Aos 14 anos, enquanto muitos adolescentes ainda descobriam o que queriam fazer da vida, Laíze Câmara (35) dava aulas de Matemática e Física para pagar o curso de teatro. Naquela época, seu coração já batia mais forte pela atuação. Ela cresceu, formou-se em Engenharia Civil, mas a paixão falou mais alto! “Eu tinha medo de muitas coisas, mas nunca tive medo do desconhecido”, avalia ela, que não pensou duas vezes e abraçou a área artística com todas as suas forças. Tanta força, aliás, que hoje ela passeia pela atuação, direção, roteiro, edição e, mais recentemente, assumiu a missão de apresentadora do Vitrine, da TV Cultura, clássico que marcou gerações entre os anos 1990 e 2000 e que retorna à programação do canal após 15 anos. “Eu sempre tive vontade de descobrir e sempre intuí que a vida pode ser mais. E até hoje eu tenho esse sentimento de que as janelas são muitas, mas eu não sou uma pessoa que me organizo e fico prevendo o que vai acontecer”, diz ela, durante bate-papo exclusivo com CARAS.
– Como foi receber o convite para comandar o Vitrine?
– Uma mistura de euforia e uma sensação de alívio. Eu já vinha construindo minha trajetória dentro da TV Cultura, alguns anos em outras áreas, e enxerguei naquele convite a oportunidade de seguir por um novo caminho dentro da emissora, agora unindo toda a experiência à comunicação diante das câmeras. Foi uma sensação de que as peças finalmente estavam se encaixando. E depois vieram as sensações de alegria, gratidão e responsabilidade. O Vitrine faz parte da história da televisão brasileira e sempre foi um programa que acompanhou as transformações da comunicação.
– Você transita entre diferentes frentes. Qual delas revela mais da Laíze como pessoa?
– Acho difícil separar essas funções, porque elas se complementam. Mas a direção, talvez, seja o lugar onde consigo reunir tudo o que aprendi ao longo da minha trajetória. Enquanto estou atuando, não me ‘revelo’ justamente porque estou dando vida a outra pessoa. Minha identidade de fazer muitas coisas, pensar em soluções, conectar ideias, liderar equipes e criar narrativas é a diretora que reúne. É dirigindo que essas habilidades se encontram e me sinto mais eu, na esfera do ego e identidade.

– Você deixou a Engenharia para seguir nas artes. Em algum momento teve medo?
– Em todo momento, principalmente enquanto ainda cursava a faculdade. Diminuí essa sensação quando fui contratada pela primeira vez no audiovisual, quando a arte ocupou um espaço maior. Eu só ‘soltei a mão do medo’ quando me conheci melhor, me conheci a fundo, com distanciamento suficiente para enxergar que esse medo não fazia o menor sentido, já que eu me dedicava e fazia o outro lado, o das artes, bem.
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– O Vitrine propõe reflexões sobre comunicação, IA e consumo de conteúdo. Qual o desafio de se comunicar nos dias de hoje?
– É preservar a profundidade em um ambiente que valoriza cada vez mais a rapidez. Somos atravessados por uma quantidade enorme de informações e estímulos. A comunicação precisa acompanhar as transformações, mas sem abrir mão da reflexão, da responsabilidade e do pensamento crítico.
– E como é se desafiar diante das câmeras, como apresentadora?
– Muda até a quantidade de vezes que preciso ir ao salão ou fazer as unhas (risos). Brincadeiras à parte, o que realmente muda é a responsabilidade. Quando estou apresentando, passo a ser a ponte entre o conteúdo e o público.
– Diante de tanta versatilidade, qual o fio condutor de sua jornada?
– A curiosidade. Sempre me interessaram histórias que me façam investigar, pesquisar e compreender melhor as pessoas e o mundo. Independentemente do formato, o que me move é contar histórias que provoquem alguma reflexão.

– Ao olhar para a menina de 14 anos que entrou em um curso de teatro, o que ela sentiria ao ver tudo o que conquistou hoje?
– Ela ficaria surpresa. Nunca imaginei que aquele curso fosse abrir tantas janelas e me levar por caminhos tão diferentes. A vida foi acontecendo, atropelando alguns planos e abrindo outros completamente inesperados. Aquela menina ficaria assustada, no melhor sentido, com as possibilidades que a vida poderia oferecer. Naquela época, meu universo ainda era muito pequeno. Mas uma coisa nunca me faltou: coragem.
– Como faz para preservar a saúde mental e ter equilíbrio entre tantos projetos diferentes?
– Eu ainda estou aprendendo. Meu desafio é entender que nem sempre vou dar conta de tudo. Tenho dificuldade em dizer ‘não’ e hoje já percebo que a minha saúde mental passa justamente por aprender a estabelecer limites. Também procuro reservar espaço para coisas que me dão prazer, como cantar. Embora faça parte da minha profissão, é algo que me reconecta comigo mesma.
– Existe algum sonho artístico que ainda não realizou?
– Tenho vontade de desbravar o cinema de ficção com um longa-metragem autoral. É um formato que me instiga muito e que gostaria de explorar no momento certo. Como atriz, também tenho vontade de fazer um monólogo. E existe ainda um desejo antigo de construir um espetáculo musical.

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