Durante dez anos Bianca Bin (35) esteve no ar ininterruptamente na TV Globo. Foi uma novela atrás da outra, com personagens marcantes, como Clara, de O Outro Lado do Paraíso. Após o sucesso de 2017, esperava-se um novo grande projeto, mas a atriz decidiu protagonizar a própria vida. Buscou tempo de qualidade, se aventurou em outras frentes — como o cinema — e chegou a se questionar se ainda queria seguir na carreira. E foi no teatro que encontrou a resposta. “O palco me devolveu a alegria de atuar”, afirma a artista, que depois da turnê pelo Brasil com a peça Job, prepara-se para estrear, em São Paulo, o espetáculo Meu Deus!, que estrela ao lado do marido, Sergio Guizé (45). Em conversa com CARAS, na Casa Niemeyer, no Rio de Janeiro, ela reflete sobre as escolhas profissionais e pessoais.

– Job foi uma peça que te desafiou?
– Muito! O teatro não é a minha zona de conforto, mas sempre sonhei em fazer. A escolha pela profissão foi para estar no palco e de repente o audiovisual me pegou. Fiquei dez anos fazendo novela. Agora que estou podendo escolher, para mim é um privilégio estar no teatro. E a personagem é desafiadora. Sempre a última que faço eu considero a mais difícil, porque ainda estou desbravando, investigando. O processo criativo é louco, mas instigante.
– A peça falava sobre o quê?
– Sobre a relação com trabalho, saúde mental e tecnologia, o uso que a gente dá para a internet hoje. O problema não são os aparelhos, mas o que o humano faz com isso. A internet não é só um lugar de entretenimento, de direito social, é um lugar que também pode ser perigoso, tóxico. É uma peça pertinente para a era que a gente está vivendo. Não é um espelho confortável de olhar, mas acho atual e necessário.

– Sua personagem, Jane, tem um colapso e é afastada do trabalho. Já viveu algo do tipo?
– O audiovisual é uma carga estafante, é 6×1. Eu tinha 50 páginas para decorar em uma semana, é mais do que uma peça. Eu passava o domingo estudando, lendo, decupando o meu texto, porque não é só decorar, tem um trabalho que a gente faz em casa antes de ir para o set. Então, o cérebro não para e são projetos longos, dura um ano, o corpo começou a padecer, a adoecer. Eu tive transtorno de ansiedade, pânico. E agora, nesse lugar que eu já me enxergo mais estabilizada profissionalmente, mais privilegiada, posso escolher ter uma relação mais saudável com o trabalho. Meu trabalho é um complemento da minha vida e ele precisa promover qualidade de vida para mim também, porque senão não faz sentido. Nada justifica perder a saúde, porque nada te devolve a saúde. Estou fazendo escolhas que julgo que estão bem mais alinhadas com essa minha ideologia, mas tenho total consciência desse privilégio da escolha.
– Defende o fim da escala 6×1?
– Essa bandeira é a que eu tenho mais levantado. Não só para mim, para todos nós e em todas as profissões. A gente precisa discutir saúde mental, desenvolver um trabalho mais integrado com isso. A gente vai se tornando um pouco o trabalho, vai tomando um espaço da vida muito grande. Tem essa coisa também de posse, de construir, enriquecer… Para quê? Tudo bem, tem uma coisa que te dá estabilidade, segurança, mas eu me questiono: se acabar amanhã a minha vida, o que eu fiz hoje? Fui feliz? Estou pensando no hoje, em viver esse dia com segurança, bem-estar, leveza, com tempo de qualidade para ler um livro, assistir a uma série e não o texto do trabalho apenas.

– A vida não é só isso, não é?
– A gente fica nessa de produzir, as pessoas até romantizam essa estafa. ‘Nossa, estou fazendo três trabalhos ao mesmo tempo.’ Isso não é legal, faz mal, a longo prazo adoece. Estou mais conectada com a minha saúde, física e mental. A gente fica muito atrás de performance, de bater meta. Parece que é uma corrida incessante atrás de algo que nunca vai chegar. A felicidade está no hoje. É no hoje que eu procuro viver a vida. E agora, no teatro, estou fazendo o que sempre desejei.
– Sua felicidade é visível!
– Estava frustrada depois de uma longa temporada de audiovisual, me questionando se ainda queria ser atriz, se isso ainda me fazia feliz, mas acho que só estava no lugar errado. Precisei mudar de lugar para entender que nasci para isso, é o que amo fazer. O palco me devolveu a alegria de atuar.

– O público sente sua falta na TV. Você fez participações, mas negou convites. Alguns até te chamam de preguiçosa…
– Muita gente fala, eu dou vários prints e fico mostrando para a minha família, falo: “Olha aí quem pensa igual a vocês (risos)”. Meu pai, minha mãe e meu irmão, às vezes brincam assim: “Está trabalhando, vai chover”. Mas eu trabalhei muito a minha vida inteira. Não que eu não trabalhe, mas agora está uma relação mais equilibrada com a minha vida pessoal. Vou para o teatro de sexta a domingo, tem dias que tem sessão dupla, não é leve, me exige muito. E tem um trabalho que a gente faz em casa também, que não é monetizado. Eu cuido muito da minha família, da minha casa.
– Esses comentários te afetam?
– Não me afetam porque não me vejo como uma vagabunda. Pelo contrário, quando estou em casa, as pessoas falam: “Você não consegue parar, fica sentada”. Estou sempre fazendo alguma coisa. Gosto de estar em movimento.
– Você estava em ascensão e escolheu outro caminho. Sua escolha assusta os outros?
– É que o meu propósito nunca foi status, isso foi consequência. O meu propósito sempre foi ofício, paixão. Eu soube valorizar muito bem, mas aos 30 pensei: “Que atriz eu quero ser aos 40?, porque eu só fiz TV até agora”. Senti falta de me desafiar mais. Estava vendo, pelo ritmo de vida, a minha criatividade ser minada, o meu prazer ser minado. E realmente é essa a balança do tempo. Tudo que eu compro pago com o meu tempo. O meu tempo é muito precioso. Ninguém pode precificar isso. Dinheiro nenhum no mundo vai pagá-lo ou me trazer de volta. Então é um pouco sobre como eu quero passar esse tempo quando não preciso mais me preocupar com pagar boleto.

– Organizou-se financeiramente para isso?
– Tive cabeça, se não tivesse ia comprar mala de 40 mil reais. Não tenho um julgamento, é escolha. Sou caseira, troco qualquer programa para ficar em casa em família, sempre fui casada, tive relações longas. São as escolhas que estão alinhadas com a minha personalidade.
– E encontrou o Guizé, que é igual.
– Minha mãe fala que juntou a fome com a vontade de comer (risos). A gente tem tudo a ver, foi um grande encontro. Fomos para uma chácara, no interior de SP, onde temos bichos, horta, pé de fruta, natureza… tudo que nos ajuda a se reequilibrar. Vivemos muito a energia e as dores do personagem, se colocando no lugar do outro o tempo todo. E eu? E a minha vida?

– Você resolveu protagonizar a sua vida.
– Antes a minha vida pessoal ficava guardada na prateleira e eu falava: “Um dia eu volto”. Voltei e estou feliz com esse presente que estou construindo, cocriando com meu parceiro e eu comigo na minha individualidade também, que é muito importante.
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