Roberta Lopes fala sobre pele, tempo e identidade feminina
Com foco na mulher 40+, dermatologista aborda envelhecimento, autoestima, prevenção e a importância de um cuidado integral

Em um tempo em que a imagem costuma chegar antes da escuta, Roberta Lopes prefere começar pelo que nem sempre aparece no espelho. Antes da ruga, da mancha, da flacidez ou da queixa estética, ela busca entender em que fase da vida aquela mulher está, o que mudou no corpo, como estão o sono, os hormônios, o humor e a autoestima. Para ela, a pele não se explica sozinha. Muitas vezes, funciona como um sinal visível de processos que envolvem envelhecimento, maternidade, hábitos, sobrecarga e a tentativa de continuar se reconhecendo ao longo do tempo. Nesse percurso, a mulher deixa de levar ao consultório apenas uma queixa pontual e passa a trazer dúvidas mais amplas sobre identidade, bem-estar, autoconfiança e as mudanças que acompanham cada fase da vida.
Esse olhar ajuda a compreender sua atuação. Em vez de separar dermatologia clínica, estética e saúde da mulher, Roberta organiza seu raciocínio a partir de uma visão mais ampla, em que técnica e escuta caminham juntas. A formação médica, a experiência hospitalar, a especialização em dermatologia, a vivência internacional e, mais tarde, a maternidade consolidaram uma prática voltada principalmente à mulher adulta, com atenção especial às transformações mais evidentes a partir dos 40 anos. É justamente nessa fase, segundo ela, que muitas questões deixam de ser apenas estéticas e passam a tocar também autonomia, segurança e qualidade de vida.
Origens e formação
O desejo de ser médica surgiu cedo, ainda na infância, mesmo sem tradição familiar na área. Roberta lembra que a avó teve papel decisivo nesse início. “A minha vontade de ser médica veio da minha avó, sempre incentivando. Ela pegava uma reportagem e dizia: ‘olha aqui, medicina’.” Formada em Medicina em São Paulo, com especialização em Dermatologia pela UFRJ, ela passou inicialmente pela clínica médica, etapa que considera fundamental para o olhar que leva hoje ao consultório. Ao relembrar esse período, destaca a dimensão humana do cuidado. “Durante a residência na UFRJ, vi muitas doenças que hoje não aparecem no dia a dia do consultório.” Dessa fase, trouxe grande exposição a doenças, formação clínica sólida e a percepção de que a pele não deve ser analisada de forma isolada.
Esse percurso foi ampliado por uma experiência internacional em um hospital vinculado a Harvard. “Quando fui convidada, ainda não tinha inglês fluente, mas decidi ir mesmo assim.” Antes da viagem, dedicou um ano ao estudo do idioma. “Me preparei e foi uma experiência muito enriquecedora.” Com título de especialista em dermatologia e experiência internacional em hospital vinculado a Harvard, consolidou uma atuação em que a base clínica permanece central. Para Roberta, a dermatologia estética, quando bem indicada, é uma extensão da medicina.
A virada profissional
Se a formação trouxe repertório, a maternidade marcou um momento decisivo de transformação no seu olhar. “O start foi quando me tornei mãe e passei a enxergar a mulher como um todo, entendendo que ela muitas vezes está atravessando um verdadeiro furacão.” Esse entendimento se traduz no conceito que define como mulher 360, no qual pele, hormônios, maternidade, autoestima, sexualidade, estilo de vida e envelhecimento não podem ser vistos de forma isolada. “O atendimento humanizado não começou agora. Ele já existia na forma como eu investigava a origem das queixas, mas ganhou ainda mais profundidade depois da maternidade.”

Ao falar sobre beleza e envelhecimento, Roberta defende a naturalidade como continuidade da identidade. “Envelhecer bem é inevitável, porque o tempo passa para todos. A questão é como você atravessa esse processo.” Para ela, não se trata de apagar a idade nem de buscar um rosto que copie referências externas, mas de preservar reconhecimento e coerência. “No fim, trata-se de estar bem consigo mesma.” Essa lógica também aparece quando comenta o excesso de comparação nas redes e a pressão por resultados padronizados. Em vez de reproduzir um ideal pronto, ela procura devolver a mulher ao centro da decisão. Na prática, isso significa acolher uma paciente que muitas vezes chega insegura, impactada por cobranças externas e pela sensação de que precisa responder ao tempo sem perder a própria identidade.
O que faz na prática
Na rotina clínica, Roberta concentra grande parte da atenção em mulheres adultas, especialmente naquelas que começam a perceber mudanças mais marcantes a partir dos 40 anos. “A partir dos 45, principalmente, já observamos alterações hormonais, como a queda do estrogênio.” Segundo ela, essas mudanças podem impactar pele, cabelo, unhas e até o humor. “A mulher 40+ precisa de um olhar mais sensível e de uma escuta mais atenta para compreender todas essas dinâmicas.” Mais do que procedimentos específicos, seu foco está no cuidado com a saúde e a autoestima da mulher madura, sem reduzir tudo à aparência. É nesse momento que muitas pacientes começam a se perguntar não apenas como tratar uma mancha ou uma flacidez, mas como atravessar essa etapa com mais conforto, informação e naturalidade.
Nesse contexto, ela observa que o rosto costuma concentrar a maior parte das atenções, enquanto outras áreas do corpo ficam em segundo plano. “Muitas vezes, a atenção se concentra apenas no rosto, enquanto outras áreas do corpo, inclusive a íntima, ficam em segundo plano.” Nos últimos anos, passou a aprofundar também o cuidado com a saúde íntima feminina, tema ainda pouco explorado, mas com impacto direto na qualidade de vida. Para ela, o assunto precisa ser tratado com menos tabu e mais informação, sobretudo em fases como pós-parto, climatério e menopausa. Queixas como dor, secura vaginal, desconforto e incontinência urinária, segundo a médica, podem ser frequentes, mas não devem ser naturalizadas. “É comum ter incontinência urinária, mas não é normal.” Nesse campo, ela observa que muitas mulheres ainda chegam ao consultório carregando vergonha, silêncio e a ideia de que certos incômodos seriam apenas “da idade”. Um dos pontos que mais procura esclarecer é justamente esse: aquilo que é comum nem sempre deve ser entendido como normal.
A estética segue presente, mas com responsabilidade. “O que faz diferença é a indicação correta e a leitura individual de cada paciente, do formato do rosto ao tipo de pele.” Ela também reforça que a tecnologia não deve ser associada automaticamente ao excesso. “Laser, preenchimento e bioestimuladores podem contribuir para um cuidado mais natural.” Sobre o ácido hialurônico, destaca: “Existe hoje um olhar mais crítico, o que não significa perda de espaço, mas sim a necessidade de indicação criteriosa.” Na sua visão, rejuvenescimento não significa apagar a história do rosto, e sim acompanhar as mudanças com mais equilíbrio. O mesmo vale para o corpo e para a saúde íntima feminina, que, segundo ela, precisam entrar nessa conversa de forma mais franca, menos constrangida e mais conectada ao bem-estar da mulher.
Na prática clínica, também chama atenção para questões muitas vezes negligenciadas, como o câncer de pele. “O paciente chega pela ruga”, comentou. Por isso, a avaliação vai além da queixa inicial. “Eu peço para ele tirar sua vestimenta, porque eu quero ver ela por inteiro.” Nesse raciocínio, o exame global do corpo faz parte de um cuidado que procura enxergar o paciente de forma menos fragmentada.
O lado humano e o futuro
Para Roberta, humanização vai além de um atendimento cordial. “É escutar ativamente, entender o momento de vida e todas as fases pelas quais a paciente está passando.” Entre mulheres 40+, uma dúvida é recorrente: por onde começar. “Muitas nunca fizeram procedimentos ou não têm rotina de cuidados, e a pergunta é sempre essa.” A resposta, segundo ela, está no básico bem feito. Limpeza adequada, hidratação, antioxidantes e proteção solar são pilares importantes, aliados a hábitos consistentes. “Nada disso funciona sem um estilo de vida equilibrado.” Em sua leitura, sono, alimentação, atividade física, conexões e saúde emocional também participam da forma como a mulher envelhece e se percebe. Mais do que propor excessos, ela defende um cuidado possível, contínuo e coerente com a vida real de cada paciente.
Esse cuidado, ressalta, não precisa ser conduzido de forma isolada. Quando necessário, o acompanhamento se articula com outras especialidades, porque hormônios, nutrição, massa muscular, circulação e pele se atravessam na experiência de cada paciente. É também por isso que ela vê com cautela o excesso de informação em torno de rotinas prontas e tendências de beleza. Em vez de acúmulo, prefere coerência, constância e individualização. Para ela, isso também ajuda a combater mitos silenciosos que ainda cercam a saúde da mulher, especialmente a ideia de que sentir dor, perder qualidade de vida ou deixar de se reconhecer no próprio corpo faz parte inevitável do envelhecimento.
Sobre o futuro, destaca a importância da atualização constante. “Tenho trabalhos científicos publicados e sigo aprofundando meus estudos.” Atualmente, cursa pós-graduação em Medicina do Estilo de Vida no Hospital Israelita Albert Einstein, incorporando temas como sono, nutrição, atividade física, manejo do estresse e saúde emocional. Para ela, o envelhecimento da pele não pode ser dissociado do funcionamento do organismo como um todo. Essa etapa reforça sua visão da mulher 360, unindo dermatologia, ciência e estilo de vida em um cuidado mais amplo.
“Cuidar da pele nunca foi apenas tratar o que aparece no espelho, mas compreender a história, o tempo e a identidade de cada mulher.”
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