Com quase 14 anos de carreira, Breno Santos (34) já coleciona personagens, experiências e, sobretudo, aprendizados. Entre as lições que o tempo de profissão lhe trouxe, uma delas se tornou quase um mantra: “Talento sozinho não administra uma carreira”. No ar em A Nobreza do Amor, novela das 6 da Globo, o ator entende que construir uma trajetória nas artes vai muito além de estar preparado para entrar em cena. Estudo, dedicação, escolhas, relações, posicionamento e constância também fazem parte de uma equação que, em uma profissão marcada pela imprevisibilidade, nunca oferece garantias.

“Existe muito esforço na nossa profissão e quase nunca existe garantia. Talvez, por isso, permanecer seja uma das partes mais difíceis e mais importantes do trabalho. Sempre digo que se tornar ator, entrar em grandes emissoras, é fácil. Talvez o difícil, o complexo, seja se manter lá dentro. Permanecer relevante, trabalhando, permanecer se atualizando”, reflete.

 

DESCOBERTA ARTÍSTICA

O atual trabalho representa mais uma etapa de uma trajetória que começou quase por acaso. Breno não cresceu alimentando o sonho de ser ator. A descoberta aconteceu quando acompanhou a irmã a um curso de teatro em Divinópolis, Minas Gerais. Contrariado com a ideia de passar quatro horas esperando por ela, acabou entrando no galpão onde acontecia a aula e foi convidado pelo professor Fabrício Ribeiro a participar de um jogo cênico.

A experiência mudou o rumo daquela tarde — e, posteriormente, de sua vida. A irmã desistiu do curso, mas Breno ficou. Depois, passou a integrar a Cooperativa de Teatro de Divinópolis e estreou em Pimenta do Reino, peça que, curiosamente, também foi seu primeiro contato como espectador com o teatro. “Literalmente, conheci o teatro estando em cima do palco. Descobri uma liberdade que até então não sabia que existia, que era possível”, recorda.

A paixão pelo ofício veio acompanhada da consciência de que talento e preparação, sozinhos, não determinam os rumos de uma carreira artística. Ao longo dos anos, Breno aprendeu que a espera por uma oportunidade pode ser tão desafiadora quanto o trabalho para estar pronto quando ela surgir.

“Stanislavski dizia que se você espera para se preparar quando o trabalho aparecer você já está atrasado”, lembra. “Você pode estudar muito, pode estar em um grande momento artístico e ainda assim passar meses sem uma oportunidade.”

A compreensão sobre a profissão, portanto, amadureceu junto com ele. Se no início acreditava que dedicação e estudo necessariamente levariam às oportunidades, hoje enxerga a carreira por uma perspectiva mais ampla. “Uma carreira também é construída por escolhas, por relações, por posicionamento, repertório, disponibilidade, constância…”, enumera.

Essa mudança de olhar também aparece na maneira como se relaciona com o próprio trabalho. No começo, havia uma necessidade maior de provar sua capacidade. Hoje, a busca é outra. “No início, existia uma vontade maior de mostrar que eu era capaz, que sabia atuar, que sabia executar o trabalho que tinha sido me dado. O meu lado ator gritava. Hoje me sinto mais interessado em estar presente, em escutar meu lado artista. Talvez eu tenha menos vontade de provar e mais vontade de descobrir.”

DESEJO DE IR ALÉM

Embora reconheça as dificuldades do caminho, Breno nunca perdeu a ambição. Quando decidiu se tornar ator profissional, chegou a se desfazer de praticamente tudo o que tinha. Morava com os pais e viu naquele gesto uma espécie de marco para o recomeço.

“Era uma maneira de eu me fazer entender que era isso que eu tinha escolhido”, conta. A escolha, feita há quase 14 anos, continua acompanhada do desejo de alcançar novos lugares. “Eu imaginava chegar longe. Só que não sabia qual seria o caminho e quão difícil seria esse caminho. E ainda imagino alcançar lugares distantes de onde estou agora.”

Personagens complexos

A maturidade profissional também se reflete na maneira como Breno enxerga as transformações do audiovisual. Para ele, o avanço da representatividade precisa ser acompanhado por uma mudança na construção dos personagens.

“O que mais me interessa não é a presença somente, mas a complexidade desses personagens”, afirma. Na sua visão, não basta ampliar numericamente a presença de pessoas pretas nas produções. É preciso permitir que elas ocupem diferentes lugares dentro das narrativas.

“Encher a tela de personagens secundários me soa como a tentativa falha do cumprimento de uma cota. Não é só sobre quantos personagens pretos têm numa obra. Ele pode simplesmente interpretar um ser humano absolutamente complexo, como todos nós somos. Acho que é esse o lugar que a gente precisa sempre continuar avançando.”

Pai por escolha

Fora dos estúdios e dos palcos, outra experiência transformou profundamente seu olhar sobre a vida: a paternidade. Breno conheceu Miguel quando a história do menino já havia começado e, ao entrar na vida dele, também passou a ocupar um novo lugar.

Desde o início, fez questão de respeitar a dimensão dessa relação. A resposta veio de maneira simbólica no primeiro Dia dos Pais que passaram juntos. Miguel preparou uma cartinha com uma pergunta: “Você aceita ser meu pai?”. Abaixo, havia duas opções: sim e não. Breno marcou a primeira.

“Costumo dizer que sou um pai por escolha. Ele me mostra as melhores partes de mim”, conta.

Mais do que imaginar um futuro específico para o filho, ele deseja oferecer a Miguel liberdade para construir a própria história. “Quero que ele tenha liberdade para descobrir quem é, sem sentir que precisa corresponder a qualquer coisa que imaginei para ele.”

Para Breno, o maior legado está justamente nessa possibilidade de escolha. “Se conseguir deixar para o Miguel a coragem de escolher a própria vida, respeitando as pessoas e a certeza de que o pai dele esteve presente já é um legado.”