Médica avalia desabafo de Carolina Ferraz: ‘Precisamos ressignificar o envelhecimento’
Em entrevista à CARAS Brasil, a geriatra Roberta França analisa o impacto do etarismo na autoestima feminina após ataques sofridos por Carolina Ferraz

Aos 57 anos, Carolina Ferraz virou alvo de críticas ao compartilhar um vídeo sem filtros mostrando sua rotina de skincare. Em vez de se abater, a apresentadora respondeu com firmeza, mostrando confiança e autoestima. “Com vocês não rolava nem um lanchinho”, disparou para homens que a chamaram de “velha” e “feia”. A declaração viralizou e reacendeu um debate necessário: por que mulheres que envelhecem ainda enfrentam tanto julgamento?
Em entrevista à CARAS Brasil, a geriatra Roberta França analisou o impacto que esse tipo de crítica tem sobre a autoestima feminina, principalmente em uma sociedade que envelhece, mas segue presa a padrões antiquados.
Por que o envelhecimento feminino ainda é alvo de julgamento?
Mesmo diante de avanços sociais e do envelhecimento crescente da população brasileira, o olhar para as mulheres maduras ainda é marcado por preconceitos profundos. Segundo a geriatra, esse tipo de ataque tem raízes em uma lógica machista e desigual.
“Apesar de vivermos num país que envelhece, de um mundo que envelheceu, nós ainda temos essas críticas sociais abusivas e inapropriadas e indescritíveis, principalmente levadas às mulheres”, aponta a especialista.
A médica destaca o peso dos estereótipos que associam o envelhecimento feminino à decadência e o masculino ao charme:
“Dificilmente a gente vê um homem ser chamado de feio, de velho, de passado, de ultrapassado. O cabelo branco no homem é entendido como charme, o cabelo branco na mulher, entendido como desleixo. As rugas no homem são sinais de autoridade, são sinais de um homem empoderado, um homem que soube envelhecer. As rugas nas mulheres é tido como aquela mulher que envelheceu mal, que está feia, velha e acabada”, afirma.
Autoestima é construção interna
Para a especialista, a chave para enfrentar esse julgamento externo é fortalecer o autovalor: “Ainda falamos de uma sociedade machista, onde a autoestima dessa mulher precisa ser de dentro para fora. Porque se nós formos nos pautarmos na fala do outro, no entendimento do outro e no julgamento do outro, nós vamos cada vez nos sentirmos mais inadequadas socialmente”, explica.
Ela reforça que o processo de envelhecer deve ser naturalizado e ressignificado: “Entender a autoestima como sendo necessária, entender o seu autovalor como sendo fundamental para que essas críticas não te alcancem do jeito ruim, porque o outro tem o direito de falar o que ele quiser, por pior que seja, mas como eu vou receber isso e como eu vou ressignificar isso, é uma outra história. E isso as mulheres têm feito de uma forma muito positiva, a grande maioria delas”, analisa.
O envelhecimento é para todos
A médica também chama atenção para a hipocrisia presente no julgamento de figuras públicas: “Envelhecer faz parte da história. Pronto, acabou. Isso a gente não vai mudar. O que a gente precisa é ressignificar a forma como a gente entende o envelhecimento”, diz.
Ela conclui com uma provocação importante: “É muito interessante porque quantas vezes diante dos artistas, principalmente, que são pessoas em exposição constante, você olha para um artista que você acompanha há muito tempo e fala, nossa, como ele envelheceu. Mas se você o acompanha e você percebe que ele envelheceu, você precisa se olhar no espelho, porque o envelhecimento foi para ele e foi para você também. Os mesmos anos que passaram para ele, também passaram para você. Então, olha como a gente muitas vezes aponta o dedo para o outro e esquece de olhar para nós mesmos e entendermos que esse processo de envelhecimento, quando acontece para o outro, acontece para mim”.
Leia também: Carolina Ferraz revela por que decidiu se afastar das novelas