Aos 44 anos de carreira, Claudia Ohana, 63, continua encontrando novos motivos para se desafiar artisticamente. Atriz e cantora, ela construiu uma trajetória marcada por trabalhos na televisão, no cinema e no teatro, mas é nos palcos que encontrou uma espécie de porto seguro. Atualmente, está em cartaz no musical Festa no Arraial, no Teatro Clara Nunes, no Rio de Janeiro, interpretando Tânia Flores, uma vilã cômica e cheia de personalidade.

Hoje em dia, o teatro representa a minha casa, é onde me sinto em casa. Comecei no teatro depois de ter feito cinema e televisão, mas foi ele que me deu chão como atriz. Depois do teatro, tudo ficou mais fácil, porque estar em cena é como estar em um trapézio sem rede. E isso é muito maravilhoso”, conta Claudia em entrevista à CARAS Brasil.

Claudia Ohana celebra 44 anos de carreira com novos desafios - Foto: Vinícius Mochizuki | Beleza: Ewertton Alves | Stylist: GARANDRA
Claudia Ohana celebra 44 anos de carreira com novos desafios – Foto: Vinícius Mochizuki | Beleza: Ewertton Alves | Stylist: GARANDRA

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Claudia Ohana e sua relação especial com os palcos

Ao longo de décadas de carreira, a atriz acumulou momentos marcantes no teatro, mas guarda com carinho justamente aqueles que fugiram do roteiro. Um deles aconteceu quando as luzes do palco foram apagadas durante uma apresentação. Em vez de interromper o espetáculo, Claudia decidiu recorrer ao público.

Eu parei tudo e perguntei para o público se eles queriam que a gente parasse para esperar a luz voltar ou se queriam iluminar a gente com a luz dos celulares. Todo mundo acendeu os celulares e nós continuamos fazendo o espetáculo. Foi um momento muito mágico, daqueles que só o teatro pode proporcionar”, relembra.

Entre os trabalhos que ficaram especialmente marcados em sua memória está Carmen, ópera dirigida e adaptada por Augusto Boal. Para Claudia, a montagem representou um grande desafio artístico e também uma experiência que permanece entre as mais importantes de sua trajetória.

Acho que a ópera Carmen, dirigida e adaptada pelo Augusto Boal, ficou marcada para sempre em mim, porque foi um desafio muito grande e um personagem maravilhoso. Nunca vou esquecer essa peça e, principalmente, nunca vou esquecer o Boal. Foi uma experiência muito especial na minha trajetória”, afirma.

Claudia Ohana vive Tânia Flores na peça Festa no Arraial - Foto: João Pedro Hachiya
Claudia Ohana vive Tânia Flores na peça Festa no Arraial – Foto: João Pedro Hachiya

44 anos de teatro, televisão e cinema

Claudia estreou no cinema em 1979, no filme Amor e Traição, e posteriormente ganhou destaque em trabalhos que se tornaram referências da televisão brasileira. Entre eles estão a protagonista da primeira fase de Tieta, em 1989, Natasha, de Vamp, em 1991, e a vilã Isabela, de A Próxima Vítima, em 1995.

A atriz considera que transitar por diferentes linguagens foi fundamental para sua formação. Embora tenha começado no cinema e na televisão antes de se aprofundar no teatro, foi nos palcos que encontrou a base que levaria para os demais trabalhos.

Me tornei uma atriz e uma pessoa melhor, o teatro me deu uma enraizada. Ele me deixa presente. Então, quando estou fazendo teatro, fazer televisão e cinema fica muito mais fácil para mim, porque estou me exercitando todos os dias no palco”, explica.

Claudia não escolhe um meio preferido. Para ela, cada linguagem possui uma característica própria. “Cada coisa é uma coisa, não tenho um preferido. Fazer teatro é como cantar lírico, dançar balé clássico; fazer televisão é como cantar MPB; e cinema é jazz. E eu gosto dos três tipos de música, gosto dos três igualmente”, compara.

O cinema é o que mais conheço como um todo, o teatro é onde eu realmente me conheço mais, e a televisão junta um pouco do cinema e do teatro”, completa.

Ao olhar para a própria trajetória, Claudia também deixa um conselho para a jovem que estreou no cinema em 1979. Com a experiência acumulada ao longo de mais de quatro décadas, ela revela o que diria para si mesma: “Vai fundo e acredite em você”.

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Natasha, de Vamp, permanece na memória do público

Um dos trabalhos mais lembrados da carreira de Claudia é Natasha, a vampira roqueira da novela Vamp, lançada pela TV Globo em 1991. Neste ano, a novela completa 35 anos, e a personagem continua sendo lembrada pelo público.

Para a atriz, a força da personagem está justamente na combinação de diferentes elementos. “A Natasha tinha muita personalidade. Ela era uma vampira, mas também tinha humor, sensualidade, música, um certo exagero, e tudo isso fazia parte daquele universo tão particular de Vamp”, afirma.

Claudia também destaca a relação afetiva que o público criou com a novela ao longo dos anos. “Muita gente que assistiu à novela quando era criança ou adolescente hoje vem falar comigo e contar que a Natasha fez parte de uma fase importante da vida. E é muito bonito perceber que uma personagem que fiz tantos anos atrás continua encontrando novas gerações. Para uma atriz, esse tipo de permanência é um presente”, diz.

O desafio de interpretar vilãs

As vilãs também ocupam um espaço importante na trajetória da atriz. Isabela, de A Próxima Vítima, e Tânia Flores, personagem que interpreta atualmente em Festa no Arraial, são exemplos de personagens bastante diferentes entre si.

O que me atrai nas vilãs é justamente a possibilidade de explorar lados que não necessariamente fazem parte de mim”, explica Claudia. Sobre Isabela, ela lembra: “Era uma mulher muito manipuladora, ambiciosa, que não media esforços para conseguir o que queria. Era uma personagem muito intensa e, ao mesmo tempo, complexa, porque por trás das atitudes dela existiam muitas camadas.”

Já Tânia Flores apresenta outro tipo de desafio. “Ela é uma vilã cômica, lúdica, cheia de personalidade, e encontrar esse equilíbrio entre o humor, o exagero e a verdade da personagem é um desafio delicioso”, conta.

A montagem também exige que a atriz una diferentes habilidades em cena. “Preciso deixar a Tânia ser quase farsesca em alguns momentos, mas sem perder a humanidade dela. E ainda tem o desafio de cantar, que traz uma outra camada para a interpretação.”

Para Claudia, justamente a ausência de uma fórmula torna esse tipo de personagem tão interessante. “Não existe uma fórmula para interpretar uma vilã. Cada personagem pede uma construção diferente, e é muito gostoso poder brincar com essas possibilidades.”

Uma nova forma de escolher personagens

Com o passar dos anos, a atriz também mudou a maneira como escolhe seus trabalhos. Hoje, diz estar mais seletiva e interessada em personagens que possam provocar algum tipo de descoberta.

Hoje sou uma mulher diferente e, por isso, a forma de escolher as personagens mudou. Sou mais seletiva e presto muita atenção no que aquela personagem desperta em mim e no que eu posso descobrir através dela. Quero personagens que me provoquem, que tenham alguma coisa para dizer e que me permitam experimentar”, afirma.

O desejo de continuar sendo provocada é justamente o que mantém sua curiosidade artística. Claudia procura personagens capazes de tirá-la da zona de conforto.

Quero personagens que me deem um pouco de medo. Quando leio alguma coisa e penso: ‘Será que eu consigo fazer isso?’, aí começo a me interessar”, revela.

Além de interpretar histórias escritas por outras pessoas, ela também pretende ampliar sua participação no processo criativo. “Também tenho uma vontade cada vez maior de criar minhas próprias histórias, de não ficar apenas esperando que alguém pense em um personagem para mim. Tenho ideias que quero desenvolver e histórias que quero contar.”

Novos trabalhos no cinema

A busca por novos desafios também aparece nos trabalhos recentes da atriz no cinema. No primeiro semestre de 2026, Claudia concluiu as gravações de A Grande Virada, longa dirigido por Halder Gomes, no qual interpreta uma dominatrix. O filme conta ainda com Fernando Caruso, Estevam Nabote, Silvero Pereira e Diego Cruz no elenco.

No mesmo período, ela gravou a comédia romântica Não Me Lembro, dirigida por Fábio Flecha e filmada no Mato Grosso do Sul. Na produção, Claudia interpreta Débora Angelina, uma atriz excêntrica e espalhafatosa que se envolve em uma situação inusitada.

A atriz também deixa claro que não pretende diminuir o ritmo. “Quero continuar cantando, fazendo teatro, cinema, televisão. Não sinto que estou numa fase de conclusão da minha carreira, muito pelo contrário. Estou numa fase de muita curiosidade.”

Foto: Vinícius Mochizuki | Beleza: Ewertton Alves | Stylist: GARANDRA
Foto: Vinícius Mochizuki | Beleza: Ewertton Alves | Stylist: GARANDRA

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Família e a passagem do tempo

Fora dos palcos e das telas, Claudia também atribui um significado especial aos papéis de mãe e avó. Ela é mãe de Dandara Guerra e avó de Martim e Arto. Segundo a atriz, essas experiências mudaram sua percepção sobre o tempo.

Ser mãe e avó me fizeram enxergar o tempo de uma maneira muito diferente. Fui mãe muito jovem, aos 20 anos, então, de certa forma, eu e a Dandara crescemos juntas. Hoje olho para ela, para a mulher que ela se tornou, e sinto um orgulho enorme”, conta.

A chegada dos netos trouxe uma experiência diferente. “Ser avó é uma experiência completamente diferente. O Martim e o Arto trouxeram uma outra dimensão de amor e também uma percepção muito concreta da passagem do tempo.

Apesar da passagem dos anos, Claudia diz não enxergar esse processo com tristeza. “Você olha e pensa: ‘Meu Deus, minha filha cresceu, meus netos estão crescendo… e eu estou aqui vendo tudo isso acontecer.’ E não vejo isso com tristeza. Existe algo muito bonito nessa continuidade da vida.

Envelhecer como privilégio

A relação com o tempo também está presente na forma como Claudia encara o envelhecimento. A atriz é uma defensora de uma visão menos limitada sobre a passagem dos anos e costuma se posicionar contra o etarismo.

Eu vejo o envelhecimento como um privilégio. Tenho orgulho da minha idade. Também gosto de provocar uma reflexão sobre a palavra ‘velha’, que durante muito tempo foi usada de forma pejorativa para as mulheres. Para mim, ela pode ser sinônimo de experiência, liberdade e potência”, afirma.

A postura se conecta diretamente com a maneira como Claudia enxerga sua carreira atualmente: não como uma trajetória encerrada, mas como uma história que ainda pode ganhar novos capítulos.

Foto: Divulgação/Vinícius Mochizuki
Foto: Divulgação/Vinícius Mochizuki

O que ainda vem pela frente

Mesmo depois de mais de quatro décadas dedicadas à arte, Claudia mantém uma lista de sonhos profissionais. Entre eles estão continuar atuando, cantar mais e desenvolver projetos próprios.

Tenho muitos. Acho que esse é o mais bonito de estar há tantos anos trabalhando: ainda tenho vontade de fazer coisas que nunca fiz. Quero continuar encontrando personagens que me desafiem, fazer teatro, cinema, televisão e também cantar mais.”

Ela também deseja experimentar formatos diferentes e não se prender às expectativas associadas à idade ou ao tempo de carreira.

Tenho vontade de criar minhas próprias histórias, desenvolver projetos que tenham a minha cara e poder contar histórias que ainda não foram contadas por mim. Além disso, gostaria de me permitir experimentar formatos diferentes, sem ficar presa a uma ideia do que uma atriz com 44 anos de carreira deveria ou não fazer.”

Ao olhar para o futuro, Claudia resume o que pretende preservar acima de tudo: a curiosidade. “Meu maior sonho é continuar tendo espaço para essa curiosidade. Enquanto eu tiver vontade de criar, experimentar e me colocar em situações novas, vou sentir que ainda tenho muito para viver artisticamente.”

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