Fiuk, de 35 anos, revelou recentemente que suspeita estar no espectro autista e chegou a iniciar uma investigação diagnóstica, mas não concluiu o processo por receio de ser visto de maneira diferente pelas pessoas próximas.

“Descobri, de uns anos para cá, que, possivelmente, eu sou do espectro autista. Ainda não tive coragem de fazer o diagnóstico. Eu comecei, mas não terminei. Porque eu tinha medo de as pessoas me olharem diferente”, afirmou o cantor e ator em um vídeo publicado nas redes sociais no dia 25 de agosto.

Segundo o neurologista Dr. Matheus Trilico, referência em TEA e TDAH em adultos, o relato do artista chama atenção para uma situação recorrente entre pessoas que suspeitam estar no espectro: o medo do diagnóstico e das consequências que ele pode trazer para as relações pessoais, profissionais e familiares.

Para o especialista, esse receio pode se tornar uma barreira quando impede o acesso a informações e suporte adequados. O Transtorno do Espectro Autista é uma condição do neurodesenvolvimento que exige critérios clínicos específicos, entre eles déficits persistentes na comunicação e interação social, padrões restritos e repetitivos de comportamento e prejuízos significativos em diferentes contextos da vida.

Camuflagem social pode causar exaustão

Ao falar sobre sua trajetória, Fiuk também relacionou a atuação à necessidade de esconder determinadas características desde a infância. “Eu acho que eu aprendi a atuar porque eu tinha que me comportar normalmente desde criança”, declarou.

Esse comportamento pode ser associado à chamada camuflagem social, caracterizada pelo esforço para esconder, modificar ou mascarar comportamentos com o objetivo de se adequar às expectativas sociais. Segundo Dr. Matheus Trilico, esse processo pode ter um custo importante para a saúde mental, já que exige esforço constante e pode estar relacionado a exaustão, ansiedade e depressão.

“O relato de Fiuk ilustra a sensação de passar a vida inteira interpretando um papel para se encaixar. O alívio de entender por que isso aconteceu é real, mas não deve ser confundido com a resolução dos prejuízos causados ao longo dos anos. A pessoa que camufla geralmente não consegue comunicar suas necessidades reais, o que gera colapsos internos invisíveis para quem está ao redor”, destaca o neurologista.

Medo e estigma podem atrasar diagnóstico

De acordo com o neurologista, muitos adultos chegam ao consultório após passarem anos ou até décadas sem compreender determinadas dificuldades enfrentadas ao longo da vida. O especialista destaca que o estigma ainda pode dificultar a investigação diagnóstica e fazer com que algumas pessoas abandonem o processo por medo de julgamentos ou mudanças na forma como são vistas.

Para ele, quando uma figura pública fala sobre o tema, surge também uma oportunidade para ampliar o acesso à informação de forma responsável, sem banalizar o diagnóstico.

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Suspeita não substitui avaliação médica

Dr. Matheus reforça que reconhecer características semelhantes às do espectro pode ser um ponto de partida, mas não é suficiente para estabelecer um diagnóstico. A avaliação deve envolver entrevista clínica detalhada, análise da história do desenvolvimento e investigação sobre possíveis prejuízos funcionais, além da exclusão de outras condições que podem apresentar características semelhantes.

O neurologista também alerta para a romantização do autismo nas redes sociais e para conteúdos que apresentam determinadas características apenas como habilidades ou “superpoderes”. “Essa narrativa de romantização invisibiliza o sofrimento real de adultos que enfrentam dificuldades em manter empregos e autonomia. Características como o foco intenso vêm acompanhadas de exaustão por hipervigilância e alterações sensoriais que interferem no cotidiano. O diagnóstico é uma ferramenta clínica para estratégias de melhora, não um rótulo identitário”, enfatiza Dr. Matheus.

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Para o especialista, a avaliação adequada pode ajudar a pessoa a compreender melhor o próprio funcionamento e a desenvolver estratégias para lidar com dificuldades de maneira mais saudável.

“O diagnóstico não muda quem a pessoa é, mas oferece uma lente para entender por que certas coisas sempre foram difíceis. A partir dessa compreensão, é possível construir estratégias que respeitem o funcionamento real do indivíduo, sem a necessidade de máscaras exaustivas”, conclui Dr. Matheus Trilico.

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