a Maíra fizeram adaptação do texto também e criaram essa personagem que conduz a história, o que não tem no livro. A trilha da Ava e da Grisa cria essa atmosfera sensorial, quase ritualística, e o cenário do Fábio é um espelho que reflete o excesso e desconforto. É uma criação coletiva pra fazer o espectador se sentir dentro da imagem e também questioná-la”, completa.

Ao celebrar duas décadas em São Paulo, Carolina enxerga no espetáculo uma espécie de balanço pessoal. Entre a jovem que chegou à cidade com uma mala e o presente de artista consolidada, há uma linha contínua de reinvenção. “Vejo uma mulher que ainda acredita na arte como espaço de liberdade. Vim pra São Paulo há 20 anos com uma mala e um sonho, largando tudo o que eu era no Sul. Aqui vivi muita coisa, errei, acertei, me reinventei. Hoje, entendo que cada escolha foi um espelho que precisei atravessar. E é bonito ver que ainda tenho vontade de me surpreender com o reflexo do que posso ser”, diz.

Essa busca pelo novo é o motor da atriz, que encontra no palco um lugar de vulnerabilidade e descoberta. “No palco eu descubro uma Carolina mais vulnerável, menos preocupada em agradar. Uma mulher que entende que o erro pode ser poético, que a dúvida pode ser bonita. Cada espetáculo é um espelho novo, e cada público reflete algo diferente em mim. É um diálogo vivo, em movimento”, comenta.

A atriz imagina o que diria à madrasta da Branca de Neve, símbolo máximo da vaidade e da solidão diante do espelho. “Eu diria: ‘Desliga o espelho mágico por um instante. Sai da tela, respira, olha o mundo de verdade.’ Diria que ela só precisa ser inteira. Talvez o que mais nos falte hoje não seja beleza, seja presença”, conclui.

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Paulo Henrique Lima é repórter de pautas especiais do Grupo Perfil. Tem passagens por diversos veículos de comunicação na web. É apaixonado por entretenimento e realities.