Aos 76 anos — sendo 60 só de carreira —, Antonio Fagundes continua movido pela mesma inquietação que o transformou em um dos maiores nomes da dramaturgia nacional. Com fôlego de sobra, ele resume a relação com o ofício de forma simples e direta: “Se você tem prazer numa coisa que faz, não trabalha nunca”, diz ele, justificando a agenda cheia. Além de estar em cartaz com a peça Dois de Nós, em SP, e recentemente ter voltado às telinhas em uma participação especial na trama global das 9, Quem Ama Cuida, ele ainda encontra fôlego para dirigir o espetáculo Sete Minutos – Uma Comédia no Tempo Certo, em cartaz no Teatro Cultura Artística, também em SP.
Estrelada por Norival Rizzo (74), Walter Breda (77), Fábio Esposito (55), Ana Andreatta (58), Conrado Sardinha (39) e Natália Beukers (28), a peça foi escrita pelo próprio Fagundes e narra, de forma bem-humorada, a relação entre público e atores e as questões contemporâneas que atravessam esse vínculo: a tecnologia, o tempo e o foco das pessoas. “Se você quiser se relacionar com seres humanos, vai ter que ir ao teatro. O teatro é 100% humano”, dispara ele, em papo com CARAS.
– Já são 60 anos de carreira e você não para!
– O teatro é lindo, né? Nossa profissão é muito bonita e se você tem prazer no que faz você não trabalha nunca. Não é trabalho para mim. Não consigo recusar as coisas: as pessoas me chamam e acabo fazendo porque tenho muito prazer no que faço.
– Isso alimenta uma certa jovialidade em você!
– Acho que sim. Nossa profissão nos coloca em contato constante com outras pessoas, outras gerações, outros processos. A gente está sempre aprendendo, ouvindo, trocando. É uma profissão muito bonita nesse sentido, porque você nunca para de aprender — principalmente com os mais jovens, que trazem experiências diferentes.
– Hoje vemos muitas produções culturais fazendo uso de tecnologias e até inteligência artificial. O teatro tem essa função de manter as pessoas mais próximas da humanidade?
– Mais do que nunca! Até porque a humanidade está sendo contestada e, daqui para frente, isso vai ficar ainda mais evidente. Se você quiser se relacionar com seres humanos, vai ter que ir ao teatro. O teatro permite esse diálogo direto: mesmo em silêncio, a plateia responde — com risos, lágrimas e participação. O cinema também propicia isso, mas ali o filme está pronto, não se modifica. No teatro, não: ele se modifica a cada plateia, a cada momento. O teatro não vai perder essa humanidade.


– Além das questões tecnológicas, a política também influencia na cultura do País e você sempre falou sobre isso, inclusive, apontando que no último governo houve um desmanche cultural. Como enxerga o cenário hoje?
– Acho que é episódico. A gente precisa transformar as experiências e oportunidades em algo mais efetivo, que gere continuidade, não apenas em episódios isolados de sucesso. Para isso, é preciso uma política cultural de Estado, mais participação das plateias e pressão nos lugares certos para que as coisas avancem de uma forma mais estruturada.
– Você voltou para as novelas após hiato de sete anos. Estava com saudade?
– Mais ou menos (risos). É uma demanda muito grande, exige bastante. Apesar de eu ter o esquema de só gravar às segundas, terças e quartas, ainda assim é complicado porque estou fazendo teatro em São Paulo. Só aceitei essa volta porque era uma participação pequena. Pode até ser que depois eu mude de ideia, mas não faria uma novela inteira agora. E mesmo assim ficou puxado! Fiquei sem folga uns quatro meses.

– O consumo da TV aberta mudou nos últimos anos. Sentiu essa diferença ao voltar?
– O Walcyr Carrasco está fazendo um novelão, retomando as novelas de antigamente e isso, por si só, já deve ser um sucesso. Hoje existe uma influência muito grande da internet e das redes sociais. Particularmente, acho um erro se deixar influenciar demais por isso. Assim como acho um erro levar tecnologias para o teatro. O teatro precisa ir na direção oposta: ser mais simples, mais humano. Deixe a tecnologia para outros meios. O público parece estar buscando isso, acalmar seu cotidiano, sair dessa rapidez e dessa loucura em que o mundo está enfiado e parar para pensar um pouco em outras coisas.
– Você estimula esses processos nas suas redes sociais com as leituras de poesia. Como tem si do a recepção?
– Tem sido muito boa. Tive poesias com mais de 2 milhões de visualizações. Isso mostra que as pessoas estão sentindo falta disso. E eu achei muito bonito, era uma coisa que eu não esperava. As redes costumam incentivar outras coisas, não tão sérias.
– E, por falar em leitura, você se considera mais um homem da poesia ou da prosa?
– Gosto de tudo, mas sou da palavra. O ator precisa gostar da palavra, tem que ter intimidade com ela. Ainda acredito na comunicação pela palavra. Diferentemente de quem acha que a imagem vale mais, a palavra ainda pode transformar o mundo, principalmente quando é ouvida. O problema é que as redes sociais não estão permitindo, as pessoas estão deixando de ouvir, de ler e de se comunicar. A peça Sete Minutos fala sobre isso, nossa atenção está sendo captada cada vez mais por menos tempo. Você recebe muito mais mensagens e informações em um único dia do que antigamente e, naturalmente, seu cérebro não assimila isso. Chega uma hora que você começa a apagar as coisas.

– E no meio de tanto trabalho, dá tempo de tirar férias?
– Hoje consigo me organizar melhor. Antigamente, era praticamente contínuo: terminava uma novela e já emendava outra peça, ou vice-versa. Agora, com menos compromissos na TV, consigo planejar períodos de descanso. Ainda assim, às vezes, aparecem convites que são difíceis de recusar!
– Não consegue dizer não!
– Quando surge um elenco muito bom, uma direção excelente, fica realmente difícil recusar.
– Para finalizarmos, o que o Fagundes de hoje falaria para o Fagundes de 20 anos?
– Vá em frente, vai dar certo!






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