Alessandra Aires Landin, conhecida artisticamente como Lellê (29), construiu uma trajetória marcada pela dedicação à arte e pela busca por espaço no cenário cultural brasileiro. Nascida na Praça Seca, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, a artista descobriu cedo que queria viver de música, dança e atuação, mesmo quando ainda não tinha condições financeiras para frequentar aulas ou investir em sua formação artística.

Com o passar dos anos, a carioca transformou o talento desenvolvido em casa em uma oportunidade profissional. Sua participação em um movimento cultural que ganhou força nas comunidades do Rio abriu portas para novos projetos, apresentações e trabalhos na televisão. Antes de alcançar o reconhecimento nacional, porém, ela precisou lidar com obstáculos que colocaram sua determinação à prova. Saiba mais sobre a trajetória de Lellê, desde os primeiros passos na dança até a consolidação de sua carreira artística.

Lellê começou a dançar ainda criança na Praça Seca

A história de Lellê com a dança começou muito antes de sua estreia na televisão. Em entrevista ao EGO, publicada em setembro de 2014, a artista contou que já dançava hip hop aos seis anos e começou a praticar o passinho aos 11. Sem condições financeiras para frequentar aulas de dança, canto ou teatro, ela desenvolveu suas habilidades com os recursos que tinha à disposição.

“Comecei a dançar hip hop quando tinha 6 anos, e com 11, comecei a dançar funk. Meu irmão de criação ia para um baile onde só iam dançarinos, os meninos iam para duelar, eu era muito nova e não podia ir. Então ele ia, aprendia tudo e me passava em casa, foi assim que aprendi o passinho”, relatou ao veículo.

A família teve papel importante nesse processo. Como a mãe não permitia que ela frequentasse os bailes por ser muito nova, o irmão de criação compartilhava em casa os passos que aprendia nas apresentações e disputas de dança.

Em entrevista ao Correio Braziliense, publicada em julho de 2016, a artista também recordou que sempre teve interesse por diferentes expressões artísticas. “Desde novinha eu falava que queria cantar, atuar e dançar”, afirmou.

Lellê

O preconceito que Lellê enfrentou no início da carreira

Um dos principais desafios da trajetória de Lellê foi conquistar espaço em um ambiente no qual os homens predominavam. Antes de se tornar conhecida nacionalmente, a artista enfrentou resistência por ser uma menina em um movimento de dança que, naquele momento, era associado principalmente aos dançarinos masculinos.

Em entrevista ao Gshow, publicada em junho de 2015, quando ainda era conhecida como Lellêzinha, ela falou abertamente sobre a experiência. “Sofri um pouco, porque esse era um movimento muito masculino”, declarou.

A cantora também explicou ao Correio Braziliense que sua presença nas competições provocava estranhamento entre os participantes. “Eu fui a primeira menina a entrar no movimento. Antes, o passinho era totalmente masculino em todas as comunidades”, relembrou.

Na mesma entrevista, ela contou que nem todos os meninos aceitavam perder as disputas para uma mulher. “Quando eu comecei teve um estranhamento. Havia muito preconceito. Nenhum garoto gostava de perder uma batalha de passinho para uma mulher“, afirmou.

Apesar das dificuldades, Lellê não desistiu da dança. Ela continuou praticando, aprimorando os movimentos e publicando vídeos na internet, até começar a conquistar reconhecimento entre os próprios participantes do passinho.

Como os vídeos na internet mudaram a vida da cantora

A internet teve papel decisivo na ascensão da artista. De acordo com o relato publicado pelo Gshow, os vídeos de suas apresentações ajudaram a divulgar seu talento e fizeram com que ela passasse a ser reconhecida nas comunidades cariocas.

“Isso fez com que eu passasse a ser reconhecida nas favelas do Rio. Fiquei famosa no movimento sem sair de casa“, recordou ao veículo.

Em entrevista ao EGO, Lellê explicou que as disputas também aconteciam virtualmente, com vídeos publicados e comentários sobre quem executava melhor os movimentos. A participação nas batalhas presenciais, primeiro no Cantagalo e depois no Morro da Formiga, ampliou seus contatos e contribuiu para que ela fosse descoberta.

Em 2013, a artista entrou para o Dream Team do Passinho, grupo que reuniu dançarinos e cantores ligados ao movimento. Segundo a entrevista publicada pelo Correio Braziliense em 2016, a formação ganhou impulso após a participação dos integrantes em um comercial da Coca-Cola, que alcançou grande repercussão na internet.

Lellê foi a única menina selecionada para integrar o grupo naquele momento. A oportunidade representou uma mudança importante em sua trajetória, levando a dança das comunidades cariocas a novos públicos.

Lellê e o Dream Team do Passinho – Foto: Marcos Mazini /Gshow

Do Dream Team do Passinho à televisão

A visibilidade conquistada com a dança abriu caminho para outras oportunidades profissionais. Em 2014, Lellê passou a integrar o elenco de Malhação, novela da TV Globo na qual interpretou Guta. A experiência marcou sua estreia na teledramaturgia e concretizou um desejo que cultivava desde criança.

Em entrevista ao EGO, a atriz contou que participou de testes para a produção e precisou se preparar para demonstrar suas habilidades diante da equipe responsável pela seleção. Ela também destacou que nunca havia feito teatro antes da oportunidade.

Entre 2015 e 2016, a artista integrou o elenco de Totalmente Demais, ampliando sua presença na televisão. Sua carreira também passou por produções como Vai que Cola, Segredos de Justiça e Mister Brau, conforme o histórico profissional reunido em sua biografia.

Na música, o Dream Team do Passinho conquistou projeção com trabalhos como De Ladin e Vida. Em 2017, o grupo se apresentou no Rock in Rio ao lado da cantora Alicia Keys, um dos momentos de destaque de sua trajetória.

A carreira solo e a construção de uma nova identidade

Depois de seis anos no Dream Team do Passinho, a artista começou a desenvolver sua carreira solo. Em 2018, lançou Nega Braba, faixa que também integrou a trilha sonora do filme Correndo Atrás. No ano seguinte, passou a assinar artisticamente como Lellê e lançou Mexe a Raba.

Em entrevista ao Gshow, a cantora refletiu sobre o aprendizado adquirido durante os anos no grupo e a importância daquela experiência para sua identidade artística.

“Acredito que a Lellêzinha foi uma escola, e o Dream Team do Passinho, aprendi muito sendo a única mulher do grupo, trabalhando duro e com dedicação. Isso me ajudou a ver a essência da Lellê, que é uma mulher mais madura, resultado de um trabalho de autoconhecimento”, avaliou.

A artista também fez questão de reconhecer a importância dos antigos companheiros para sua trajetória. Ao falar sobre a participação de Rafael Mike em Mexe a Raba, destacou: “É um pouco de reconhecimento e orgulho do que aconteceu. Eu não posso dizer que cheguei aqui sozinha“, refletiu.

O projeto solo também se tornou uma oportunidade para valorizar profissionais negros. Segundo a entrevista ao Gshow, Lellê participou da escolha do elenco e da equipe do videoclipe, além de colaborar com o roteiro, a direção, a caracterização e o figurino.

Lellê fala sobre racismo e representatividade

A experiência de enfrentar resistência no início da carreira também se conecta às reflexões da artista sobre racismo e representatividade. Em entrevista ao Correio Braziliense, em 2016, ela defendeu que ataques motivados por preconceito devem ser tratados com seriedade e mencionou a importância de recorrer à Justiça.

“O racismo é a pior coisa do mundo. Porque o racismo você não pode simplesmente pegar, tirar da pessoa e jogar no lixo. Ele está no coração, que é terra que ninguém pisa”, afirmou.

Na mesma conversa, Lellê explicou que procura avaliar o contexto antes de responder a ataques na internet. Para ela, a responsabilização de quem pratica discriminação é uma medida importante no enfrentamento ao problema.

A cantora também falou sobre a responsabilidade de servir de inspiração para outras jovens negras, especialmente aquelas que vivem em comunidades semelhantes àquela em que cresceu.

“Na verdade, nunca pensei que poderia me tornar uma inspiração com meu trabalho, com minha música. Hoje faço parte de uma linha de produtos para cabelos cacheados (o produto Cachos Poderosos, da Garnier). Isso é uma vitória muito grande. É um presente entender que eu posso representar a menina da favela, a menina pretinha… É uma vitória porque eu era essa menina que não podia falar nada, que não tinha representatividade. A vida me deu essa oportunidade e eu quero ter cabeça no lugar, zelar pela minha saúde mental e crescer”, declarou ao Correio Braziliense.

A Praça Seca continua presente na história de Lellê

Mesmo com a expansão de sua carreira, as origens continuam sendo parte importante da identidade da artista. Nascida e criada na Praça Seca, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, Lellê já declarou que mantém uma relação próxima com a família e com a comunidade em que cresceu.

Em entrevista ao Gshow, a cantora afirmou que procura preservar suas raízes e recorre ao convívio com amigos e familiares para manter a conexão com sua história.

“Eu tenho muito orgulho de tudo que aconteceu, que está acontecendo e que vai acontecer. Sou uma pessoa que zela muito pela minha verdade, pela minha raiz“, afirmou.

Ela também explicou que voltar aos bailes de favela é uma forma de se reconectar com suas origens e com o ambiente que contribuiu para sua formação artística.

“Faço um trabalho intenso para que isso não se perca: análise, autoconhecimento, estar com os meus amigos quando acho que estou muito distante, estar com a minha família. Vou no baile de favela de vez em quando para me energizar, para me lembrar de onde eu vim. Isso é o processo que me trouxe até aqui“, completou ao Gshow.

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