Não é raro abrir as redes sociais e se deparar com um artista, cantor ou influenciador contando uma crise de ansiedade, um episódio de pânico ou um período de esgotamento. Relatos como o de Millie Bobby Brown, Brad Pitt, Charli XCX, Lucas Lucco, Whindersson Nunes, entre outros, costumam gerar uma onda de identificação, e é justamente esse movimento que o psicanalista, escritor e pesquisador Lucas Lujan se propõe a explicar. Com mais de 280 mil seguidores nas redes sociais, o especialista transforma conceitos da psicanálise em reflexões acessíveis sobre ansiedade, amor e saúde emocional.
Mestrando em Psicologia Social pela PUC-SP, pós-graduado em Saúde Mental e membro de grupos de pesquisa vinculados à USP e à PUC-SP, ele explica que o motivo por trás dessa identificação é simples: as falas dos famosos rompem a fantasia de que sucesso, dinheiro e reconhecimento seriam capazes de blindar alguém do sofrimento.
“Quando uma pessoa extremamente bem-sucedida diz publicamente que sente ansiedade, depressão, medo ou esgotamento, alguma coisa dessa fantasia cai. Isso mostra que sofrimento psíquico não é sinal de fracasso moral, fraqueza ou incompetência. Pessoas que aparentemente ‘deram certo’ também sofrem”, explica.
Mas há uma camada ainda mais profunda nessa discussão, segundo o especialista. Vivemos, conforme ele, numa sociedade que promete felicidade e equilíbrio a quem administrar bem a própria vida, uma lógica que transforma cada indivíduo em uma espécie de “empresa de si mesmo”, responsável por gerir carreira, corpo, emoções, relacionamentos e produtividade o tempo todo.
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“Quando alguém que aparentemente cumpriu todo esse roteiro diz ‘eu também não estou bem’, talvez essa fala revele algo importante: não existe desempenho capaz de nos tornar imunes à condição humana”, pontua Lujan.
Conscientizar ou banalizar?
Se por um lado a exposição pública do sofrimento ajuda a quebrar tabus, por outro, o psicanalista chama atenção para um risco crescente de transformar a saúde mental em uma pauta banalizada ou até mesmo em um produto de consumo, com “diagnósticos rápidos, vídeos, técnicas, fórmulas de autocuidado e promessas de equilíbrio emocional”.
“Nem toda tristeza é depressão. Nem toda ansiedade diante de uma situação difícil constitui um transtorno de ansiedade. Nem todo cansaço é burnout”, reforça. Para o pesquisador, falar abertamente sobre o assunto continua sendo fundamental, foi o que permitiu que, depois de anos de silêncio e estigma, mais pessoas se sentissem autorizadas a buscar ajuda. O problema surge quando se acredita que apenas nomear o sofrimento já é suficiente para resolvê-lo.
A ansiedade da performance
Outro ponto central é o impacto da cultura da performance sobre o crescimento dos casos de ansiedade. Segundo Lujan, vivemos sob a exigência constante de “trabalhar mais, estudar mais, produzir mais, treinar mais, ganhar mais, viajar mais, parecer melhor”. Uma lógica que nunca chega a um ponto final, já que cada meta alcançada é imediatamente substituída por outra.
“Existe uma ansiedade produzida pela distância permanente entre quem somos e quem acreditamos que deveríamos ser”, diz o psicanalista, que também aponta as redes sociais como um fator de intensificação desse mal-estar. “Comparamos o nosso cotidiano inteiro com os melhores segundos da existência alheia.”
O papel do amor e do acolhimento
Diante desse cenário, que papel os vínculos afetivos podem cumprir? Lujan prefere falar em proteção, e não em prevenção, afinal, nenhuma relação torna alguém imune ao sofrimento. “Amar alguém não elimina ansiedade, depressão, luto ou conflitos”, diz. Mas os laços afetivos impedem que a dor seja atravessada em completa solidão. “Uma das funções mais bonitas do amor é não retirar o sofrimento, mas oferecer companhia enquanto ele existe.”
O acolhimento, segundo ele, também pode funcionar como fator de proteção, desde que não seja confundido com a pressa de oferecer soluções prontas. “Nossa primeira reação costuma ser: ‘faça isso’, ‘pense positivo’, ‘vai passar’, ‘você precisa reagir’. Às vezes fazemos isso porque o sofrimento do outro também nos angustia”, observa.
Conviver com a ansiedade, sem buscar a perfeição
Para o psicanalista, aprender a conviver com a ansiedade começa por um gesto simples, mas nada fácil em parar de tratá-la como sinônimo de fracasso. “A ansiedade também faz parte da experiência humana, aparece diante do desconhecido, das escolhas, das perdas, do desejo e daquilo que não conseguimos controlar”, afirma. O problema, segundo ele, é que vivemos numa cultura de baixíssima tolerância ao desconforto, que promete uma vida sem angústia, sem conflitos e completamente administrada.
“Amadurecer não significa eliminar toda ansiedade, mas aprender a distinguir aquela que conseguimos atravessar daquela que está nos impedindo de viver e exige ajuda profissional”, explica. E arremata com uma reflexão que atravessa também seu trabalho como escritor: “Não precisamos estar completos para viver.”
Relações mais saudáveis em tempos de pressa
Em Amar para não ser em vão, lançamento da Paidós (selo do Grupo Planeta), Lujan comenta como construir vínculos mais saudáveis em uma sociedade marcada pela cobrança constante. O primeiro passo, segundo ele, é retirar as relações da lógica da performance, hoje aplicada até aos relacionamentos, com a busca por parceiros “eficientes”, comunicação perfeita e ausência total de frustração.
O autor explica ainda os termos “amor nascente” e “amor poente”: o primeiro marcado pela idealização do outro como alguém capaz de suprir todas as faltas; o segundo, mais maduro, quando essa fantasia cai e é possível enxergar o outro como de fato ele é.
“Construir relações mais saudáveis pode ser aprender a fazer essa passagem: da posse para o cuidado, da completude para a companhia, da exigência para a negociação, da idealização para a alteridade”, resume. E isso, segundo ele, exige algo cada vez mais raro em uma sociedade acelerada: tempo.
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