O estudo do comportamento humano faz parte da rotina de quem trabalha com atuação. Mas, às vezes, a pesquisa intensa para compor um personagem acaba esbarrando na própria vida pessoal. Durante a preparação para uma peça de suspense psicológico baseada no livro de Patricia Highsmith, um artista brasileiro precisou mergulhar fundo na mente de um jovem golpista. A história da obra acompanha um homem que é enviado à Itália para convencer um herdeiro rico a voltar para casa, mas que acaba roubando a identidade dele. O contato diário com esse material teórico fez com que o profissional revisse seu próprio passado amoroso e chegasse a uma conclusão curiosa: ele já havia se relacionado com perfis sociopatas.

Para entender como funciona a cabeça de alguém capaz de cometer crimes e viver uma mentira em tempo integral, o artista foi atrás de explicações da psicologia e notou diferenças importantes na forma como essas pessoas lidam com as próprias reações. Em entrevista ao programa semanal da coluna GENTE, da revista Veja, ele explicou que existe uma separação clara entre sentir e ter a emoção. O estudo mostrou a ele que o sociopata sente alegria e raiva, reage ao mundo e não é apático. A diferença real está na completa falta de empatia e na incapacidade de amar, criando o que ele chamou de uma “tentativa muito frustrada” de sentir algo verdadeiro pelos outros.

Foi ao analisar essa frieza de forma clínica que a ficha finalmente caiu para o primo do jornalista William Bonner. Aos 39 anos, com uma carreira sólida que transita entre o teatro e o audiovisual, o homem gay assumido que hoje dá vida ao golpista Tom Ripley nos palcos é Hugo Bonemer. “Você começa a lembrar de fulano, aí fala assim: ‘Nossa, realmente percebia que a pessoa não julgava muito a minha forma de sentir, não entendia o sentimento’”, revelou o ator à Veja. Ele deixou claro, no entanto, que a maioria das pessoas no mundo são funcionais e que não tenta dar diagnósticos médicos a ninguém, pontuando apenas que nunca cruzou com alguém no limite criminoso da condição.

Primo de William Bonner, Hugo Bonemer estreia na TV em 'Malhação'
Hugo Bonemer  – TV Globo

Vontade de aprender e os bastidores do cinema

Além de protagonizar peças de destaque, Hugo Bonemer mostra que não tem vaidade quando o assunto é aprender com os veteranos da área. O artista provou isso ao buscar de forma ativa um espaço no filme Velhos Bandidos, atualmente em cartaz nos cinemas. Ele contou no bate-papo, disponível no canal da VEJA+ no Youtube e em plataformas de streaming, que mandou mensagem direta para o produtor de elenco pedindo uma chance para atuar no longa.

A resposta inicial foi negativa, pois não havia papéis para o perfil dele. Porém, o ator argumentou que não precisava de falas ou de destaque. O seu único objetivo era ter a chance de respirar o mesmo oxigênio de ícones como Fernanda Montenegro e Ary Fontoura no set de gravação. Semanas depois, ele foi chamado para viver um bombeiro que apenas passa correndo pela cena, aceitando a missão na mesma hora.

O valor prático dos papéis menores

Essa visão pé no chão sobre a profissão vai além das telas e virou o tema de um novo projeto em desenvolvimento. Bonemer está criando um formato chamado Coadjuvantes, focado em valorizar os profissionais que constroem carreiras de sucesso fora da posição de protagonista. Ele defende que ser o personagem principal da trama é apenas um cargo passageiro na vida profissional.

Citando nomes respeitados no mercado, como Augusto Madeira e Marcelo Vale, ele destacou que muitos artistas geniais passam a vida toda fazendo papéis de apoio que são essenciais para as obras.

Para encerrar o assunto de forma bem realista, o ator lembrou que, apesar do papel principal trazer mais dinheiro e reconhecimento, a pressão sobre o coadjuvante é bem menor. Para ele, recusar bons trabalhos apenas por achar que o papel não tem tamanho suficiente é um erro. Afinal, atuar é um ofício diário e, no fim do mês, todo trabalhador tem boletos para pagar.

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