Antes mesmo de se tornar médico, Frederico Homem da Silva já carregava uma ligação profunda com a cardiologia. O primeiro marcapasso que viu ser implantado durante a faculdade não despertou apenas interesse profissional. Também o conectou a uma história familiar marcada pela doença e pela busca por cuidado.

Natural de Uberaba (MG), o cardiologista especializado em arritmias cardíacas e dispositivos implantáveis encontrou na medicina uma forma de unir duas paixões que o acompanhavam desde a juventude: a precisão das ciências exatas e o fascínio pelo funcionamento do corpo humano.
“Sempre gostei muito de números e das ciências exatas, mas também me encantava pela biologia, pela fisiologia humana e pela química. A medicina entrou na minha vida ainda na adolescência, muito pela influência do meu pai e pelo apoio da minha mãe”, relembra.

Uma escolha marcada pela própria história

Aos 19 anos, Frederico deixou Uberaba para cursar Medicina na Universidade Federal de Uberlândia (MG). Foi durante a graduação que teve contato com um procedimento que acabaria definindo sua trajetória profissional.

No terceiro ano da faculdade, acompanhou o implante de um marcapasso pela primeira vez. A tecnologia, capaz de restaurar o ritmo cardíaco e devolver qualidade de vida a pacientes com alterações importantes na condução elétrica do coração, chamou sua atenção imediatamente.
Mas a conexão foi além da curiosidade acadêmica.

Pelo lado materno, sua família conviveu de perto com a doença de Chagas. Sua avó faleceu antes mesmo de ele nascer em decorrência de complicações da miocardiopatia chagásica. Segundo relatos familiares, ela teria indicação para implante de marcapasso, mas não houve tempo para realizar o procedimento.

“Quando vi aquele implante e entendi como funcionava, pensei que aquilo poderia ter salvado alguém da minha família. Ali nasceu uma paixão pela estimulação cardíaca e pelo tratamento das arritmias”, conta.

Formação em centros de referência

Após concluir a graduação, Frederico permaneceu na Universidade Federal de Uberlândia para realizar residência em Clínica Médica no Hospital de Clínicas da instituição.

Em seguida, mudou-se para São Paulo, onde permaneceu por cinco anos na Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Lá realizou residência em Cardiologia e posteriormente especialização em Arritmologia e Eletrofisiologia Cardíaca.
A vivência em instituições de referência ajudou a consolidar uma visão que segue presente em sua atuação: a excelência técnica precisa caminhar ao lado do acolhimento humano.

“A medicina vai além do conhecimento e da ciência. Para ser feita de forma plena, precisa alcançar também as relações humanas. Em cada lugar por onde passei, tentei absorver o melhor das pessoas, tanto do ponto de vista técnico quanto humano”, afirma.

Desde 2016, Frederico atua em Uberlândia, onde integra a coordenação do serviço de arritmias cardíacas do Hospital de Clínicas e participa da rotina de importantes hospitais da cidade.

Quando o coração perde o ritmo

Grande parte de sua atuação está voltada ao diagnóstico e tratamento das arritmias cardíacas, alterações que modificam o ritmo natural dos batimentos do coração.

Essas condições podem se manifestar de diferentes formas. Algumas fazem o coração acelerar excessivamente, outras provocam lentidão dos batimentos ou irregularidades persistentes. Entre os sintomas mais comuns estão palpitações, sensação de falha no coração, tonturas, episódios de desmaio e desconforto torácico.

Embora nem toda palpitação represente um problema grave, Frederico reforça a importância da avaliação médica quando os sintomas são frequentes ou impactam a qualidade de vida.

“A arritmia é um termo amplo. Ela engloba condições que modificam o ritmo natural do coração, seja por acelerações, desacelerações ou alterações sustentadas, como a fibrilação atrial. Cada tipo exige uma abordagem própria, por isso a avaliação individual é tão importante”, explica.

A importância da prevenção

Entre os diagnósticos mais frequentes está a fibrilação atrial, considerada a arritmia sustentada mais comum na população adulta.

A condição pode favorecer a formação de coágulos dentro do coração e aumentar o risco de complicações como o acidente vascular cerebral (AVC). Em muitos casos, porém, ela pode permanecer silenciosa por longos períodos.

Por isso, Frederico reforça que cuidar do coração começa muito antes do surgimento dos sintomas.

Hipertensão, diabetes, obesidade, apneia do sono, colesterol elevado, histórico de infarto e doenças cardiovasculares prévias estão entre os fatores que merecem atenção contínua.

“Um coração com menor risco cardiovascular tende a enfrentar menos agressões ao longo da vida. Exercício físico, sono adequado, peso controlado e tratamento dos fatores de risco fazem parte de uma prevenção que precisa começar antes do susto”, orienta.

Tecnologia a serviço da vida

Nos últimos anos, a área de arritmias cardíacas passou por uma verdadeira revolução tecnológica. Novas formas de diagnóstico e tratamento ampliaram as possibilidades terapêuticas e trouxeram mais precisão para procedimentos complexos.

Entre esses avanços está a ablação cardíaca, procedimento minimamente invasivo realizado por cateteres. A técnica permite mapear a atividade elétrica do coração e tratar áreas responsáveis por determinadas arritmias.

“A ablação permite diagnosticar a arritmia e estabelecer uma estratégia de tratamento pelo próprio cateter. É uma ferramenta importante, mas sua indicação precisa considerar o tipo de arritmia, os sintomas, a condição do coração e a realidade clínica de cada paciente”, ressalta.

Além da ablação, recursos como mapeamento eletroanatômico tridimensional, energia por campo pulsado e dispositivos implantáveis de última geração vêm transformando a especialidade.

Entre eles estão os marcapassos modernos, cardiodesfibriladores implantáveis e sistemas de ressincronização cardíaca, indicados de acordo com as necessidades de cada paciente.

Mesmo cercado por tecnologia de ponta, Frederico faz questão de lembrar que nenhum equipamento substitui o julgamento clínico.

“A tecnologia amplia possibilidades e melhora resultados, mas precisa estar a serviço do paciente. O centro do cuidado continua sendo a pessoa, não o equipamento”, destaca.

O medo também precisa ser tratado

Ao longo da carreira, Frederico percebeu que uma das maiores dificuldades enfrentadas pelos pacientes não está necessariamente na doença, mas no medo que surge após o diagnóstico.

O coração ocupa um lugar simbólico importante na vida das pessoas. Quando alguém recebe a notícia de que precisará de um procedimento cardíaco ou de um marcapasso, é comum que surjam insegurança, ansiedade e dúvidas sobre o futuro.

Por isso, ele acredita que a consulta é uma etapa fundamental do tratamento.

“Muitas pessoas acreditam que a vida acaba quando recebem a indicação de um marcapasso. Em muitos casos, acontece exatamente o contrário. O dispositivo permite recuperar segurança, funcionalidade e qualidade de vida”, explica.

Para o médico, a informação clara e o acolhimento ajudam a transformar o medo em compreensão.

“O paciente que precisa de uma intervenção cardiológica vive um momento de fragilidade. O tratamento começa no consultório, quando ele conversa com o médico, entende o que está acontecendo e recebe uma palavra de segurança para seguir o caminho necessário”, reflete.

O futuro da cardiologia sem perder a humanidade

Apesar de acompanhar de perto as transformações tecnológicas da cardiologia moderna, Frederico acredita que a medicina não pode perder aquilo que a torna verdadeiramente humana.

Para ele, empatia, escuta e proximidade continuam sendo tão importantes quanto qualquer inovação.

“A medicina não pode perder a relação interpessoal. Empatia, solidariedade e uma palavra de conforto são tão importantes quanto aquilo que a ciência pode oferecer em um centro de alta complexidade”, afirma.

Fora dos hospitais, encontra equilíbrio na convivência com a família, nos amigos e em atividades que ajudam a preservar a saúde física e mental.

Para os próximos anos, pretende seguir investindo em atualização profissional, tecnologia e qualidade assistencial na área de arritmias cardíacas, mantendo o mesmo propósito que o acompanha desde o início da carreira: ajudar pessoas a recuperarem segurança e qualidade de vida.

Quando fala sobre legado, Frederico não menciona números de procedimentos ou conquistas profissionais. Prefere destacar algo mais simples.

“Uma das maiores lições que recebo dos pacientes é manter a simplicidade. Nada é mais bonito do que um obrigado sincero de alguém que confiou a própria vida ao nosso cuidado”, diz.

Em uma especialidade marcada por decisões delicadas e avanços constantes, ele mantém uma convicção que atravessa toda a sua trajetória: o coração precisa de ciência, mas também precisa de presença.

“Seja feliz. Busque pessoas e situações que tragam felicidade e paz. Acho que isso faz bem”, finaliza.

CRM: 48167 | RQE: 34850

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