Dez anos depois de iniciar a pesquisa que deu origem a “Helenas”, a Cia de Teatro Os Satyros retoma um dos espetáculos mais marcantes do Satyros Laboratório. Dirigida por Gustavo Ferreira (41), a nova montagem reúne parte do elenco original e novos artistas para revisitar a obra sob um novo olhar, mantendo no centro da narrativa uma questão que permanece urgente: a violência contra as mulheres.
Inspirado no “Malleus Maleficarum – O Martelo das Feiticeiras”, tratado publicado em 1486 pelos inquisidores Heinrich Kraemer (1430-1505) e James Sprenger (1435-1495), o espetáculo estabelece uma ponte entre a perseguição às mulheres acusadas de bruxaria durante a Inquisição e diferentes formas de violência de gênero ainda presentes na sociedade.
Quando estreou, em 2017, “Helenas” já propunha esse diálogo entre passado e presente. Agora, quase uma década depois, a remontagem ganha novos significados diante da permanência da violência contra as mulheres e do aumento dos casos de feminicídio.
Mais do que recuperar uma montagem anterior, o retorno marca um reencontro entre artistas que participaram do processo original e uma nova geração. A proposta é revisitar o material a partir das experiências acumuladas ao longo desses anos, ampliando as possibilidades de leitura da obra.
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Um tratado usado contra as chamadas ‘bruxas’
Considerado um dos mais conhecidos textos relacionados à perseguição às bruxas na Europa, o “Malleus Maleficarum” serviu como referência para identificar e perseguir pessoas acusadas de heresia. As mulheres estavam entre os principais alvos dessas acusações.
É a partir desse documento histórico que “Helenas” constrói sua investigação sobre a condição feminina e a violência praticada contra as mulheres em diferentes períodos.
O espetáculo não pretende apenas revisitar um episódio distante da história. Ao colocar o tratado em diálogo com o presente, a montagem questiona como determinadas estruturas de violência e controle sobre os corpos femininos continuam encontrando espaço na sociedade contemporânea.

Dez anos depois
A primeira versão de “Helenas” permaneceu em cartaz durante seis temporadas, ao longo de três anos, e se consolidou como um dos trabalhos de destaque do Satyros Laboratório.
Criado a partir das Oficinas Livres de Interpretação da companhia, o núcleo é voltado à pesquisa e à experimentação cênica. A iniciativa teve origem há cerca de três décadas, ainda em Portugal, e posteriormente foi reestruturada em São Paulo, em 2016.
Para Os Satyros, o retorno de “Helenas” também representa a continuidade de uma forma de criação baseada na investigação coletiva e na discussão de temas que atravessam a sociedade.
Fundada em 1989 por Ivam Cabral (63) e Rodolfo García Vázquez (64), a companhia acumula mais de três décadas de atuação e uma trajetória marcada pela pesquisa e experimentação no teatro contemporâneo.
Com a remontagem, “Helenas” recupera uma história que nasceu há dez anos, mas que, diante da realidade atual, ainda está longe de ter chegado ao fim.

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