Antes de iniciar sua expressiva trajetória no tratamento da hiperplasia prostática benigna, o urologista Rodrigo Loureiro aprendeu que cuidar de alguém começa muito antes de qualquer diagnóstico. Ainda jovem, acompanhava o pai, dentista, em visitas a um asilo administrado pela família em Macaé, no interior do Rio de Janeiro. O contato com idosos despertou uma percepção que mais tarde definiria sua forma de exercer a medicina: antes da doença existe uma história, e compreendê-la faz parte do tratamento.

Filho de uma professora primária e de um dentista, Rodrigo é o primeiro médico da família. Neto de ferroviários da antiga Estrada de Ferro Leopoldina, cresceu em um ambiente distante da tradição médica e encontrou na profissão uma oportunidade de unir conhecimento técnico e cuidado humano.

“Minha origem é mais simples. Não venho de uma família de médicos. Talvez por isso eu tenha desenvolvido uma percepção maior sobre quem está à minha frente. Muitas pessoas que chegam ao consultório também não pertencem a esse universo médico e precisam ser acolhidas de forma clara”, relembra.

Uma vocação construída no cuidado

Formado pela Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói (RJ), Rodrigo realizou residência em Cirurgia Geral e Urologia no Hospital Universitário Pedro Ernesto, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, onde também concluiu o mestrado em Urologia. O interesse inicial pela especialidade surgiu pela possibilidade de unir atendimento clínico e atuação cirúrgica, mas foi a convivência com pacientes mais velhos que direcionou sua carreira para o tratamento da próstata aumentada e para a endourologia.

Hoje, grande parte dos pacientes que chegam ao consultório tem mais de 50 anos e convive há meses, ou até anos, com sintomas urinários que afetam diretamente a qualidade de vida.

Quando o medo adia o diagnóstico

Jato urinário enfraquecido, urgência para urinar, noites mal dormidas e receio de sair de casa são algumas das queixas mais frequentes. Para Rodrigo, porém, os sintomas representam apenas uma parte da consulta.

“Atendo muitos homens de uma geração que foi educada para ser forte, prover a família e não demonstrar fragilidade. Quando esse homem se percebe doente, principalmente diante de temas como sexualidade, incontinência urinária ou cirurgia de próstata, existe um medo profundo. Ele precisa ser ouvido antes de qualquer decisão.”

Segundo o especialista, sintomas urinários podem estar relacionados ao aumento da próstata, mas também sofrer influência de doenças crônicas, medicamentos, alimentação, sono e hábitos de vida. Por isso, uma avaliação individualizada é indispensável.

Outro aspecto que chama sua atenção é a participação da família. Em muitos casos, são esposas, filhos ou companheiras que percebem primeiro as mudanças na rotina e incentivam a procura por atendimento médico.

“A esposa muitas vezes percebe que o marido acorda várias vezes durante a noite, evita viagens ou organiza toda a rotina em torno do banheiro. Isso ajuda a revelar o impacto real dos sintomas na qualidade de vida.”

Muito além da próstata

Rodrigo destaca que um dos equívocos mais comuns é acreditar que a próstata aumentada afeta apenas o fluxo urinário. Na realidade, a bexiga também sofre as consequências da obstrução.

“A gente fala muito da próstata, mas quem sofre diretamente com a obstrução é a bexiga. Ela é um músculo que envelhece e, quando trabalha durante anos sob pressão, pode perder eficiência. Por isso, o cuidado não deve começar apenas quando a limitação já está avançada.”

Ele também faz questão de esclarecer que hiperplasia prostática benigna e câncer de próstata são condições distintas. Embora ambas necessitem acompanhamento médico, o aumento benigno da próstata não significa a presença de um tumor, e cada situação exige uma abordagem específica.

Tecnologia e precisão no tratamento

A relação de Rodrigo com o HoLEP começou em 2013, durante um congresso internacional de endourologia. A técnica, conhecida como enucleação endoscópica da próstata com laser de Holmium, é indicada para casos específicos de hiperplasia prostática benigna e permite a remoção do tecido que causa obstrução urinária por meio da uretra, sem incisões externas.

Para dominar o procedimento, buscou aperfeiçoamento em centros de referência na Argentina, Itália, Alemanha, Estados Unidos e Grã-Bretanha. Em 2015, participou da introdução da tecnologia no Brasil e passou a atuar também na formação de outros especialistas.

“A indicação depende do paciente. É preciso avaliar sintomas, tamanho da próstata, função da bexiga, condições clínicas e expectativas. A tecnologia ajuda muito, mas ela só faz sentido quando está a serviço de uma decisão bem tomada.”

Além da atuação clínica, Rodrigo colaborou com o desenvolvimento de instrumentos cirúrgicos mais finos em parceria com uma empresa alemã especializada em equipamentos para urologia, contribuindo para a evolução técnica dos procedimentos minimamente invasivos.

Ensinar também faz parte da medicina

Com a expansão do HoLEP no país, Rodrigo assumiu um novo papel: o de formador de profissionais. Ao longo dos últimos anos, treinou urologistas brasileiros e latino-americanos em cursos práticos voltados à técnica.

Para ele, a incorporação de novas tecnologias exige responsabilidade, preparo e acompanhamento contínuo.

“Uma técnica avançada exige responsabilidade. Não basta ter o equipamento. É preciso formação, equipe, repetição e humildade para entender que o paciente jamais pode ser tratado como etapa de aprendizado.”

Mesmo realizando cirurgias em diferentes estados, Rodrigo optou por permanecer em Macaé, cidade onde estruturou sua prática médica e demonstra que procedimentos de alta complexidade também podem ser realizados fora dos grandes centros urbanos.

Envelhecer com autonomia

Além da assistência aos pacientes, o urologista participa de discussões para o desenvolvimento de diretrizes brasileiras voltadas ao tratamento da hiperplasia prostática benigna ao lado de representantes da Sociedade Brasileira de Urologia. Também acompanha a evolução de novos equipamentos e sistemas de visualização para cirurgias endoscópicas.

Na sua visão, entretanto, nenhuma inovação substitui a relação construída entre médico e paciente.

“Sou muito feliz no meu trabalho. Mesmo se não tivesse os ganhos que tenho, provavelmente estaria no mesmo lugar, fazendo o que faço, porque acredito nisso. O consultório e o centro cirúrgico são espaços onde me sinto bem.”

Ao refletir sobre o futuro da saúde masculina, Rodrigo reforça que envelhecer com qualidade exige planejamento. Para ele, preservar autonomia, independência e bem-estar passa por decisões tomadas muito antes do surgimento das limitações.

O homem precisa pensar em como quer estar aos 80 anos. Se deseja autonomia, independência e qualidade de vida, precisa começar esse planejamento antes. Cuidar da saúde é também decidir como se quer envelhecer”, conclui.

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