Teatro / HABITAT

Rafael Primot transforma o cancelamento em teatro: ‘Meu habitat é a criação’

Em entrevista à CARAS Brasil, Rafael Primot fala sobre Habitat, espetáculo inspirado em fatos reais que mergulha na cultura do cancelamento, na manipulação da verdade e na desumanização promovida pelas redes sociais

Rafael Primot em Habitat - Foto: Kim Leekyung/Divulgação

Na era em que julgamentos são feitos em segundos e a verdade muitas vezes perde espaço para a narrativa que viraliza, o teatro surge como lugar de pausa, escuta e reflexão. É desse choque entre o tempo acelerado das redes sociais e a necessidade de olhar com mais cuidado para o outro que nasce Habitat, espetáculo com dramaturgia de Rafael Primot (43), em cartaz até 5 de março de 2026, no Teatro Estúdio, em São Paulo (SP).

Inspirada em fatos reais, a peça acompanha o embate entre três personagens atravessados por um crime ocorrido dentro de um supermercado: a jornalista investigativa Nádia, vivida por Fernanda de Freitas (45), o trabalhador braçal Adailton, interpretado por Primot, e o gerente da loja, Tite, encarnado por Rogério Brito (52). A partir desse incidente, o que se vê não é apenas a busca por justiça, mas uma disputa feroz por versões, narrativas e julgamentos públicos — especialmente nas redes sociais.

Percebi que a gente estava deixando de ouvir uns aos outros”, afirma Primot. “As pessoas passaram a ser julgadas e condenadas em poucos segundos, sem qualquer cuidado em entender o que realmente aconteceu. Essa brutalidade me assustou.” Para ele, o teatro surge como antídoto a esse processo: “É o espaço da pausa, do olhar atento, da complexidade. Quando percebi que estávamos perdendo isso na vida real, senti que precisava transformar essa inquietação em cena”.

Perda da humanidade

A dramaturgia de Habitat não parte de um único episódio, mas de um acúmulo de situações que atravessaram o autor ao longo dos anos — linchamentos virtuais, distorções de fatos e o envolvimento coletivo nesse processo. Um estímulo decisivo veio de uma conversa com a produtora Célia Forte ao se depararem juntos com uma notícia de linchamento. “Ficamos em choque. Foi ali que comecei a escrever essa história”, relembra.

No centro da peça está o fenômeno do cancelamento — e o que mais assusta Primot não é apenas a crítica pública, mas a perda da humanidade. “O cancelamento transforma pessoas em caricaturas de seus erros. A falta de diálogo, de contexto e de escuta é muito perigosa”, diz. “Quem é cancelado deixa de ser um ser humano e passa a ser só um alvo. Onde foi que nos perdemos como espécie?”

Essa lógica aparece diretamente na estrutura do espetáculo. Para o autor, hoje a verdade frequentemente importa menos do que a versão que ganha força nas redes. “A narrativa que viraliza passa a ser ‘a verdade’, mesmo quando não é”, afirma. Em Habitat, os três personagens vivem o mesmo fato, mas cada um a partir de sua perspectiva — e o desfecho não é determinado apenas pelo que aconteceu, mas por como a história é contada, compartilhada e julgada. “A peça é um ringue: três jogadores, quatro partes e milhares de opiniões. A dúvida precisa permanecer”.

Rafael Primot, Fernanda de Freitas e Rogério Brito no espetáculo Habitat - Foto_ Kim Leekyung
Rafael Primot, Fernanda de Freitas e Rogério Brito no espetáculo Habitat – Foto_ Kim Leekyung

Desigualdade social

Ao colocar em confronto uma jornalista, um trabalhador braçal e um executivo, Habitat também expõe desigualdades profundas da sociedade brasileira. Embora as redes sociais aparentem ser um espaço democrático, Primot aponta que elas amplificam diferenças. “Nem todos partem do mesmo lugar. Quem tem mais prestígio, mais acesso e mais voz acaba sendo ouvido de outra forma”, explica. “Mesmo quando todos estão no mesmo feed, as hierarquias continuam operando”.

A escolha do supermercado como cenário reforça esse espelhamento social. Um espaço cotidiano, aparentemente neutro, que reúne todas as classes e perfis, mas onde raramente há verdadeira convivência. “É um lugar por onde todos perambulamos, mas nem sempre nos vemos”, diz. “E foi justamente num supermercado que aconteceu o crime real que inspirou a peça”.

Desafio

Além de assinar a dramaturgia, Rafael Primot também está em cena como Adailton, o assassino confesso. Conciliar o olhar do autor e do ator é um desafio que ele encara com prazer. “Como ator, preciso esquecer o texto que escrevi e confiar na direção”, afirma. A parceria com Eric Lenate e Lavínia Pannunzio foi essencial nesse processo. “O texto deixa de ser ‘meu’ e passa a ser dos personagens”. Com humor, ele confessa: “Até para decorar é difícil. Às vezes me pego pensando: de onde será que eu tirei isso?”.

Reencontro

O reencontro com Fernanda de Freitas em cena também é um dos destaques do projeto. Os dois já haviam trabalhado juntos em Tapas e Beijos e na peça O Desaparecimento do Elefante. “A Fernanda é um furacão criativo”, define. “Generosa, curiosa, comprometida com a verdade da personagem. Dividir cena com ela é estar sempre alerta — ela te provoca, te desafia e te acolhe”. O elenco se completa com Rogério Brito, que Primot descreve como uma “surpresa maravilhosa”, unindo leveza fora de cena e intensidade no palco.

Rafael Primot como Stephanie em Tapas & Beijos
Rafael Primot como Stephanie em Tapas & Beijos

‘Meu habitat é a criação’

Fora de Habitat, Rafael Primot segue envolvido em novos roteiros, séries, adaptações e projetos no teatro e no audiovisual. Na vida pessoal, busca pausas, viagens e tempo com quem ama. Ainda assim, ele não hesita ao definir onde realmente se sente em casa: “Meu habitat é a criação. Estar em cena é onde eu me sinto mais vivo”.