Entre exames, metas de emagrecimento e inúmeras tentativas frustradas, muitos pacientes chegam ao consultório carregando algo que a balança não consegue medir: culpa, medo e anos de julgamento. É justamente nesse ponto, onde ciência e experiência de vida se encontram, que Carolina Petry constrói sua atuação como endocrinologista em Porto Alegre (RS).

Para ela, tratar obesidade vai muito além da perda de peso. Significa compreender histórias, acolher diferentes realidades e lembrar que, antes do diagnóstico, existe uma pessoa tentando recuperar saúde, autoestima e qualidade de vida.

Uma escolha guiada pela curiosidade

O interesse pela Medicina surgiu ainda na adolescência, impulsionado pela curiosidade sobre o funcionamento do corpo humano. As aulas de biologia despertavam entusiasmo, assim como os temas ligados à nutrição e ao metabolismo. A convivência com médicos da família materna ajudou a aproximar esse universo, mas a decisão profissional aconteceu de forma gradual, consolidando-se durante a graduação na Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA).

“Eu sempre tive interesse em entender como o corpo humano funcionava. Gostava de biologia, me aproximava dos temas ligados à nutrição e, quando chegou o momento de escolher uma faculdade, a Medicina passou a fazer sentido para quem eu era naquele momento”, relembra.

Uma trajetória construída pelo conhecimento

Ainda na faculdade, Carolina encontrou na Endocrinologia a especialidade que reunia os temas que mais despertavam seu interesse. Participou de grupos de pesquisa em neuroendocrinologia ligados à Santa Casa de Porto Alegre, realizou iniciação científica, atuou como monitora e aprofundou seus estudos na área.

Depois vieram as residências em Clínica Médica, Endocrinologia e Metabologia e Endocrinologia Pediátrica. A busca constante por atualização seguiu com o mestrado e o doutorado em Patologia, concluído em 2024, além de uma formação complementar em transtornos alimentares, que ampliou seu olhar sobre comportamento alimentar, saúde mental e obesidade.

“Aprender nunca é demais. Cada etapa soma à forma como eu enxergo o paciente. A Medicina muda, os tratamentos evoluem e precisamos continuar estudando para oferecer um cuidado responsável.”

A médica que também conhece a doença

Hoje, a obesidade ocupa lugar central em sua prática clínica. A escolha é resultado da formação acadêmica, mas também de uma vivência pessoal.

Carolina se apresenta como endocrinologista e também como paciente com obesidade. Para ela, essa experiência não a torna uma profissional melhor, mas ajuda a construir uma relação de confiança com muitos pacientes que chegam ao consultório marcados por experiências negativas.

“Eu não me considero uma médica melhor por também passar por isso. Tenho colegas excelentes, extremamente empáticos, que nunca tiveram excesso de peso. Mas percebo que muitos pacientes se sentem mais seguros para falar quando entendem que eu também enfrento esse processo.”

Segundo ela, a obesidade ainda é frequentemente reduzida à falta de disciplina ou de força de vontade, quando, na realidade, trata-se de uma doença crônica e multifatorial, influenciada por fatores biológicos, genéticos, ambientais, emocionais e comportamentais.

Muito além da balança

No consultório, Carolina recebe pacientes que já passaram por inúmeras dietas, tratamentos e cobranças. Muitos chegam cansados de ouvir orientações simplistas para um problema extremamente complexo.

Por isso, antes de qualquer prescrição, ela procura construir um ambiente onde o paciente possa falar sem medo de julgamentos.

A avaliação vai muito além do peso e do índice de massa corporal (IMC). Inclui composição corporal, distribuição da gordura, qualidade do sono, rotina, doenças associadas, saúde mental e a relação que cada pessoa construiu com a alimentação ao longo da vida.

“A obesidade não é uma falha de caráter. É uma doença que pode trazer outras doenças ao longo do tempo. Quando o paciente diz que os exames estão normais, é importante lembrar que eles estão normais agora. O cuidado também existe para prevenir o que pode aparecer depois.”

Com essa abordagem, o foco deixa de ser apenas um número na balança e passa a incluir mobilidade, energia, preservação da massa muscular, qualidade de vida e autonomia.

A relação entre comida, corpo e emoções

A formação em transtornos alimentares acrescentou uma nova dimensão à forma como Carolina conduz seus atendimentos.

Ela explica que nem todo excesso alimentar representa compulsão, mas todo sofrimento relacionado à alimentação merece atenção.

Em muitos casos, pacientes com obesidade já passaram por dietas extremamente restritivas, episódios de culpa ou até transtornos alimentares em outras fases da vida.

“Compulsão alimentar não é simplesmente comer demais. É preciso entender critérios, sofrimento e história. Às vezes, uma pessoa que hoje vive com obesidade já enfrentou anorexia ou outro transtorno no passado, e esse dado muda completamente o cuidado.”

A endocrinologista também chama atenção para o papel da família durante o tratamento. Comentários sobre peso, cobranças constantes e vigilância sobre a alimentação podem aumentar o sofrimento e dificultar a adesão ao acompanhamento. Para ela, apoiar significa criar um ambiente acolhedor, e não reforçar a culpa.

Tecnologia como aliada, não como solução

Os novos medicamentos para obesidade mudaram o cenário da Endocrinologia e fazem parte da rotina clínica da especialista. Ainda assim, Carolina evita tratá-los como soluções milagrosas.

Ela reconhece que essas medicações representam um importante avanço científico e podem auxiliar no controle da fome e da saciedade quando bem indicadas, mas reforça que nenhum tratamento funciona isoladamente.

“O tratamento da obesidade não é uma corrida contra o tempo. O paciente tem o direito de querer melhorar, mas precisa compreender que falamos de uma doença crônica, que exige acompanhamento, ajustes e continuidade.”

Entre os recursos utilizados durante o acompanhamento está a bioimpedância, exame que permite avaliar composição corporal, percentual de gordura, massa muscular e distribuição de líquidos.

Mesmo assim, Carolina faz questão de lembrar que nenhum exame substitui uma boa conversa.

“Cada paciente chega com uma realidade diferente. Eu procuro encontrar caminhos possíveis dentro daquela vida, porque uma proposta que não conversa com a rotina da pessoa dificilmente será mantida.”

Ciência, pesquisa e o futuro da Endocrinologia

A pesquisa continua ocupando espaço importante em sua trajetória. Depois da conclusão do doutorado, Carolina pretende ampliar sua atuação acadêmica, investigando questões que surgem da prática clínica e que possam contribuir para melhorar o tratamento da obesidade e das doenças metabólicas.

Ao olhar para o futuro da Endocrinologia, ela celebra o avanço das novas terapias, mas acredita que o maior desafio ainda é ampliar o acesso da população aos tratamentos.

Outro tema que desperta sua atenção é o crescimento da obesidade infantil. Para a médica, hábitos familiares, alimentação equilibrada e atividade física precisam ser incentivados desde cedo, sempre como estratégias de promoção da saúde, e não apenas da estética.

Um cuidado construído sem culpa

O que marca a trajetória de Carolina Petry não é apenas uma sólida formação acadêmica. É a forma como ela une conhecimento científico, experiência pessoal e escuta acolhedora para cuidar de uma doença ainda cercada por preconceitos.

Sua atuação parte da Endocrinologia, mas alcança questões que envolvem autoestima, comportamento alimentar, saúde mental, relações familiares e qualidade de vida.

No consultório, ela não promete resultados imediatos nem soluções milagrosas. Prefere construir caminhos possíveis, respeitando o tempo e a realidade de cada paciente.

“Não desista. A obesidade é uma doença crônica, com fases de melhora e de piora. Sempre é possível recomeçar, ajustar o caminho e buscar ajuda. Eu gosto de pensar que estou ali para dividir esse peso com o paciente”, finaliza.

CRM: 32061/RS | RQE 25332 | RQE Nº: 28442 | RQE Nº: 25098

Instagram: @endocrinocarolinapetry

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