No ano em que celebra seis décadas de jornada artística e entra na contagem regressiva para completar 80 anos de vida, Regina Duarte brinda a ocasião com um encontro à altura de sua história: a veterana volta aos palcos ao lado da herdeira, Gabriela Duarte (52), com a peça A Filha da…, na qual levam seus papéis da vida real para a ficção, ao viverem mãe e filha em cena. “Continuo tendo sede de tablado”, diz Regina. “Nunca deixei de sentir saudade de contracenar com ela. Sempre foi muito prazeroso e confortável estar ao lado dela em qualquer trabalho, tanto no palco quanto na TV. A gente tem uma coisa no olhar, sabe o que a outra está pensando”, fala Gabriela.

Coube ao diretor Darson Ribeiro afinar ainda mais a sintonia da dupla. “O modus operandi de trabalho é meio parecido, uma divide muito com a outra. As diferenças são poucas para mim, principalmente na feitura das coisas, a não ser na idade, cuja experiência da vida e do mundo ainda ‘baterá’ na porta da Gabi, e talvez a deixe mais semelhante ainda, ou não… e é bonito de ver o tempo da Regina… o entendimento da vida pelos olhos dela”, analisa ele.

Em seu refúgio paulistano, onde troca o palco pelos pincéis e preenche as paredes com suas telas, Regina conversou com CARAS sobre sua trajetória de vida e arte, refletiu sobre o tempo e se mostrou imune às polêmicas. “Não me arrependo de nada. Não passo vontade, como diz uma amiga. Até as expressões sobre a política que angariaram antipatias eu dou validade. Seria insuportável ser uma ‘namoradinha’ com unanimidade”, dispara a eterna Namoradinha do Brasil, em bate-papo leve e descontraído ao lado da filha, Gabi.

– Após quase 30 anos, vocês voltam como mãe e filha na ficção! O que motivou o retorno?
Gabriela – A gente trabalhou muito juntas no início da minha carreira. Pausamos para eu explorar outras possibilidades de personagens que não fossem ligadas a ela, acho que isso faz parte da busca pela identidade de uma pessoa. A saudade disso foi um grande motivador, mas também achava que ela tinha que estar no palco ao completa 60 anos de carreira.

– E a troca em cena? Pessoal e profissional se misturam?
Regina – Sim! Nos observamos para além da troca profissional, sempre confiantes de que as observações buscam o melhor para o geral do espetáculo.

Gabriela – Não dá para dizer que pessoal e profissional não se misturam! É uma convivência muito acirrada e isso, claro, tem dois lados, em qualquer relação! E eu fico com as coisas boas dessa mistura, que é poder olhar para ela e falar: ‘Que privilégio a gente estar vivendo isso’. Porque a vida, às vezes, separa a gente. Vou vivendo minhas coisas, meus compromissos, minha vida e, muitas vezes, não contemplamos tanto essa convivência com nossos pais. A vida está dando esse privilégio de estarmos juntas nesse momento.

– A primeira vez que contracenaram foi em 1997, em Por Amor. O que mudou de lá pra cá?
Gabriela – Amadurecimento, em todos os sentidos. Nesse tempo que não trabalhamos juntas, busquei fazer coisas profissionais que me colocaram em outro lugar da carreira e o que mais mudou foi a maturidade mesmo. Virei mãe, isso vira a mulher do avesso e acho que essa é a grande escola da vida, você amadurecer como mulher, como mãe… isso traz junto o amadurecimento profissional.

– Você disse que recentemente descobriu o termo nepobaby…
Gabriela – Acho que isso veio na esteira das redes sociais, da internet, porque na minha época era todo mundo do mesmo balaio. Eram simplesmente filhos de atores que precisavam ralar muito para chegar a algum lugar. Tinha que estudar, não tinha outro jeito. Nunca quis esse rótulo de filha, claro que tenho orgulho, ela é minha mãe, mas sempre quis me apropriar do meu caminho.

– A peça é uma comédia nonsense! Em meio à sociedade tão acelerada em que vivemos, falar de humor traz alívio às pessoas?
Regina – Acho que sim, certas verdades, a meu ver, são aceitas melhor se embaladas no canal do absurdo. O riso alivia as tensões.

Gabriela – Nunca tinha feito comédia nonsense. É mais do que uma comédia tradicional… tem um sentido libertador, porque ela não tem compromisso com a realidade. Estamos vivendo um momento nonsense, cada um acredita numa coisa, tudo é permitido, nada é permitido, tudo é complicado! Acima de tudo, é o que gera nas pessoas: o riso, o humor.

– Regina, que balanço faz de seus 60 anos de carreira?
Regina – Continuo tendo sede de tablado. O palco, com a plateia presente, é, a meu ver, a mais rica experiência de trocas entre o artista e o público. O palco é uma proposta de encontro abençoada.

– Tem saudade das novelas?
Regina – Não. Hoje em dia, eu não troco o palco por nada. Nem pelo cinema, que um dia já foi meu sonho dourado.

– Ano que vem você faz 80, mas tem a vitalidade de menina! De onde vem sua jovialidade?
Regina – Faz parte de um desejo de presença na vida. Ouço música clássica todas as noites, acredito em um ser supremo e rezo para ele antes de dormir, respeito todo mundo regido pelo bem e tenho paz no meu coração.

– Quando você fez 70, fizemos uma entrevista e você me disse que sempre teve ‘uma sinceridade maluca’. Ainda é assim?
Regina – Acho que sim, mas com algumas restrições. A política, por exemplo, é um campo minado em que tenho aprendido a caminhar com mais cautela.

– Por falar nisso, recentemente viralizou uma entrevista de vocês na qual o enfoque, em vez da peça, foi política! Que lição tirou desse episódio?
Regina – A gente está sempre aprendendo, principalmente quando se tem uma filha como tenho a Gabriela, minha parceira em A Filha da… e na vida. Por mais absurda que possa parecer, aquela entrevista bombou a ponto de lotarmos o teatro, com antecedência de mais de um mês. O escândalo nos favoreceu.

– Como define a Regina hoje?
Regina – Uma idosa saudável com profunda gratidão pelos ensinamentos que recebeu dos pais, professores, amigos e filhos. São seres que hoje a abastecem com um amor indispensável a todos os seres humanos.