Giselle de Prattes vive fase de retomada consciente e aposta em personagens mais complexas
Em cartaz com musical e prestes a estrear novo filme nas telonas, a atriz reflete sobre maturidade, construção de personagem e o desejo de ampliar narrativas femininas na sua trajetória artística

Em um momento de maturidade e novos atravessamentos na vida e na carreira, Giselle de Prattes (45) vive uma fase que mistura retomada, consciência e troca. Em cartaz com Diana – A Princesa do Povo, que chega ao Teatro Liberdade, em São Paulo, a partir de 15 de maio, e prestes a estrear no cinema com Minha Vida com Shurastey, a atriz também compartilha um vínculo especial com o filho, o ator Nicolas Prattes (29), com quem divide não só a profissão, mas um olhar sensível sobre o ofício. “A gente se respeita muito como artista. Às vezes conversamos sobre personagens, sobre processos, mas sem imposição. O Nicolas é muito estudioso, e eu admiro isso nele. Ao mesmo tempo, eu trago a minha vivência, então existe uma escuta mútua que é muito bonita.”
Essa troca, que acontece de forma natural, se soma a um momento profissional em que Giselle parece mais segura das próprias escolhas. Ao transitar entre teatro e cinema, ela reconhece diferenças profundas entre as linguagens, mas também um ponto de equilíbrio que sustenta sua atuação. “Eu enxergo como uma retomada com consciência. Não é só sobre estar em cena, é sobre saber por que estou ali. O teatro me exige uma entrega diária, quase ritualística, enquanto o cinema traz uma camada mais íntima, mais silenciosa. Poder transitar entre essas linguagens me alimenta como artista e me faz sentir mais madura, mais segura das minhas escolhas e, ao mesmo tempo, mais aberta para o novo.”
No palco, ela interpreta Camilla Parker Bowles (78), hoje Rainha da Inglaterra, no musical Diana – A Princesa do Povo. Figura cercada por julgamentos e leituras simplificadas, a personagem se torna justamente o ponto de partida para a construção da atriz. Ao invés de reforçar rótulos, Giselle parte de um olhar mais humano e interessado nas contradições. “A Camilla costuma ser vista a partir de um lugar muito reduzido. E eu quis olhar para ela como mulher. Uma mulher que ama, que faz escolhas e que também paga um preço por elas. Quando você tira o julgamento e se aproxima com empatia, surgem nuances muito mais interessantes.”
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Sem espaço para improviso
A encenação, dirigida por Tadeu Aguiar (66), exige precisão e constância, o que transforma a repetição em um exercício técnico e emocional. Sem espaço para improviso, a atriz trabalha a permanência da cena a partir da presença. “No teatro, você vive a mesma cena todos os dias, mas ela não pode virar automática. É um exercício constante de estar disponível. O texto do colega muda, a música ganha outra cor, e você precisa acompanhar isso com verdade, mantendo viva a memória da personagem em cada apresentação.”
Essa atenção ao detalhe também marca a forma como ela constrói personagens em diferentes formatos. Se no palco o gesto precisa alcançar o público de maneira ampliada, diante das câmeras o trabalho se concentra nos mínimos sinais. “No teatro, o corpo e a voz precisam chegar até o outro, existe uma energia que se sustenta ao vivo, todas as noites. Já no cinema e na televisão, tudo é mais interno. Um olhar, uma respiração, já contam muita coisa. A câmera capta o pensamento. Mas a base é sempre a mesma: entender quem é essa personagem e o que a atravessa.”

Termômetro afetivo e profissional
Dentro de casa, esse olhar atento ganha uma camada ainda mais pessoal. Nicolas acompanha sua trajetória desde sempre, e hoje se tornou uma espécie de termômetro afetivo e profissional. “Ele me acompanha desde que nasceu, e isso é muito especial pra mim. É um olhar atento, mas também muito amoroso. Quando vem alguma observação, eu sei que vem de um lugar de cuidado, de alguém que quer me ver crescer, e isso, pra mim, é muito valioso.”
Com décadas de carreira, Giselle segue em movimento, agora com desejos mais claros sobre as histórias que quer contar. O interesse está em personagens que desafiem, provoquem e ampliem o olhar sobre o feminino. “Tenho muita vontade de falar sobre mulheres maduras, complexas, contraditórias, mulheres reais. Personagens que não sejam óbvios, que me tirem do lugar confortável. Nessa fase da vida, me interessa a intensidade do projeto, o quanto aquilo vai me transformar e, consequentemente, transformar o público.”