Cinema / DAVID CARRADINE

Ator veterano teve morte acidental e trágica que intrigou o mundo

Se estivesse vivo, astro teria feito 89 anos; ele deixou carreira marcante e investigações cercadas de mistério sobre sua partida

Cena de Kill Bill - Volume 2 (2004) (Foto: Divulgação)

No último dia 8 de dezembro, David Carradine (1936-2009) — astro de Kung Fu e de Kill Bill — teria completado 89 anos. Ícone das artes marciais na cultura pop e integrante de uma das famílias mais tradicionais de Hollywood, o ator teve uma trajetória marcada por grandes papéis, polêmicas e uma das mortes mais intrigantes da indústria cinematográfica.

Nascido John Arthur Carradine, David era filho do lendário John Carradine (1906-1988) e cresceu em meio a cenários, ensaios e câmeras. Ainda jovem, tentou evitar o alistamento militar, mas acabou servindo ao Exército dos Estados Unidos em 1960. Foi lá que começou a desenhar materiais de treinamento e se envolveu com a criação de um grupo teatral — experiência que ajudou a moldar sua carreira futura.

Mesmo no serviço militar, Carradine viveu momentos conturbados: enfrentou corte marcial por furto e se casou no Natal de 1960 com Donna Lee Becht (19347-2003). Tornou-se pai em 1962 e foi dispensado com honra após dois anos de serviço.

Ascensão à fama: o monge no Velho Oeste

A consagração veio nos anos 1970, quando interpretou Kwai Chang Caine, o monge Shaolin protagonista da série Kung Fu. A produção ficou marcada pela mistura entre filosofia oriental e faroeste, transformando Carradine em símbolo das artes marciais na TV — mesmo que o papel, originalmente pensado para Bruce Lee (1940-1973), tenha sido entregue a ele por decisão dos produtores.

Ao longo dos anos, colecionou papéis em produções de ação e ficção científica, tornando-se referência em filmes B e personagens intensos. Atuou em Boxcar Bertha (1972), Death Race 2000 (1975), Cannonball (1976), Q – The Winged Serpent (1982) e Lone Wolf McQuade (1983). Em 1976, recebeu indicação ao Globo de Ouro ao interpretar Woody Guthrie em Bound for Glory.

Teve ainda outras indicações por Kung Fu, pela minissérie North and South (1985) e um Emmy pela série que o consagrou.

Assista a um trecho de David Carradine em Kung Fu:

O renascimento em “Kill Bill”

Em 2003, Carradine voltou ao topo do estrelato ao interpretar Bill em Kill Bill, dirigido por Quentin Tarantino (62). A atuação lhe rendeu sua quarta indicação ao Globo de Ouro e o prêmio Saturn de Melhor Ator Coadjuvante, reacendendo seu prestígio em Hollywood.

Ao mesmo tempo, o ator acumulava um histórico de prisões, processos e escândalos envolvendo abuso de substâncias. Também era músico, diretor e estudioso de artes marciais — tendo sido incluído no Hall da Fama do Museu de História das Artes Marciais em 2014.

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Uma morte trágica e cercada de dúvidas

Em 4 de junho de 2009, a equipe do filme Stretch encontrou David Carradine morto em seu quarto no Swissôtel Nai Lert Park, em Bangkok, faltando apenas três dias para o fim das filmagens. Ele tinha 72 anos.

A cena chocou autoridades e o mundo do entretenimento: Carradine estava nu, com cordas atadas ao pescoço e aos genitais, presas ao armário do quarto. A polícia inicialmente apontou suicídio por enforcamento. Porém, as circunstâncias rapidamente descartaram essa hipótese.

As câmeras do hotel não registraram entrada de outras pessoas, a porta estava trancada por dentro e nenhum sinal de violência foi encontrado. Investigadores passaram então a trabalhar com a possibilidade de asfixia autoerótica — prática sexual que envolve privação de oxigênio para intensificação do prazer.

O general Worapong Siewpreecha, da Polícia Metropolitana de Bangcoc, explicou na época: “Não podemos afirmar que foi suicídio. Ele pode ter morrido em um acidente durante masturbação.” O legista Michael Baden, contratado pela família, também concluiu que se tratava de asfixia acidental.

Revelações e processos após a morte

A polêmica ganhou novo peso quando Marina Anderson (73), ex-esposa do ator, revelou publicamente que Carradine tinha hábitos sexuais considerados “perigosos”, envolvendo dominação, auto submissão e práticas que classificou como “potencialmente fatais”.

Um ano após a morte, a viúva Annie Carradine (64) entrou com um processo por homicídio culposo contra a produtora francesa responsável por Stretch, alegando negligência. Segundo o processo, David deveria ter recebido assistência integral durante a estadia na Tailândia, mas acabou sendo deixado sozinho no hotel.

A ação alegava que: Carradine havia sido esquecido pelo assistente após não atender o telefone; deveria ter sido acompanhado para um jantar profissional naquela noite; a produtora não forneceu condições e suporte adequados, como previa o contrato. O caso foi resolvido fora dos tribunais, em acordo cujo valor nunca foi divulgado.

Legado

Carradine foi sepultado no Forest Lawn Memorial Park, em Hollywood Hills, e deixou mais de cinco décadas de carreira. Apesar das controvérsias, permanece como um dos rostos inesquecíveis da cultura pop — seja como o sábio monge Caine, o implacável Bill ou o artista indomável que viveu intensamente diante e atrás das câmeras.

David Carradine em 'Kill Bill' (Foto: Divulgação)
David Carradine em ‘Kill Bill’ (Foto: Divulgação)