A atriz Letícia Spiller (53) chamou a atenção nas redes sociais ao compartilhar momentos de sua rotina de exercícios físicos. Ao destacar a importância da frequência e da qualidade dos treinos, mesmo quando realizados em períodos mais curtos, a artista trouxe à tona uma questão importante: como manter o corpo ativo sem transformar o autocuidado em uma obrigação desgastante?

Mais do que uma preocupação com a aparência, a atividade física após os 50 anos pode contribuir para a preservação da força muscular, da mobilidade e da independência ao longo do envelhecimento. A construção de hábitos saudáveis também está relacionada ao bem-estar emocional e à qualidade de vida nas próximas décadas.

Para entender como estabelecer uma rotina sustentável e quais são os benefícios da constância nos exercícios, a CARAS Brasil conversou com a médica especialista em Longevidade Consciente e Saúde Mental Roberta França. A profissional explica por que pequenas mudanças podem fazer diferença e alerta para os riscos de transformar a busca pela longevidade em uma cobrança pela juventude.

Letícia Spiller mostra casa nova — Foto: Reprodução/Instagram
Letícia Spiller — Foto: Reprodução/Instagram

Exercícios físicos após os 50 anos ajudam a preservar a autonomia

De acordo com Roberta França, a prática regular de exercícios ganha um significado ainda mais importante com o passar dos anos. A prioridade deixa de estar concentrada apenas na aparência e passa a envolver a preservação das capacidades necessárias para realizar as atividades cotidianas com independência.

“Depois dos 50 anos, a atividade física deixa cada vez mais de ser uma questão de estética e passa a ser literalmente investimento em autonomia. A gente não está falando que exercitar apenas o corpo que a gente tem hoje para esteticamente ficar bem, mas é para preservar força, mobilidade e equilíbrio. É isso que vai gerar independência para o corpo que a gente vai ter aos 60, aos 70 ou aos 80 anos“, explica.

A médica ressalta que a regularidade é um dos pontos centrais desse processo. Em vez de concentrar os esforços em atividades intensas realizadas esporadicamente, o ideal é construir hábitos que possam ser mantidos ao longo do tempo.

“O organismo responde muito mais àquilo que a gente faz de forma repetitiva ao longo do tempo do que a grandes esforços realizados de uma maneira esporádica ou eventualmente. A atividade física regular ajuda a preservar massa e força muscular, saúde óssea, cardiovascular, capacidade funcional e, principalmente, o equilíbrio“, afirma.

Segundo Roberta, os benefícios também alcançam outras áreas da saúde. “Também a gente não pode esquecer dos benefícios para o sono, para a cognição, para o humor, para a redução de sintomas depressivos, de ansiedade, de insônia”, acrescenta.

Nesse contexto, a longevidade consciente envolve pensar não apenas nas condições físicas atuais, mas também nos hábitos que podem favorecer a saúde no futuro.

“Por isso, dentro da longevidade consciente, eu gosto muito de mudar a pergunta para o paciente. Em vez de pensar apenas como eu quero estar fisicamente agora, eu preciso pensar que corpo eu estou construindo hoje para sustentar a minha velhice, o que vai ser daqui a 10, 20 ou 30 anos“, destaca.

Leticia Spiller - Fotos: Reprodução/Instagram
Leticia Spiller – Fotos: Reprodução/Instagram

Treinos curtos também podem fazer parte de uma rotina saudável

A rotina corrida é um dos obstáculos para quem deseja começar a se exercitar ou manter a frequência dos treinos. No entanto, Roberta França alerta que a busca por uma rotina perfeita pode acabar impedindo o início de mudanças importantes.

“Existe uma armadilha muito comum quando a gente está pensando em autocuidado, que é acreditar que, se a gente não conseguir fazer tudo perfeito, é melhor a gente nem começar. E isso é o maior erro que a gente pode cometer. Nem todo treino precisa ser longo e extenuante. Você não está treinando para ser um atleta olímpico. Uma caminhada, alguns minutos de exercício em casa ou um treino mais curto também contam“, explica.

Para a especialista, o segredo está em estabelecer uma rotina compatível com a realidade de cada pessoa. A recomendação é evitar metas difíceis de cumprir e avançar gradualmente, respeitando as próprias condições físicas.

“O mais importante é construir uma rotina possível. É você criar uma rotina com possibilidade. Quanto mais você cria dificuldades e empecilhos, menos você consegue manter. Inclusive, para quem está sedentário, começar um pouquinho e progredir aos poucos é muito mais sustentável do que tentar estabelecer uma rotina megaextenuante, megaintensa, com milhões de dificuldades que certamente você vai abandonar em poucos dias ou em poucas semanas“, afirma.

A médica também lembra que a saúde não depende exclusivamente dos exercícios. Sono adequado, alimentação equilibrada, descanso, lazer e relações afetivas fazem parte de um conjunto de cuidados que contribuem para o bem-estar.

“Mas o exercício é apenas uma parte do cuidado. A gente precisa pensar no sono adequado, na alimentação, no descanso, nas relações afetivas, no lazer, em momentos em que a gente não precisa estar o tempo todo também produzindo. Isso também faz parte da saúde“, pontua.

Roberta ainda faz um alerta sobre a maneira como o autocuidado é encarado no dia a dia.

“Autocuidado não deveria se transformar em mais uma lista, sabe, de obrigação, aquele checklist que você tem que fazer, mas, inclusive, quando você gera isso, você acaba se sentindo culpado quando não consegue cumprir. Não é essa a ideia. A melhor rotina não é necessariamente aquela megaintensa, megaextenuante, aquela em que você não tem hora para nada. É aquela que cabe na sua vida real e que, principalmente, você consegue manter e sustentar“, completa.

Letícia Spiller
Letícia Spiller – Foto: Reprodução/Instagram

Longevidade consciente não significa lutar contra o envelhecimento

Em uma sociedade que valoriza a aparência jovem, cuidar da saúde pode se confundir com a pressão para esconder os sinais da idade. Para Roberta França, entretanto, é fundamental distinguir a busca por qualidade de vida do medo de envelhecer.

“Essa diferença é fundamental. Longevidade não é uma guerra contra o envelhecimento. A gente não tem que trabalhar antienvelhecimento. Envelhecer é um processo, é biológico e é inevitável. O que a gente pode construir é a maneira como chegaremos às próximas décadas da nossa vida“, afirma.

A especialista explica que existe uma diferença entre adotar hábitos saudáveis para preservar a autonomia e transformar a aparência em uma preocupação permanente. Quando o cuidado passa a ser motivado pelo medo de parecer mais velho, a relação com o próprio corpo pode se tornar fonte de ansiedade e insatisfação.

“Existe uma diferença enorme entre cuidar do corpo para preservar a saúde, a força, a autonomia, a qualidade de vida e cuidar dele movido pelo medo de parecer mais velho. Quando o exercício, a alimentação e o procedimento deixam de ser escolha de cuidado e passam a ser instrumento de vigilância permanente, quase uma autopunição pelo medo de parecer mais velho, esse autocuidado se transforma em ansiedade, em comparação e insatisfação permanente“, alerta.

Para a médica, uma mudança de perspectiva pode ajudar a tornar essa relação mais saudável. Em vez de concentrar os esforços em parecer jovem, a proposta é refletir sobre as condições em que se deseja chegar às próximas fases da vida.

“A mudança mais importante é justamente a gente não perguntar como eu faço para parecer menos velho ou como eu faço para parecer menos velho, que eu não estou envelhecendo, e começar a perguntar como é que eu quero realmente envelhecer, em que condições eu quero envelhecer. E, para mim, é isso. Essa longevidade consciente que eu tanto falo é você não lutar contra a idade, porque o envelhecer faz parte da vida, mas é construir essa capacidade física e, principalmente, emocional de viver dentro desse envelhecimento. Eu acho que isso é o mais importante”, conclui.

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