‘A volta para música é uma necessidade de obedecer à minha alma’, diz Isabel Fillardis
A atriz e cantora Isabel Fillardis fala à CARAS Brasil sobre 'Pretas do Brasil', show que celebra a força das mulheres negras na música

Isabel Fillardis (52) retorna à música com um projeto que vai além do palco: o espetáculo Pretas do Brasil. A turnê, que estreia em setembro por Brasília e depois segue para Rio de Janeiro, São Paulo, Campinas e Belo Horizonte, homenageia grandes nomes da música brasileira e resgata a memória de artistas negras que moldaram a cultura nacional.
“Desde que decidi voltar a cantar, tenho consciência de usar a minha voz para aquilo que acredito, usar a minha voz para propagar não só o meu legado, mas o de mulheres que fizeram e fazem parte da minha construção como cantora e artista”, afirma Isabel Fillardis em entrevista exclusiva à CARAS Brasil.
Um ato de resistência e afeto
Para a atriz e cantora, o espetáculo não é apenas um show musical, mas um gesto de reparação histórica.
“Acredito estar trazendo não só as minhas referências, mas acredito estar continuando a colocar luz na trajetória de mulheres, ou melhor, artistas que abriram espaços com suas vozes e militâncias. Desejo não deixar que o público esqueça delas, trazendo seus maiores sucessos e colocando no mundo na minha voz”, reflete.
O repertório mistura samba, R&B, MPB e ritmos latinos, com releituras marcantes de clássicos como Não Deixe o Samba Morrer, Zé do Caroço, Banho de Folhas, Sorriso Negro (em versão reggae) e Você Me Vira a Cabeça, reinventada em clima de bolero e salsa.

Arte que nasce da vida real
A força de Isabel no palco também vem de suas experiências pessoais. A artista é mãe de três filhos atípicos: Analuz, de 24 anos, diagnosticada com transtorno de ansiedade; Jamal, de 21, que enfrentou a Síndrome de West, uma condição neurológica rara que causa espasmos e microconvulsões; e Kalel, de 11 anos, diagnosticado com autismo e TDAH.
“Na verdade, sou mãe atípica três vezes. Todas essas experiências trazem à tona essa mulher que vocês estão vendo dentro e fora da arte. Essa ‘forja’, por mais dura que tenha sido muitas vezes, por mais desafiadora que seja diariamente, é a força que faz a artista desse palco flutuar. A dramaturgia traz o glamour que o palco pede, mas é a realidade que faz tudo brilhar. As pessoas estão precisando de verdade seguida de sonho”, declara Isabel.
Protagonista de sua própria trajetória
A artista assina a direção artística do espetáculo e destaca a importância de colocar sua identidade em cada detalhe.
“Comecei a fazer isso escrevendo minha própria biografia. Esse show tem minha direção artística e tem minha mão em tudo! Nessa etapa da minha vida, ser eu mesma nesse espetáculo vai fazer as pessoas me conhecerem ainda mais. É um prazer poder colocar o meu olhar, a minha essência em cada pedaço”, ressalta.
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Homenagem e reconhecimento
Eternizada recentemente na Calçada da Fama de Gramado, Isabel vê essa conquista como o início de uma nova etapa.
“No texto que o festival escreveu sobre mim, está assim: ‘um novo ciclo na minha trajetória…’. Acho que eles foram certeiros nessa colocação. Eu me sinto num novo ciclo cheio de novas sementes. É colocar luz em tudo que fiz até então e, ao mesmo tempo, um combustível para seguir e conquistar”, analisa.
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Um reencontro com a música
Isabel iniciou sua carreira musical nos anos 90, no grupo As Sublimes. Agora, retorna aos palcos com uma maturidade que se reflete no novo trabalho.
“A Isabel das Sublimes era uma menina que ainda não fazia ideia do lugar que estava ocupando nem do tamanho de sua representatividade. A volta para música é uma necessidade de obedecer a minha alma. É um reencontro com algo que foi plantado, e nessa germinação sofreu algumas intervenções importantes para sementes mais fortes ainda. O público vai ver uma nova cantora de timbre marcante, mas com a doçura e firmeza atrás de um sorriso que renasceu das cinzas”, afirma.
Pontes com o público
Com Pretas do Brasil, Isabel busca mais do que emocionar: ela quer criar conexões: “Criar pontes é o que faz as coisas acontecerem da melhor maneira. Por mais que o Brasil seja diverso, complexo, eu trago uma linguagem para todos. As artistas que homenageio são de gerações diferentes. Já começa por aí”, explica.
E sobre qual dessas artistas a atravessou de forma mais íntima? Isabel deixa no ar: “Tenho, sim, mas eu conto durante o show. Não dá para dar spoiler”.
Um espetáculo que ecoa vozes
Idealizado e protagonizado por Isabel Fillardis, Pretas do Brasil reverencia nomes como Dona Ivone Lara, Elza Soares, Zezé Motta, Leci Brandão, Alcione, Sandra de Sá, Ludmilla, Luedji Luna, Iza e Liniker.
Mais do que música, o projeto é um convite para sentir, refletir e celebrar a ancestralidade. Um espetáculo que honra a história das mulheres negras e reforça a força de Isabel como artista múltipla, ativista e voz potente da cultura brasileira.
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