A dor na coluna nem sempre começa no exame. Muitas vezes, aparece primeiro na rotina: no sono que perde qualidade, no trabalho que exige esforço maior, na atividade física interrompida ou em gestos simples que passam a carregar limites, como segurar um filho no colo. É nesse encontro entre diagnóstico, escuta e vida real que Marley Filho constrói sua atuação como ortopedista especialista em coluna vertebral.

Sua trajetória começa em Teixeira de Freitas, no interior da Bahia, em uma casa onde a medicina fazia parte da rotina. Filho de médicos, cresceu observando o pai, cirurgião, e a mãe, ginecologista, exercerem a profissão em uma época marcada por relações próximas entre médico e paciente.

“Eu cresci vendo meus pais colocarem o paciente no centro do cuidado. O tratamento era o mesmo para todos, com respeito, atenção e compromisso. Essa forma de enxergar a medicina me acompanha desde a infância.”

No interior, a gratidão muitas vezes chegava em forma de frutas, galinhas ou pequenos presentes. Para Marley, essas memórias ajudaram a formar uma compreensão que permanece viva em sua prática: a medicina não se sustenta apenas em técnica, mas também em presença, vínculo e responsabilidade.

Uma vocação construída entre exemplos e propósito

Marley costuma dizer que não se lembra de um momento em que tenha pensado em seguir outro caminho. A medicina parecia estar ali desde sempre. Ainda jovem, acompanhou o pai em ambiente hospitalar e percebeu que a rotina cirúrgica, que poderia assustar, despertava nele curiosidade.

A escolha pela ortopedia veio durante a formação médica. A cirurgia já o atraía, em parte pela influência familiar. No entanto, foi uma observação da esposa, na época namorada, que o fez olhar para a especialidade com mais atenção. Ela percebeu nele afinidade com uma área resolutiva, dinâmica e ligada ao contato humano.

Na coluna, essa identificação ganhou contornos mais definidos. A especialidade permite acompanhar pacientes em diferentes fases da vida, de adolescentes com deformidades a adultos com hérnia de disco, idosos com estenose, fraturas ou limitações progressivas.

Formação sólida e decisões guiadas pela responsabilidade

A base técnica de Marley Filho foi construída em instituições que marcaram sua formação. Ele fez residência médica em ortopedia e traumatologia no Hospital Federal da Lagoa, no Rio de Janeiro, e depois retornou a Vitória, no Espírito Santo, onde realizou formação em cirurgia da coluna no Hospital Santa Casa de Misericórdia, com dedicação exclusiva à especialidade.

Também é membro da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia e da Sociedade Brasileira de Coluna. A atualização seguiu com a pós-graduação em cirurgia endoscópica da coluna pela USP de Ribeirão Preto (SP).

Entre seus principais focos está a cirurgia endoscópica da coluna, abordagem minimamente invasiva que pode ser utilizada em casos selecionados, como algumas hérnias de disco, estenoses do canal vertebral e compressões nervosas. Atualmente, existem diferentes técnicas dentro da endoscopia, incluindo as abordagens uniportal e biportal.

Para Marley, mais importante do que a técnica em si é compreender qual delas oferece a melhor solução para cada paciente, considerando diagnóstico, anatomia, sintomas e objetivos do tratamento. Quando bem indicada, a cirurgia endoscópica pode proporcionar menor agressão aos tecidos, menos dor pós-operatória e recuperação mais rápida. Ainda assim, ele reforça que a tecnologia deve servir ao paciente, e não ocupar o centro da decisão.

“A melhor técnica não é a que parece mais moderna. É aquela que faz sentido para o paciente certo, no momento certo. Eu não tento adaptar uma pessoa a uma técnica. A história clínica, o exame físico e os exames de imagem orientam minha tomada de decisão.”

Esse cuidado aparece também quando ele decide não operar. Em alguns casos, o paciente chega ao consultório com expectativa de cirurgia, mas ainda precisa de tratamento conservador, exames complementares ou reavaliação. Para Marley, dizer “não” quando a cirurgia não é adequada também faz parte da ética médica.

Por trás da imagem, existe uma história

Na coluna, a dor raramente atinge apenas uma região do corpo. Ela pode interferir no sono, no humor, no trabalho, nas atividades físicas e nas relações familiares. Uma das histórias que marcou Marley foi a de uma mãe que sofria não apenas pela dor, mas por não conseguir segurar a filha no colo. Após o tratamento, a melhora dos sintomas permitiu que ela retomasse esse gesto simples e simbólico.

“Um laudo não mostra tudo. A dor pode impedir uma mãe de pegar a filha, afastar alguém do trabalho ou tirar a pessoa da vida que ela reconhece como sua. Por isso, antes de olhar apenas para a imagem, eu preciso entender quem está diante de mim.”

Essa escuta também ajuda a lidar com medos antigos. A cirurgia da coluna ainda desperta receios, muitas vezes ligados a informações desatualizadas, relatos de terceiros ou à percepção de que qualquer procedimento envolve riscos excessivos. Por isso, Marley valoriza uma orientação clara, transparente e baseada em evidências.

Também é importante destacar que a cirurgia não representa a primeira etapa do tratamento na maioria dos casos. Diversas condições da coluna, como hérnias de disco, dores lombares e alterações degenerativas, podem ser conduzidas inicialmente com fisioterapia, fortalecimento muscular, reeducação postural, controle do peso corporal e mudanças no estilo de vida.

Tecnologia a serviço do paciente

A cirurgia da coluna passou por avanços expressivos nas últimas décadas. Recursos de imagem, técnicas minimamente invasivas, navegação, radioassistência intraoperatória e plataformas robóticas, em alguns centros, ampliaram possibilidades e trouxeram mais precisão a determinados procedimentos.

Marley acompanha esse movimento de perto, com foco atual na cirurgia endoscópica da coluna e no aperfeiçoamento da abordagem biportal. Entre os próximos passos de sua formação está um período de aperfeiçoamento internacional na China, voltado a técnicas avançadas de cirurgia endoscópica. Ainda assim, ele reforça que a tecnologia não substitui o raciocínio clínico.

“Tudo que aumenta a segurança do procedimento deve ser visto com bons olhos. Mas a tecnologia precisa estar a serviço do paciente. Ela não pode virar argumento de venda, nem ocupar o lugar da avaliação médica cuidadosa.”

Embora a cirurgia faça parte de sua atuação, Marley reforça que boa parte do cuidado com a coluna começa antes do centro cirúrgico. Sedentarismo, sobrepeso, repouso prolongado, má ergonomia e perda de força muscular aparecem entre os fatores que mais preocupam na rotina dos pacientes.

Para quem trabalha muitas horas sentado, ele orienta pausas regulares, atenção ao apoio lombar e posicionamento adequado da tela do computador. Também defende a atividade física de forma equilibrada, com exercícios aeróbicos e treino de força. Em sua própria rotina, o movimento está presente em treinos de força, corrida e tênis, como coerência com aquilo que orienta no consultório.

“O paciente precisa participar do tratamento. Medicação, fisioterapia, infiltração ou cirurgia podem ter papel em situações específicas, mas a coluna também depende de movimento, força, sono adequado e hábitos consistentes.”

O legado que deseja construir

A busca por atualização é um valor que Marley também reconhece dentro de casa. Ele cita a mãe como exemplo de dedicação. Mesmo após anos de atuação, ela segue estudando, fazendo cursos e aprendendo novas técnicas. Essa postura reforça a ideia de que o médico nunca conclui sua formação por completo.

Congressos, cursos e aperfeiçoamentos fazem parte da rotina de Marley Filho, que participa de atividades científicas no Brasil e no exterior. Para ele, conhecimento não é um diferencial competitivo, mas uma obrigação profissional, já que cada decisão pode impactar mobilidade, autonomia e qualidade de vida.

“Tenho orgulho de construir minha trajetória profissional no Espírito Santo. Acredito que nossos pacientes merecem ter acesso a um tratamento da coluna no mesmo nível dos grandes centros nacionais e internacionais, sem precisar sair do estado em busca de atendimento especializado.”

Ao falar sobre futuro, ele volta ao princípio que aprendeu ainda na infância: a medicina deve estar voltada ao paciente. Em um cenário no qual observa uma tendência de comercialização da área, defende uma prática baseada em evidências, formação sólida e compromisso humano.

Sua atuação em coluna reúne temas complexos, como hérnia de disco, dor crônica, cirurgia, medo, reabilitação, família e qualidade de vida. Por isso, acredita que o cuidado precisa começar pela escuta. Para Marley Filho, o legado que deseja construir está ligado ao respeito pela individualidade de cada caso e à capacidade de lembrar que, por trás de toda coluna, existe uma pessoa tentando recuperar movimento, confiança e autonomia.

“A medicina não é voltada para o médico. A medicina é voltada para o paciente. Quero construir uma trajetória baseada em ética, evidência e humanidade, tratando cada pessoa como eu gostaria que tratassem alguém da minha própria família.”

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