O influenciador sobre aviação Lito Sousa foi diagnosticado com a doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ), uma das doenças mais raras e intrigantes da medicina, e o caso dele trouxe questionamentos sobre a condição, que age rapidamente. Para explicar o que a ciência já conhece sobre a enfermidade, o médico Dr. Pedro Andrade, que é namorado da cantora Sandy, concedeu uma entrevista exclusiva à CARAS Brasil.

O especialista, que é médico, pesquisador e doutorando em Genômica pela USP, fundador do Instituto Genoma e coordenador de pós-graduação em Medicina de Precisão, falou sobre o mecanismo da doença, a velocidade de sua evolução, as possíveis causas, a ausência de um tratamento comprovado e as pesquisas que podem abrir novos caminhos para pacientes diagnosticados com a condição.

O que é a doença de Creutzfeldt-Jakob?

A doença de Creutzfeldt-Jakob é uma das doenças mais raras e intrigantes da medicina. Ela acomete aproximadamente uma ou duas pessoas a cada milhão por ano e provoca uma degeneração extremamente rápida do cérebro”, disse o médico. Segundo ele, a doença está relacionada ao comportamento anormal de uma proteína presente no sistema nervoso.

O que sabemos é que existe uma proteína chamada PrP, codificada pelo gene PRNP e encontrada principalmente no sistema nervoso. Na doença priônica, essa proteína assume uma conformação diferente da normal. E essa proteína mal dobrada consegue favorecer que outras proteínas normais também mudem de forma.

Para explicar o processo, Pedro Andrade utiliza uma comparação. É como um efeito dominó molecular. As proteínas anormais começam a se acumular, os neurônios perdem sua função e morrem.

Quais são as causas da DCJ?

A doença pode surgir por diferentes mecanismos, mas a maioria dos casos não está relacionada a uma alteração genética conhecida ou a uma fonte identificável de contaminação. “Existem diferentes formas de chegar a esse processo. Em uma pequena parcela dos casos, existe uma alteração genética no PRNP, que pode ser transmitida entre gerações. Existem também formas adquiridas extremamente raras, historicamente relacionadas a determinados procedimentos médicos, além da variante associada à chamada doença da vaca louca“, contou.

O médico destaca que a maior parte dos diagnósticos pertence à forma esporádica da doença. “Mas a grande maioria dos casos é esporádica. Nessas pessoas, geralmente não encontramos uma mutação hereditária que explique a doença, não encontramos uma fonte conhecida de contaminação e muitas vezes não existe histórico familiar. Em algum momento, uma proteína que havia convivido normalmente com aquele cérebro durante décadas muda sua conformação e inicia essa reação em cadeia.

Por que a doença evolui tão rapidamente?

A velocidade da progressão da DCJ está diretamente relacionada ao mecanismo dos príons, segundo o especialista. A velocidade da doença está relacionada ao próprio mecanismo dos príons. A proteína mal dobrada encontra uma proteína normal e favorece que ela também mude de forma. Esta encontra outra. Depois outra. É uma espécie de efeito dominó molecular.

As proteínas anormais começam a se acumular, os neurônios perdem sua função e morrem. E isso ajuda a explicar uma das características mais dramáticas da doença: sua velocidade.

O envelhecimento também é apontado como um aspecto importante para compreender a forma esporádica da enfermidade. “Existe também uma questão importante relacionada ao envelhecimento. A DCJ esporádica aparece principalmente na segunda metade da vida, com maior incidência em pessoas mais velhas.

Mas ainda existe uma pergunta sem resposta sobre o motivo pelo qual a proteína passa a apresentar comportamento anormal depois de décadas. “E isso nos leva a uma pergunta: por que uma proteína que funcionou durante 40, 50 ou 60 anos começaria a se comportar de maneira diferente justamente então? Nós ainda não sabemos.

O que o envelhecimento tem a ver com a doença?

O médico explica que o próprio processo de envelhecimento pode afetar os mecanismos responsáveis pela manutenção das proteínas no organismo. “Mas sabemos que envelhecer também significa modificar nossa capacidade de manter proteínas funcionando corretamente. Nossas células possuem um sistema de controle de qualidade chamado proteostase. Chaperonas moleculares ajudam proteínas a se dobrarem, proteassomas destroem algumas das defeituosas, e autofagia e lisossomos reciclam componentes celulares. Talvez parte da vulnerabilidade do cérebro envelhecido esteja justamente aí.

Existe tratamento para a doença de Creutzfeldt-Jakob?

Atualmente, a medicina ainda não dispõe de um tratamento comprovado capaz de interromper a doença. Hoje, infelizmente, não existe tratamento comprovado capaz de interromper a DCJ. O cuidado continua sendo principalmente de suporte.”, contou o especialista.

Apesar disso, existem pesquisas que tentam combater a doença de uma maneira diferente: reduzindo a quantidade da proteína normal que pode ser convertida em sua forma patológica. “Mas existe uma perspectiva importante na pesquisa. Durante muito tempo, tentamos combater a proteína depois que ela já havia se tornado patológica. Agora, pesquisadores estão tentando retirar aquilo de que ela precisa para continuar se propagando: a própria PrP normal.

Uma das estratégias experimentais citadas pelo especialista é o ION717. “Uma das estratégias experimentais é o ION717, que utiliza oligonucleotídeos antisenso. A ideia é reduzir a produção da PrP normal.” O médico utiliza uma comparação para explicar como essa estratégia funciona: “É como entrar em uma fábrica e, em vez de recolher milhares de produtos depois de fabricados, reduzir as ordens enviadas para a linha de produção. Menos mensagem, menos PrP, menos combustível.

Outra possibilidade investigada utiliza RNA de interferência. “Outra abordagem utiliza RNA de interferência, com uma lógica semelhante: reconhecer a mensagem do PRNP e destruí-la antes que seja utilizada.

Apesar das perspectivas, o especialista ressalta que ainda não é possível afirmar que essas estratégias serão eficazes. “São estratégias fascinantes, mas ainda experimentais. Nós ainda não sabemos se conseguirão mudar significativamente a história da doença em humanos.

Por que o diagnóstico precoce é um desafio?

Para o médico, o momento em que a doença é identificada representa uma dificuldade importante para o desenvolvimento de tratamentos. E talvez o desafio maior seja o tempo. Quando os sintomas aparecem, muitos neurônios já foram comprometidos.

A possibilidade de atuar antes do surgimento dos sintomas ganha especial importância nos casos em que existe uma mutação genética conhecida. “Nas famílias em que existe uma mutação conhecida no PRNP, surge uma possibilidade extraordinária para o futuro: intervir antes do primeiro sintoma. Talvez a medicina do futuro não tente reconstruir um cérebro depois que milhões de neurônios foram perdidos. Talvez tente impedir que eles sejam perdidos. E essa talvez seja uma das perspectivas mais importantes da pesquisa atual”, afirmou o Dr. Pedro Andrade.

É possível prevenir a doença?

No momento, não existe uma maneira comprovada de prevenir a forma esporádica da DCJ. “Hoje, nós não temos uma forma comprovada de prevenção para a DCJ esporádica. Não existe evidência de que determinado alimento, toxina, estilo de vida ou exposição seja responsável pela doença. O especialista também chama atenção para o significado do termo “esporádica”. “É importante sermos humildes diante disso. O fato de um caso ser chamado de ‘espontâneo’ não significa necessariamente que não exista uma causa. Pode simplesmente significar que a causa ainda nos escapa.

“Existe um conceito relativamente novo na medicina, o expossoma. Se o genoma é o conjunto de genes que recebemos ao nascer, o expossoma é a história que vamos escrevendo sobre essa biologia. Ele reúne as exposições acumuladas durante a vida: alimentação, atividade física, poluição, infecções, medicamentos, tabagismo, ambiente ocupacional, metabolismo e inúmeras outras experiências biológicas. Essas exposições podem influenciar inflamação, metabolismo, mitocôndrias, estresse oxidativo e mecanismos envolvidos na manutenção das proteínas. Isso significa que o expossoma causa Creutzfeldt-Jakob? Não. Pelo menos não podemos afirmar isso. A epigenética também entra como uma possibilidade interessante. É plausível imaginar que alterações regulatórias possam influenciar a produção da PrP ou os sistemas celulares responsáveis por sua manutenção. Mas, novamente: plausibilidade não é causalidade. Talvez genética, envelhecimento, epigenética e ambiente conversem entre si de maneiras que ainda não conseguimos enxergar”, refletiu.

Como proporcionar qualidade de vida ao paciente?

Diante da inexistência de um tratamento capaz de interromper a doença, o cuidado de suporte permanece fundamental. “Hoje, como não existe tratamento comprovado capaz de interromper a doença, o cuidado é principalmente de suporte.

O médico também destaca a importância de reconhecer que ainda existem questões científicas sem resposta. “O mais importante é compreender que ainda existem muitas perguntas em aberto e que a pesquisa continua tentando entender o que inicia esse processo e como ele pode ser interrompido.

Para o especialista, justamente a busca por respostas pode transformar a maneira como a medicina enfrenta a doença no futuro.

“A DCJ ainda guarda perguntas que a medicina não consegue responder. E talvez essa seja justamente uma de suas maiores lições: não precisamos esperar conhecer todas as causas do amanhã para começar a cuidar melhor da biologia que estamos construindo hoje”, finalizou o doutor.

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